Meditação para o Dia da Páscoa. A Ressurreição, triunfo da Fé e da Esperança

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos 16,

Passado o sábado, Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para ir embalsamá-lo. De manhã, ao nascer do sol, muito cedo, no primeiro dia da semana, foram ao sepulcro.

Diziam entre si: «Quem nos irá tirar a pedra da entrada do sepulcro?» Mas olharam e viram que a pedra tinha sido rolada para o lado; e era muito grande. Entrando no sepulcro, viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca, e ficaram assustadas.

Ele disse-lhes: «Não vos assusteis! Buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado? Ressuscitou; não está aqui. Vede o lugar onde o tinham depositado. Ide, pois, e dizei aos seus discípulos e a Pedro: ‘Ele precede-vos a caminho da Galileia; lá o vereis, como vos tinha dito’.»

Meditação para o Dia da Páscoa

SUMARIO

Destinaremos a nossa meditação a considerar a ressurreição de Jesus Cristo como o triunfo:

1.° Da nossa Fé;

2.º Da nossa Esperança.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De louvarmos, glorificarmos e agradecermos com frequentes aspirações a Jesus Cristo ressuscitado aleluia;

2.º De fazermos muitas vezes atos de fé à divindade de Jesus Cristo, da Sua religião e da Sua Igreja, assim como atos de esperança para a vida futura.

O nosso ramalhete espiritual será o cântico da Igreja neste dia:

“Na verdade que o Senhor ressuscitou, aleluia” – Surrexit Dominus verem alleluia

Meditação para o Dia

Entremos esta manhã em todos os sentimentos de louvor, de adoração e de amor para com Jesus Cristo ressuscitado. Regozijemo-nos e alegremo-nos. Este é o dia que o Senhor fez, o dia da vitória e do triunfo. Juntemo-nos com os anjos para cantar glória a Deus, aleluia.

PRIMEIRO PONTO

A Ressurreição de Jesus Cristo é o triunfo da nossa Fé

Na verdade que o Senhor ressuscitou (Lc 24, 34). Os Apóstolos, que O atestam e selaram com o seu sangue o Seu testemunho, não podiam enganar-se, pois que conversaram com Ele quarenta dias; não quiseram enganar-nos, pois, que os seus mais caros interesses neste mundo e no outro a isso se opunham (1); e de mais a mais, se Jesus Cristo não ressuscitasse, só podia ser aos seus olhos um impostor, que os havia escarnecido pregando-lhes a Sua ressurreição; não teriam podido até enganar-nos, ainda que o desejassem, pois que os soldados romanos, que guardavam o sepulcro, não teriam deixado levar o corpo: é, portanto, certíssimo, ó Senhor Jesus, que na verdade ressuscitastes; é, portanto, certíssimo que sois o Deus Todo-Poderoso, pois que um homem morto não pode ressuscitar-se (2); e que só Deus, que dispõe da vida e da morte, é capaz de semelhante prodígio. Ó santo dia de Páscoa, quão prezado me és! A ressurreição do meu Salvador garante-me a Sua divindade, e por conseguinte garante-me todas as minhas crenças (3); porque se Jesus Cristo é Deus, divina é a Sua religião, divino é o Evangelho, que é a Sua palavra, divinos são os Sacramentos que instituiu, divina é a Igreja que fundou; e crendo-a, estou certo de me não enganar, tão certo como se já estivesse no céu contemplando a verdade da beatífica visão. Seguindo a minha fé, sigo, pois, um guia infalível, e fazendo os sacrifícios que me pede, sei que não perco o meu trabalho, e que Deus me há de recompensar. Em vão o incrédulo combate a minha crença; em vão os povos clamam; em vão os judeus gritam que é um escândalo e uma estultícia: Jesus Cristo ressuscitado responde a tudo, e não há objeção que não venha espedaçar-se contra a pedra do seu sepulcro.

Que consolação, que triunfo para a fé que não necessita senão deste único fato para ser altamente justificada! Quão justo é que reanimemos esta fé neste belo dia, que creiamos as coisas da religião como se as víssemos (4), e que nos mostremos homens de fé nas obras, nas palavras, na oração e no lugar santo, por toda a parte e sempre!

