Meditação para o 5º Domingo depois do Pentecostes. Caracteres da verdadeira e sólida Virtude

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 5, 20-24

20Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino do Céu.»

21«Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo. 22Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar ‘imbecil’ será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar ‘louco’ será réu da Geena do fogo.

23Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta.

Meditação para o Quinto Domingo depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos a primeira palavra do Evangelho do dia: Se a vossa justiça, não for maior e mais perfeita do que a dos escribas e a dos fariseus, não entrareis no reino dos céus; e aprenderemos dali, que a verdadeira e sólida virtude é:

1.° Interior;

2.º Humilde;

3.° Afável.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De darmos à nossa virtude estes três caracteres;

2.º De procurarmos principalmente em ser afáveis e humildes para toda a gente.

Conservaremos como ramalhete espiritual as palavras do nosso Evangelho:

“Se a vossa justiça não for maior e mais perfeita do que a dos escribas e a dos fariseus, não entrareis no reino dos céus” (Mt 5, 20)

Meditação para o Dia

Adoremos com amor e temor Nosso Senhor dizendo-nos, para o bem das nossas almas, esta grave e solene palavra: Se não fordes mais perfeito do que os escribas e os fariseus. não entrareis no reino dos céus. Estes fariseus jejuavam duas vezes na semana, faziam longas e frequentes orações, pagavam com exatidão o dizimo, e pregavam quase continuamente. Quem fizesse hoje outro tanto, passaria por um santo na opinião dos homens; e todavia para o ser, no sentir de Deus, diz-nos Jesus Cristo, que se deve fazer muito mais. Demos-Lhe graças por este ensino, e supliquemos-Lhe que nos faça compreender bem os caracteres da verdadeira e sólida virtude.

PRIMEIRO PONTO

A verdadeira virtude é Interior

Os fariseus punham o seu principal cuidado no exterior. Observando escrupulosamente as menores cerimônias da lei e as tradições de seus pais, em toda a parte aparentavam um exterior modesto; e no fundo de seu coração, transgrediam essa mesma lei com afeições, vistas e intenções, em que tinha mais parte a criatura do que Deus; semelhantes, diz Jesus Cristo, aos sepulcros branqueados que parecem por fora formosos aos homens, e por dentro estão cheios de toda a asquerosidade. Oh! Quantos cristãos há ainda hoje, que são verdadeiros sepulcros branqueados, grandes observadores das práticas exteriores, e por dentro rancorosos, vingativos, invejosos, cheios de defeitos, que procuram ocultar aos homens! Não é esta a verdade e sólida virtude. Não basta parecer justo aos olhos do mundo, que só vê o que está patente; é necessário sê-lo aos olhos de Deus, que vê o fundo do coração (1). Por mais boas obras e por mais atos de edificação que se façam, se a intenção não é reta e santa, se intuitos humanos, motivos secretos de interesse, o desejo de nos distinguirmos, a vaidade e o orgulho nos inspiram, a nossa virtude é falsa porque só é exterior; é uma moeda de má liga, que não será recebida perante Deus; é um disfarce, que não fará senão tornar-nos mais condenáveis. Examinemos aqui a nossa consciência.

SEGUNDO PONTO

A verdadeira virtude é Humilde

Os fariseus só buscavam a estima dos homens; oravam no meio das praças públicas a fim de que toda
a gente os visse; faziam alardo das esmolas, que queriam dar; numa palavra, só tinham em vista nas suas obras alcançar fama e estima (2). Oh! Quantos cristãos se lhes assemelham! Desejosos da consideração e proeminência, querem que os outros os estimem, os honrem e os tratem com toda a deferência (3). A verdadeira virtude é muito diferente. É humilde sem se buscar a si mesma. Não é a nós que pertence avaliar-nos, nem querer que nos avaliem; é a Deus que pertence julgar-nos e recompensar-nos. A Ele só toda a honra e glória (4). É verdade, que devemos edificar os nossos irmãos com o bom exemplo; mas se as boas obras, que fazemos, são públicas, a intenção, com que nos propomos agradar semente a Deus, deve sempre ficar encerrada no coração.

Temos nós estes sentimentos de uma alma verdadeiramente humilde, que em tudo o que obra, só põe a mira em Deus, e não em si nem na criatura?

TERCEIRO PONTO

A verdadeira virtude é Afável

Os fariseus, cheios de estima para consigo, só tinham desprezo para os outros: Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens (5), dizia o fariseu orando no templo; e ousavam arguir Jesus Cristo de comer e de conversar com os pescadores. Não é assim que procede a verdadeira virtude. Não tem desprezo nem palavras desagradáveis para pessoa nenhuma; como põe a sua própria estima abaixo de toda a gente, acolhe toda a gente com atenções e respeito, com benevolência e caridade; só profere palavras afáveis e obsequiosas (6).

Examinemos se a nossa virtude tem este caráter, se não dizemos algumas vezes palavras ríspidas, próprias para ofender e contristar o próximo.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Homo videt ea quae parent: Dominus autem intuetur cor. (1Rs 16, 7)

(2) Omnia opera sua faciunt, ut videantur ab hominibus (Mt 23, 5)

(3) Amant primos recubitus in caenis… salutationes in foro et vocari ab hominibus Rabbi (Mt 22, 6)

(4) Soli Deo honor et gloria (1 Tm 1, 17)

(5) Non sum sicut caeteri hominum (Lc 18, 11)

(6) Favus distillans, labia (Ct 4, 11)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 232-236)