Meditação para a Vigésima Primeira Quinta-feira depois de Pentecostes. Ainda sobre o Amor sobrenatural do Próximo

Meditação para a Vigésima Primeira Quinta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos:

1.° Sobre a excelência do amor sobrenatural, que devemos ao próximo;

2.° Sobre os sinais que no-lo dão a conhecer.

— Tomaremos a resolução:

1.° De nunca falarmos dos ausentes senão para dizer bem deles;

2.° De tratarmos sempre quer os presentes, quer os ausentes, com as mesmas atenções com que trataríamos Jesus Cristo.

O nosso ramalhete espiritual será a recomendação de São Pedro:

“Antes de todas as coisas tende entre vós mesmos mutuamente uma constante caridade” – Ante omnia autem mutuam in vobismetipsis caritatem continuam habentes (1Pd 4, 8)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor reiterando-nos o preceito da caridade para com o próximo. Ele mesmo no-lo dá muitas vezes; repete-no-lo pelo seu discípulo amado, pelos seus Apóstolos e evangelistas; nada há na Sagrada Escritura que nos seja mais recomendado: prova do ardente desejo que tem de nos ver todos cheios do espírito de caridade. Agradeçamos-Lhe por nos ter dado neste só preceito o meio de cumprir todos os outros, porque está escrito:

“Quem ama ao próximo, tem cumprido com toda a lei” – Qui diligit proximum legem implevit (Rm 13, 8)

PRIMEIRO PONTO

Excelência da Caridade Sobrenatural

Se eu falar, diz o Apóstolo, as línguas dos anjos, se eu conhecer todos os mistérios, e tiver toda a fé, a ponto de transportar montes; se eu distribuir todos os meus bens no sustento dos pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, se todavia não tiver caridade, nada d’isto me aproveita. (1Cor 13, 1-3)

Esta caridade, que domina tudo, é uma virtude tão elevada, que se modela pela mesma Santíssima Trindade,

«Pai, diz Jesus Cristo no sermão depois da ceia, rogo-vos que todos os meus discípulos sejam um, como também nós somos um (1); que sejam todos um como vós Pai o sois em mim, e eu em vós (2). Conjuro-vos ainda uma vez, fazei que eles sejam consumados na caridade, e que o mesmo amor, com que me amastes, esteja n’eles e eu ir eles» (3)

Quão belas são estas palavras! Quão próprias para realçar a excelência da caridade! Jesus Cristo, conformando-se primeiro com este sublime ensino, identificou-se e uniu-se de tal sorte conosco, que declara, que reputa feito e dito a si tudo o que se fizer e disser ao menor dos seus. Ó admirável indústria de um Deus para forçar os homens a amarem-se uns aos outros! Cobre de alguma sorte com a sua sagrada Pessoa cada cristão, para receber o bem ou o mal que lhe fazem; e, com isto, eleva, enobrece, diviniza a caridade, pois, segundo esta noção, amar, servir, acolher com agrado ao próximo, é amar, servir, acolher com agrado ao mesmo Jesus Cristo. Que consolação para quem ama a este terno Salvador; e ao mesmo tempo, que bela recompensa não concederá Jesus Cristo àquele que o serviu! É o que explica como um copo de água fria dado a um pobre obterá ao benfeitor uma eterna recompensa. De um lado, faltar à caridade para com o próximo, é faltar ao amor para com Jesus Cristo; tratar com dureza, ofender ou escarnecer o próximo, é tratar com dureza ofender ou escarnecer Jesus Cristo; ser frio ou desabrido para com o próximo, é ser frio ou desabrido para com Jesus Cristo (4).

Que horror! Entremos em nós mesmos, e vejamos se Jesus Cristo tem motivo para estar contente com a maneira como o temos tratado na pessoa do próximo.

SEGUNDO PONTO

Sinais que nos dão a conhecer se o nosso amor é sobrenatural

1.° O amor sobrenatural abrange todos os homens sem exceção nem distinção, porque, amando a Jesus Cristo no próximo, acha Jesus Cristo igualmente amável em todos. Por conseguinte, obra para com toda a gente com a mesma benevolência, sem ter demasiada condescendência e afeição a uns, nem aversão e indiferença para com outros; é respeitoso para com todos, sem se antepor a quem quer que seja, sem nunca dar motivo de queixa a pessoa alguma, nem se irritar.

2.° O amor sobrenatural é desinteressado; ama, serve, mostra estima e amizade, ainda que daí lhe não venha proveito, muito diferente do amor egoísta, que não presta serviços senão quando nisso interessa; é cordial para com aqueles mesmos que o desatenderam ou maltrataram.

3.° O amor sobrenatural põe a mira, principalmente, na salvação do próximo, nada desejando tanto como ganhá-lo para a piedade, aproveitando todas as ocasiões de o desgostar do mundo e de dirigir os seus pensamentos para a eternidade, o seu entendimento para as verdades cristãs, e o seu coração para a prática do Evangelho.

4.° O amor sobrenatural ama unicamente por Deus, sem atenção ao talento, ao nascimento, aos bons modos, à simpatia, à conformidade de inclinações e gênios, de sentimentos e afeições; e até acha prazer em amar o que nada tem de amável, porque então está mais seguro de amar puramente por Deus, e de possuir uma caridade verdadeiramente sobrenatural e meritória; enquanto que esta segurança falha, quando só a inclinação natural é que leva a amar.

Examinemos por estes sinais se temos o amor sobrenatural.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Sint unum sicut et nos unum sumus (Jo 17, 22)

(2) Omnes unum sit, sicut tu, Pater, in me, et ego in te (Jo 17, 21)

(3) Ego in eis et tu in me, ut sint consummati in unum… Dilecto qua dilexisti me in ipsis sit, et ego in ipsis (Jo 23, 26)

(4) Quandiu fecistis uni ex his fratribus meis minimis, mihi fecistis

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 123-127)