Meditação para a Terceira Segunda-feira depois de Pentecostes. A Missa, culto de profundo respeito prestado a Deus

Meditação para a Terceira Segunda-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

O culto de latria, que rendemos a Deus pelo Santo Sacrifício, e ao qual devemos unir-nos, não só consiste na suma estima de Deus, mas também no profundo respeito das Suas grandezas. Veremos:

1.º Quanto respeito Jesus Cristo, no Santo Sacrifício, demonstra a seu Pai;

2.º Quão respeitosos, na nossa conduta habitual, devemos ser para com Deus.

— Tomaremos a resolução:

1.º De falarmos sempre a Deus nas nossas orações com profunda devoção, acompanhada de uma perfeita modéstia dos sentidos;

2.º De termos em todos os lugares um grande respeito para com a presença de Deus, que nos vê de dia e de noite.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Salmista:

“Cheio de temor vosso, vos adorarei no vosso santo templo” – Adorabo ab templum sanctum tuum in timore tuo (Sl 5, 8)

Meditação para o Dia

Adoremos a Deus como eminentemente digno dos respeitos de toda a criatura; e não podendo respeitá-lO como merece, ofereçamos-Lhe todos os respeitos, que Lhe tributa Jesus Cristo no céu e sobre os nossos altares; por Jesus Cristo, com Ele, e nEle, a Vós, Deus Pai, pertence e Vos é devida toda a honra e glória – Per ipsum, et cum ipso, et in ipso est tibi Deo Patri omnis honor et gloria.

PRIMEIRO PONTO

Jesus Cristo, no Santo Sacrifício, ensina-nos, com o Seu exemplo, o Respeito para com Deus

Isaías, inspirado por Deus, admirava no Messias vindouro o espírito de respeitoso temor de Deus (1); e segundo São Paulo, este profundo respeito para com a divindade, que dá a todas as suas preces o seu valor e a sua eficácia (2). Ele manifestou esse íntimo sentimento no Horto das Oliveiras, humilhando-Se diante da majestade de Seu Pai até se prostrar em terra; manifestou-o no pretório e no Calvário oferecendo-Se como nossa vítima para maior glória de Deus, e não deixa ainda de o manifestar no mais alto dos céus, onde, como nosso pontífice, oferece continuamente a Sua adorável vitima, que é Ele mesmo. Mas é principalmente no Augusto Sacrifício, que se manifesta este sumo respeito. Ali, para honrar a infinita excelência do Ser divino, Jesus, nosso grande sacerdote, cai cheio de veneração, parece querer aniquilar-Se ocultando-Se com toda a Sua glória sob as aparências de morte, até sob uma pequena hóstia ou partícula, privando-Se do uso de todos os Seus sentidos, imolando-Se misticamente ainda que de um modo incruento, não já o Filho do homem no estado de enfermidade, e a semelhança da carne do pecado, mas o Filho eterno de Deus reinando na glória, o divino pontífice, santo, separado dos pecadores e exalçado acima dos céus. Ora, abatimentos tão extremos, tão incompreensíveis em tão grande pontífice, igual até a Deus, dizem-nos eloquentemente o profundo respeito, de que está penetrado para com a majestade divina, e que deseja inspirar-nos. Roguemos a Deus que nos penetre destes sublimes mistérios.

SEGUNDO PONTO

Quão respeitosos, na nossa conduta habitual, devemos ser para com Deus

O nosso dever, como Cristãos, é unirmo-nos à perfeita devoção e aos profundos abatimentos de Jesus Cristo diante de Seu Pai, nosso Pai celestial. Como Ele, devemos aniquilar-nos no sentimento da nossa baixeza diante das grandezas de Deus, da nossa indignidade diante da Sua santidade. A igreja do céu dá-nos o exemplo disto; porque os Anjos louvam-O, as Dominações adoram-O, as Potestades reverenciam-O com tremor, e os Serafins, cobrindo a face com as suas azas, não ousam fixar a vista em tão augusta majestade (3). A Igreja da terra faz o mesmo: porque é um fato notório que, quanto mais os santos sobressaem em virtude, mais penetrados de respeito e de uma espécie de temor se vêem nos templos; mais gostam de se aniquilar diante da majestade divina, e de Lhe mostrar o seu respeito para com a Sua presença em todos os lugares com uma compostura modesta, uma vida irrepreensível; mais atentos são em falar sempre a Deus como Deus, isto é, com profunda devoção, ainda que se trate da mais pequena oração ou do sinal da cruz; mais respeito tem, finalmente, para com tudo o que se refere a Deus e ao Seu culto, às pessoas que Lhe são consagradas, aos lugares santos, aos vasos sagrados, às coisas benzidas pela Igreja, às cerimônias, às divinas Escrituras, que São Carlos nunca lia senão de joelhos e com a cabeça descoberta.

Examinemos, se temos esta profunda devoção dos santos, este respeito na igreja e na oração, esta veneração para contudo o que se refere ao culto divino.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Replebit eum spiritus timoris Domini (Is 11, 3)

(2) Exauditus est pro sua reverencia (Hb 5, 7)

(3) Prefácio da Missa

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 191-193)