Meditação para o Décimo Oitavo Sábado depois de Pentecostes. Ainda sobre a Conformidade com a Vontade de Deus

Meditação para o Décimo Oitavo Sábado depois de Pentecostes

SUMARIO

Continuaremos as nossas meditações sobre a conformidade com a vontade de Deus, e veremos:

1.° Que esta conformidade é o resumo de todas as virtudes;

2.° Que é o mais alto grau de perfeição.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nunca nos queixarmos dos males ou contratempos que nos sobrevierem, e de os recebermos em paz, como vindos da poderosa mão do Deus;

2.º De bendizermos a Deus, tanto na adversidade como na prosperidade.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Jó:

“O Senhor m’o deu, o Senhor m’o tirou, bendito seja o nome do Senhor” – Dominus dedit, Dominus abstulit… sit nomen Domini benedictum (Jó 1, 21)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo declarando-nos que desceu do céu à terra, não para fazer a sua vontade, mas a de Deus, seu eterno Pai (1); que é essa a sua comida, a sua vida (2). Admiremos, bendigamos tão santas disposições, e supliquemos-Lhe que nos faça participantes delas.

PRIMEIRO PONTO

A Conformidade com a Vontade de Deus é o resumo de todas as Virtudes

Com efeito, esta perfeita conformidade que nos guia no meio de todos os acontecimentos da vida, faz- nos praticar ora a humildade, ora a obediência; agora a paciência, logo a pobreza; sempre e em toda a parte nos inspira a mortificação, aqui da vontade e dos desejos; ali das tendências e gostos naturais, pois que com esta conformidade nos submetemos à vontade divina, que é a única que predomina na alma; depois, dominadas as tendências naturais, levamos o amor de Deus à sua mais alta perfeição: porque se, como disse um sábio pagão (3), a verdadeira amizade consiste em não ter outra vontade senão a do seu amigo, é evidente que quanto mais perfeita for a nossa conformidade com a vontade de Deus, tanto mais O amaremos; e coisa não menos consoladora, ao lado do amor de Deus se aperfeiçoará de um modo equidistante o amor do próximo, pois que a vontade de Deus é que nos amemos e nos suportemos uns aos outros; que honremos nos nossos irmãos, à imagem de nosso Pai celestial, os membros vivos de Jesus Cristo e os templos do Espírito Santo.

Entremos em nós mesmos: temos compreendido até ao presente a excelência desta conformidade com a vontade de Deus? Temos bem entendido que a sua prática se identifica com a prática de todas as virtudes, que é como que um belo resumo delas?

SEGUNDO PONTO

A Conformidade com a Vontade de Deus é o mais alto grau de Perfeição

Nós nada podemos fazer, que seja mais perfeito, mais excelente para com Deus, do que sacrificar-nos a Ele, conformando a nossa vontade com a sua. Nas outras virtudes, sacrificarmos-Lhe uma parte de nós mesmos; por exemplo, na temperança, o prazer da boca; na modéstia, o recato das vistas; na paciência, o sentido do tato; na humildade, a soberba; mas na conformidade com a vontade de Deus, sacrificamo-nos inteiramente a Ele, entregamo-nos em corpo e alma nas suas mãos para que faça de nós o que Lhe aprouver, quando e como Lhe aprouver, sem excepção nem reserva de coisa alguma. É o completo holocausto, a que nada podemos subtrair. Damos-Lhe todos os nossos afetos, todos os nossos desejos, todo o nosso ser, segundo a exigência que nos fez com estas doces palavras:

“Dá-me, filho meu, o teu coração” – Praebe, fili mi, cor tuum mihi (Pr 23, 28)

E com isto elevamo-nos ao ápice da perfeição. Porque, sendo Deus a suma perfeição, seremos tanto mais perfeitos, quanto mais nos assemelharmos a Ele, e a nossa semelhança com Ele será mais ou menos completa à medida que a nossa vontade for mais ou menos conforme com a sua. Eis a razão porque o Espírito Santo diz:

“Conservai-vos unidos a Deus e esperai, para que a vossa vida no fim se prolongue” – Conjungere Deo et sustine, ut crescat in novissimo vita tua (Ecl 2, 3)

Eis a razão porque São Bernardo observa que a palavra, de São Paulo: Senhor, que quereis que eu faça? é tão breve de si, e ao mesmo tempo tão plena, que diz tudo (4). Eis a razão também porque São Francisco de Sales ensina, que é impossível que Deus não introduza no seu paraíso todo aquele que morrer num estado de conformidade com a vontade divina.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Descendit de caelo, non ut faciam voluntatem meam, sed voluntatem ejus qui misit me (Jo 4, 38)

(2) Meus cibus est ut faciam voluntatem ejus, qui misit me (Jo 4, 34)

(3) Eadem velle, eadem nolie, ea demum firma amicitia est (Sallust.)

(4) Verbum breve, sed plenum

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 60-62)