Meditação para a Sexta Quarta-feira depois de Pentecostes. A Perfeição das Ações Ordinárias

Meditação para a Sexta Quarta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Depois de termos meditado os primeiros princípios da vida cristã, meditaremos agora a mesma vida cristã; e veremos:

1.° Que a perfeição das nossas ações ordinárias constitui a essência da vida cristã;

2.° Que nada há mais consolador do que esta doutrina.

— Tomaremos a resolução:

1.º De cuidarmos em fazer bem cada coisa desde manhã até à noite, sem desprezar nenhuma;

2.° De nos resguardarmos da ilusão dos que vão buscar a santidade em outra parte.

Conservaremos como ramalhete espiritual a palavra, que o povo dizia de Nosso Senhor:

“Ele tudo tem feito bem” – Bene omnia fecit (Mc 7, 37)

Meditação para o Dia

Adoremos a Deus que, na criação e no governo do universo, faz perfeitíssimamente tudo o que faz, porque o faz com medida, conta e peso (1). Faz grandes obras, faz pequenas; mas, em umas e outras, procede sempre com suma perfeição (2). Admiremos esta perfeição de Deus, fazendo perfeitíssimamente o que faz, e aproveitemo-nos, a exemplo dos Santos, do ensino que nisto nos dá.

PRIMEIRO PONTO

A Perfeição das nossas Ações Ordinárias constitui a essência da Vida Cristã

Com efeito, que é que constitui a essência de toda a santidade, senão a vontade de Deus, que forma todo o apreço e merecimento das nossas obras? Fora desta santíssima vontade as grandes ações não valem nada; com ela, as menores ações tem um merecimento elevadíssimo, e pode-se até dizer, que a alma, que só vê, ama e segue em todas as coisas esta adorável vontade, atingiu a vida perfeita. Ora, em que consiste para nós a vontade de Deus? Consiste evidentemente na perfeição das nossas ações ordinárias:

1.° Porque a nossa santidade deve ser de todos os dias e de todos os momentos: o que só pode convir às nossas ações ordinárias, pois o que é extraordinário é essencialmente raro;

2.° Porque os grandes interesses da ordem e da felicidade, quer na sociedade e na família, quer na Igreja e no Estado, que entram na vontade de Deus, só podem ser protegidos pela fidelidade de cada um em cumprir os deveres ordinários da sua posição;

3.° Porque Jesus Cristo e os Santos puseram a sua santidade na perfeição das ações ordinárias próprias do seu estado e da sua posição.

Que fez Jesus Cristo durante trinta anos? Nada notável, segundo a opinião do mundo, nada até que não seja comum e quase desprezível aos olhos dos homens. De manhã até à noite entregava-se às pequenas o ocupações, que Lhe designavam Maria e José (3): eram os deveres de seu estado e condição. Mas fazia perfeitíssimamente estas pequenas coisas, quer quanto ao ato exterior, quer quanto às disposições interiores, com que obrava; e nisto só praticava uma santidade, que era o objeto das complacências de Deus seu Pai. Depois de Jesus Cristo, nada apareceu mais santo abaixo do céu do que Maria e José; e todavia a sua santidade só consistiu em fazer bem as ações comuns e simples do seu estado. E que milhares de Santos veremos no juízo final, cuja vida foi obscura, oculta, ignorada do mundo, e que se santificaram sem fazer coisa alguma insigne, mas fazendo perfeitíssimamente as ações humildes e modestas, que entravam nos deveres do seu estado! Terão passado desconhecidos na terra: mas no dia de juízo resplandecerão tanto, que todos os povos reunidos compreenderão, que efetivamente toda a santidade consiste na perfeição das ações ordinárias.

Estamos nós bem penetrados desta máxima da vida espiritual?

SECUNDO PONTO

Nada há mais Consolador do que esta Doutrina

Com efeito, que mais consolador que podermos dizer conosco:

Para ser santo, não tenho de ir buscar muito longe o que me é preciso fazer; a minha perfeição está perto de mim e em mim; está nos deveres do meu estado bem desempenhados, nos meus exercícios quotidianos bem feitos; uma perfeição fora destes exercícios, e que não chegasse a livrar-me destas obrigações, seria de uma devoção mal entendida e mal regulada, que Deus não aprovaria, que o mesmo mundo reprovaria, que poderia inspirar-me orgulho e expôr-me a inumeráveis defeitos; em quanto que a perfeição de uma vida comum é aprovada por Deus e pelos homens, edifica, acredita a virtude, protege a ordem e a regra; não ensoberbece, não é sujeita à vaidade, e é ao mesmo tempo muito meritória, em razão das dificuldades que é preciso vencer, das violências que é preciso fazer a nós mesmos, para a praticar constantemente.

Roguemos a Deus, que nos faça compreender bem esta regra de proceder.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Omnia in mensura, et numero, et pondere disposuisti (Sb 11, 21)

(2) Creavit in caelo angelos, in terra vermiculos nec major in illis, nec minor in istis (Santo Agostinho)

(3) Erat subditus illis (Lc 2, 51)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 265-268)