Meditação para o 23º Domingo depois do Pentecostes. Confiança em Deus

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 9, 18-26

Naquele tempo, 18enquanto Jesus lhes dizia estas coisas, aproximou-se um chefe que se prostrou diante dele e disse: «Minha filha acaba de morrer, mas vem impor-lhe a tua mão e viverá.»

19Jesus, levantando-se, seguiu-o com os discípulos. 20Então, uma mulher, que padecia de uma hemorragia há doze anos, aproximou-se dele por trás e tocou-lhe na orla do manto, 21pois pensava consigo: ‘Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada.’ 22Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse-lhe: «Filha, tem confiança, a tua fé te salvou.» E, naquele mesmo instante, a mulher ficou curada.

23Quando chegou a casa do chefe, vendo os flautistas e a multidão em grande alarido, disse: 24«Retirai-vos, porque a menina não está morta: dorme.» Mas riam-se dele. 25Retirada a multidão, Jesus entrou, tomou a mão da menina e ela ergueu-se. 26A notícia espalhou-se logo por toda aquela terra.

Meditação para o 23º Domingo depois do Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o Evangelho do dia, e aprenderemos:

1.° A recorrer a Deus com confiança em todas as nossas aflições;

2.° A não confiar nas criaturas.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De não contarmos com os meios humanos para remover as dificuldades em que nos acharmos;

2.° De chamarmos então Deus em nosso socorro com orações fervorosas, perseverantes, acompanhadas de humildade em vista das nossas misérias, e de confiança na misericórdia divina.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Eclesiástico:

“Nenhum esperou no Senhor, que fosse confundido” – Nullus speravit in Domino et confusus est (Ecl 2, 11)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor curando os enfermos que recorrem a Ele, e ensinando-nos com isso que é a Ele que devemos recorrer nas penalidades da vida. Admiremos e respeitemos o seu poder; bendigamos a Sua bondade.

PRIMEIRO PONTO

Devamos em todas as nossas aflições recorrer a Deus com Confiança

O Evangelho deste dia mostra-nos, antes que tudo, um príncipe da sinagoga que, aflito com a morte de sua filha, se chega a Jesus, se lhe prostra aos pés, e O adora como senhor da vida e da morte:

“Senhor, diz ele, a minha filha acaba de expirar agora; mas vinde, ponde a vossa mão sobre ela, e viverá”

É possível haver mais fé no poder do Salvador, mais confiança na sua bondade? Por isso a sua fé e confiança não ficaram frustradas. Jesus toma pela mão a menina, e ela levanta-se. A cura é subitânea, completa; todos são forçados a reconhecer quanto convém confiar no poder e bondade de Jesus e quanto Ele sente os nossos males, e se compadece de todas as nossas aflições. No mesmo dia, uma mulher que, havia doze anos, padecia de um fluxo de sangue, não ousando apresentar-se diante do Salvador, tão indigna se julgava de Lhe falar, se chegou por detrás dEle, e Lhe tocou a orla do vestido, dizendo consigo mesma:

“Se eu tocar ainda que seja somente o seu vestido, serei curada”

Jesus, que conhecia o que se passava no fundo dos corações, ouviu o que ela dizia interiormente; e vendo, por um lado, tanta humildade, e por outro, tão viva fé e tão completa confiança no mais fraco dos meios, no simples contato do seu vestido, volta-se, e diz-lhe:

“Tem confiança, filha; a tua fé te salvou”

E imediatamente ficou sã. Admirável efeito da oração feita com humildade e confiança: a humildade sem a confiança é inútil; a confiança sem a humildade é presunção. A humildade e a confiança juntas podem tudo sobre o coração de Deus. Feliz aquele que com estas santas disposições assiste a Missa, comunga, visita o Santíssimo Sacramento, onde, muito melhor que o vestido do Salvador, possuímos o Seu sangue, a Sua alma e divindade.

SEGUNDO PONTO

Não devemos confiar nas criaturas

O príncipe da sinagoga tinha a sua casa cheia de parentes, de amigos, de carpideiras, de tocadores de flauta, e de uma multidão de gente, que havia acudido a consolá-lo. Mas que podia fazer toda essa gente para lhe aliviar a dor? Os homens, diz Jacó, são consoladores importunos (1), e todos os meios humanos, sem Deus, são insuficientes ou fracos para curar os nossos males. Por isso o Salvador manda sair da casa toda aquela gente; pois não precisa do concurso nem do sufrágio de nenhuma testemunha; basta Ele só para as obras que quer fazer, e prova-o ressuscitando com uma palavra a filha do príncipe da sinagoga. Não o provou menos claramente, curando de repente a pobre mulher que O seguia. Ela tinha recorrido a muitos médicos, e experimentado muitos remédios; mas tudo isto fôra inútil. Dirige-se então a Jesus com fé e confiança, e no mesmo instante fica sã. Tão verdade é, que devemos pôr em Deus só a nossa confiança, sem todavia desprezarmos os socorros humanos, porque seria tentar a Deus não recorrer a eles; mas, empregando-os, devemos esperar que não terão senão a eficácia que aprouver a Deus dar-lhes, e que não lh’a dará senão segundo a medida da nossa confiança no seu poder e bondade.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Consolatores onerosi (Jó 16, 1)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 158-161)