Meditação para a Undécima Sexta-feira depois de Pentecostes. Undécima razão de sermos Humildes: A Humildade, fundamento e guarda das Virtudes

Meditação para a Undécima Sexta-feira depois de Pentecostes

Undécima razão de sermos Humildes

SUMARIO

Meditaremos sobre uma undécima razão de sermos humildes; e é que a humildade é o fundamento e a guarda da virtude.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De repelirmos toda a ideia de amor-próprio, e de sermos sempre humildes;

2.° De opormos às tentações de amor-próprio estes atos de humildade ou outros semelhantes:

“Meu Deus, compadecei-vos de mim que sou soberbo. A vós a glória, a mim a vergonha e o opróbrio”

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Bernardo, que terá sido objeto de nossa meditação:

“A humildade é o fundamento e a guarda da virtude” – Humilitas est fundamentum custosque virtutem

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor que, vendo a grande afeição de seu Pai à humildade, vem humilhar-se neste mundo fazendo-Se homem como nós, escondendo o seu ser divino e todas as suas perfeições, e sujeitando-Se às nossas enfermidades. Admiremos, amemos e louvemos este divino Salvador assim humilhado para glorificar a Deus e nos dar um exemplo de que a nossa soberba necessitava.

PRIMEIRO PONTO

A Humildade é o fundamento de toda a virtude

“Se me perguntardes, diz Santo Agostinho, qual é na religião a coisa mais fundamental, responder-vos- ei: É a humildade; qual é a segunda? Qual é a terceira? responder-vos-ei sempre: É a humildade” – Si quaeris quid sid primum in religione, respondeo: militas. Quid sid secundum? Humilitas. Quid sit tertium? Humilitas. Tota vitae christinae disciplina in himilitate consistit

A humildade é a primeira disposição para fazer bem todas as coisas, para orar, para comungar, para tratar com o próximo, para vencer as tentações, para domar as próprias paixões. O amor-próprio só pode gerar o pecado ou as virtudes falsas e sem mérito dos filósofos pagãos, porque não é mais que um miserável egoísmo, que só obra por sua utilidade, e que Deus por conseguinte não pode recompensar; é uma inclinação viciosa, que nos faz viver e obrar fora da fé e da graça, unicamente por intuitos naturais e temporais. Ao contrário, a humildade, verdadeira sede da graça, origem da glória, caráter dos escolhidos, faz-nos viver da vida sobrenatural, e todas as virtudes assentam sobre ela como sobre a sua base.

1.° A fé. O humilde crê facilmente, porque desconfia da sua própria inteligência, porque folga, por um lado, de humilhar os presumidos pensamentos diante da ciência infinita de Deus; por outro, de aumentar os seus curtos conhecimentos com o que se digna revelar-lhe a luz divina.

2.° A esperança. O que não tem humildade confia em si, e não pensa em confiar em Deus. Ao contrário, o humilde espera com alegria, porque, não se fiando em si, folga de poder recolher-se com Deus, que nunca abandona os que confiam nEle.

3.° A caridade. O humilde ama a Deus de todo o seu coração, porque, quanto mais miserável se vê, tanto mais se alegra de ver as misericórdias divinas maiores ainda que todas as suas misérias; quanto mais indigno se sente de ser amado por um Deus tão santo, tanto mais O ama e se une a Ele. O humilde é caritativo para com o próximo, a ponto de sofrer tudo da parte dele sem lhe causar o menor desgosto, porque o olha como muito superior a si mesmo.

4.° A conformidade com a vontade de Deus, que resume todas as virtudes. O humilde é resignado e corajoso em todas as provações, porque diz de si para si:

«Mereci muitas mais por causa dos meus pecados; que é tudo o que eu padeço comparado com o inferno, onde tenho merecido arder eternamente?»

Tão verdade é, que a humildade é o fundamento de toda a virtude! Temo-lo bem compreendido até ao presente?

SEGUNDO PONTO

A Humildade é a guarda de todas as virtudes

A humildade é para a virtude e para o mérito o que a fonte é para o ribeiro, a raiz para a árvore, o alicerce para o edifício. Em vão teremos praticado muitas virtudes e adquirido méritos, se a humildade os não guarda e protege; sobrevindo o amor-próprio, todo o mérito desaparece, as nossas virtudes tornam-se vícios, as nossas obras frutos dignos de reprovação. Assim como, separado da sua fonte, o ribeiro deixa de correr, separada da raiz a árvore cai, assim também, separada da humildade toda a virtude se desvanece, todo o mérito desaparece. O amor-próprio subsiste, e nada resta para o céu. Que triste coisa! Tinha-se trabalhado muito, praticado boas obras, merecido o céu, e eis que tudo se some como a poeira lançada ao vento: a vaidade dissipou tudo. De onde nos cumpre concluir que, quanto maior número de boas obras fazemos, tanto mais devemos encher-nos de humildade, para que a soberba e a vaidade, ávidas de louvores, nos não tirem o mérito das boas obras.

Ó humildade, guarda da virtude e do mérito, quanto és digna do toda a nossa estima e solicitude!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 100-102)