SEGUNDO PONTO

A Ressurreição de Jesus Cristo é o triunfo da nossa Esperança

O homem, que só vive pouco tempo neste mundo entre muitas misérias, necessita de ter esperança; mas alegra-se hoje cantando com a Igreja:

«Jesus Cristo, minha esperança, ressuscitou» – Surrexit Christus spes mea

A ressurreição do Salvador é para nós o penhor e a segurança de uma ressurreição semelhante, que nos há de indenizar de todas as penalidades da vida. Jesus Cristo é o primogênito de entre os mortos (5), diz o Apóstolo. Logo, depois dEle, os outros mortos renascerão também das suas cinzas. Nós formamos com Ele um corpo, de que Ele é a cabeça, diz o mesmo Apóstolo; mas os membros devem seguir a sua cabeça. Que é um corpo, cuja cabeça estivesse de um lado, e cujos membros estivessem do outro? É admissível que o Espírito Santo tivesse designado debaixo da figura da cabeça e dos membros Jesus Cristo e os fiéis, se devessem viver assim separados? Se formamos um só corpo com Jesus Cristo, a Sua ressurreição acarreta a nossa, assim como a nossa acarreta a Sua: uma depende essencialmente da outra.

“Se se praga, diz São Paulo, que Jesus Cristo ressuscitou de entre os mortos, como dizem alguns entre vos outros que não ha ressurreição de mortos?” – Si Christus praedicatur, quod resurrexit a mortuis, quomodo quidam dicunt in vobis quoniam resurrectio mortuorum non est? (1Cor 15, 12)

Dogma consolador, que faz o triunfo da nossa esperança entre os trabalhos da vida: porque se havemos de ressuscitar como Jesus Cristo, a nossa tristeza será mudada em alegria, as nossas dores em delícias, a nossa pobreza em riqueza, a nossa confusão em glória, a nossa morte em uma vida eterna.

“Eu sei, dizia Jó, que o meu Redentor vive, e que no derradeiro dia surgirei da terra; e serei novamente revestido da minha pele, e na minha própria carne verei a meu Deus, a quem eu mesmo hei de ver, e meus olhos hão de contemplar e não outro: esta minha esperança está depositada no meu peito” – Scio quod Redemptor meus vivit, et in novissimo die de terra surrecturus sum; et rursum circumdabor pelle mea, et in carne mea videbo Deum meum; quem visurus sum ego ipse, et oculi mei conspecturi sunt, et non alius: reposita est haec spes mea in sinu meo (Jó 19, 25)

“O Rei do mundo, dizia o segundo dos Macabeus, nos ressuscita para a vida eterna” – Rex mundi defunctus nos pro suis legibus in aeternae vitae resurrectione suscitabit (2Mac 7, 9)

“Do céu recebi estes membros, dizia o terceiro, mas eu os desprezo, porque Deus m’os tornará a dar algum dia” – Haec ipsa despicio, quoniam ab ipso me ea recepturum spero (ibid, 11)

“É-nos melhor ser entregues à morte, dizia o quarto, esperando firmemente em Deus, que de novo havemos de ser por ele ressuscitados” – Potius est ab hominibus morti datos spem expectare a Deo, iterum ab ipso resuscitandos (Ibid, 14)

Que me importa, dizia Santa Manica, morrer longe da minha pátria, se Deus no fim dos tempos há de saber achar-me para me ressuscitar? Finalmente, todos os mártires e santos morreram nesta esperança, contando com uma nova terra e novos céus, onde os corpos dos santos serão gloriosos, impassíveis, imortais, resplandecentes como o sol, ágeis como os espíritos, onde não haverá dores nem lágrimas, onde tudo será felicidade.

Ó magnifica esperança! Quanto nos alegraremos então de termos padecido com paciência, de nos termos mortificado e privado dos vãos gozos terrenos?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Si in hac vita tantum… sperantes sumus, miserabiliores sumus omnibus hominibus (1Cor 15, 19)

(2) Praedestinatus est Filius Dei… ex resurrectione (Rm 1, 4)

(3) Scio cui credidi (2Tm 1, 12)

(4) Invisibilem tanquam videns (Hb 11, 27)

(5) Primitiae dormientium (1Cor 15, 20)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 231-235)