Meditação para a Vigésima Quarta Quarta-feira depois de Pentecostes. Caminho do Mundo e caminho de Jesus Cristo

Meditação para a Vigésima Quarta Quarta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Com um espírito e máximas tão contrárias, como o temos meditado, e evidente que Jesus Cristo e o mundo deve seguir caminhos diferentes. Consideraremos:

1.° Em que diferem estes dois caminhos;

2.° Que o caminho de Jesus Cristo é o único que deve seguir todo o cristão.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De perguntarmos a nós mesmo muitas vezes:

“Como obraria Jesus Cristo?”

A fim de obrar do mesmo modo;

2.° De Lhe protestarmos frequentes vezes que queremos, como Ele, desprezar a ambição, o desejo de juntar riquezas e de gozar, e ter, a seu exemplo, uma vida sempre modesta e sem afetação.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra que Nosso Senhor dizia dos homens mundanos:

“Deixai-os seguir o seu caminho: cegos são” – Sinite illos: coeci sunt (Mt 15, 11)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo como o único caminho que conduz ao céu (1). Agradeçamos-Lhe ter vindo à terra mostrar-nos este caminho, seguindo-O primeiro, e convidando-nos a segui-lO (2). Tributemos-Lhe todos os nossos respeitos.

PRIMEIRO PONTO

Diferença entre o caminho, que segue o mundo, e o caminho que seguiu Jesus Cristo

O caminho que segue o mundo é um caminho largo e espaçoso, onde se anda à vontade, e só se tem em vista gozar: caminho miserável onde se nutre vãs esperanças, onde se segue a torrente de modas; e usanças, julgando que se não obra pior que os outros.

“Funesta torrente, diz Santo Agostinho, quem resistirá à tua impetuosidade? Não te verão nunca em seco? Até quando arrastarás tu os filhos de Eva ao abismo?” – Vae tibi, flumen moris humani! Qui resistet tibi? Quamdiu non siccaberis! Quousque volves Evae filios in mare magnum et formidolosum? (Confissões 2, 16)

Levado por esta torrente, morre-se sem ter conseguido o bem que se pretendia ou se se consegue, goza-se dele pouco tempo; e ainda durante este pouco tempo, o receio de o perder ou o desejo de outro bem lhe tira todo o atrativo, que dele se esperava. Coisa ainda mais triste! Neste caminho, onde se é tão desditoso, anda-se às cegas a respeito do que acontecerá mais tarde, para somente pensar no gozo do momento, dando todo o apreço ao tempo, e nenhum à eternidade; e o que é o cumulo do mal, nem mesmo se quer ouvir falar nela; a menor palavra capaz de despertar a atenção sobre a vida futura, que se segue à vida presente, irrita e repugna.

Oh! Quanto melhor é o caminho de Jesus Cristo! É verdade que ele é estreito e incômodo; não se faz nEle o que agrada, e é preciso muitas vezes fazer, o que desagrada; mas também, como o coração está ali contente! A consciência dá testemunho de que se obra bem; está-se na companhia de tudo o que há de mais virtuoso e santo; os anjos assistem-nos e guiam-nos; Jesus Cristo caminha à nossa frente, e Deus mostra-nos o seu paraíso como o seguro termo da nossa peregrinação: o caminho é seguro e claramente traçado; conduz à felicidade pela prova, à vitória pelo combate, à eterna pátria pelo rápido trânsito do desterro. Que homens mal instruídos não sigam este caminho, compreende-se; mas que cristãos; que sabem que Jesus Cristo é o seu Deus, que a sua religião é a única verdadeira, não O sigam abertamente, que se envergonhem de O seguir com medo de algum motejo que nenhum valor tem, é o que espanta e confunde todo aquele que reflete e ama. E apesar disto, seguimos nós o caminho de Jesus Cristo? Consultemos a este respeito a nossa consciência.

SEGUNDO PONTO

Todo o cristão deve seguir o caminho de Jesus Cristo

Há necessidade de declarar-nos abertamente; não se pode pertencer ao mesmo tempo a Deus e ao mundo. É impossível conciliar os dois caminhos, Jesus Cristo com o mundo, a natureza com a graça, a vaidade mundana com a devoção, o serviço de Deus com o amor-próprio e os seus melindres, com o gênio e os seus ímpetos, com a vontade própria e os seus caprichos. Jesus Cristo não quer esta mistura; o mundo não a quer também, e mete a ridículo essas pessoas, que nem são tão viciosas que Lhe desagradem, nem tão virtuosas que obtenham o seu agrado. O nosso próprio coração não a quer igualmente: porque neste estado médio, não se tem as consolações da piedade: não se goza nem o prazer de pertencer ao mundo, nem o prazer de pertencer a Deus: É pois necessário, de bom ou mau grado, escolher um destes dois caminhos. Ora nesta escolha pode-se hesitar um só instante? Os santos pregam-nos o exemplo, convidam-nos a segui-los, e constrangem-nos. Porque nos deteria o respeito humano, que os não deteve a eles? Há mais verdadeiros prazeres, verdadeira honra no serviço de Jesus Cristo do que no serviço do mundo; a mesma cruz de Jesus Cristo pesa menos que a do mundo; é acompanhada de uma unção celeste; que a torna suave e amável.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ego sum via (Jo 14, 6)

(2) Sequere me (Mt 8, 22)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 190-193)