Meditação sobre a Fé dos Magos

SUMARIO

Meditaremos sobre a fé dos magos, o veremos:

1.° Qual é o preço da fé;

2.° O uso que dela devemos fazer no governo da vida.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De agradecer muitas vezes a Deus o dom da fé;

2.° De perguntarmos muitas vezes a nós mesmos: Porque princípio de fé faço eu esta ação?

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Paulo:

“O justo vive da fé” – Justus ex fide vivit (Rm 1, 17)

Meditação para o Dia

Admiremos Jesus Cristo fazendo resplandecer na alma dos magos a luz da fé, ao mesmo tempo que fazia brilhar a seus olhos a estrela milagrosa. Admiremos quanto conveio que esta fé fosse viva para os decidir a deixar a sua pátria, o seu trono, a afrontar a crítica do mundo, a empreender uma viagem longínqua e a reconhecer o grande Deus do céu na figura de um pobre Menino, deitado sobre a palha, em um presépio. Ó fé verdadeiramente admirável! Bendigamos a Nosso Senhor, que a inspirou, e roguemos-Lhe que dela nos faça participantes.

PRIMEIRO PONTO

Qual é o preço da Fé?

A fé é de um preço inestimável:

1.° É o principio de toda a justificação, de todo o mérito, de toda a verdadeira grandeza. Sem ela, todo o pecado é irremissível, toda a boa obra sem merecimento, e o homem um ente sem grandeza. Ao contrário, por ela recobra-se a inocência; as menores obras elevam-se à ordem sobrenatural, obtém-nos um peso imenso de glória; e o homem torna-se filho de Deus e coerdeiro de Jesus Cristo, herdeiro do reino dos céus, templo do Espírito Santo, as delícias da Santíssima Trindade.

2.° O enlevo da inteligencia; é o facho que a ilumina e a impede de se desencaminhar. De si só, a razão não despede muitas vezes senão lampejos; a fé, verdadeiro sol da razão, revela-nos os arcanos do céu, ensina-nos o que nos importa mais conhecer, Deus e a Sua unidade, a Sua natureza, as Suas perfeições infinitas; o homem e a sua origem, o seu destino, o seu fim com os meios de o atingir, a falsidade dos bens que passam, as riquezas imortais da vida futura; a importância da salvação, o vácuo dos prazeres, a futilidade do amor-próprio, das suas exigências e susceptibilidades. Oh! Quão triste é a condição dos homens sem fé! Flutuam à mercê de todo o vento de doutrina, e não sabem cingir-se ao que mais lhes convém saber.

3.° A fé faz mais ainda do que esclarecer a inteligencia: fortifica-a no que se sabe, confirmando pela autoridade as nossas próprias concepções; engrandece-a e enriquece-a, juntando à esfera dos conhecimentos naturais verdades mais sublimes, que não teriam podido atingir as nossas únicas forças.

4.° Alegra o coração. Por ela, o homem une-se à verdade eterna abisma-se deliciosamente neste oceano de luzes, e goza a felicidade de honrar a Deus crendo sobre a mesma autoridade o que não compreende, porque o que Deus afirma nenhuma necessidade há de o compreender, e porque, ao contrário, quanto menos se compreende, tanto mais se reconhece a veracidade divina, base suficiente por si só de toda a crença.

5.° Finalmente, ela consola e ampara o homem nos trabalhos tão duros da vida. Uma vista de olhos para a cruz, outra para o céu, consolam, animam, fortificam até fazer achar prazer na dor, amparar o coração nas suas fraquezas, erguê-lo nos seus abatimentos, e suprir tudo o que falta. Oh! Quão lastimável é o homem que não tem fé, entre tantas provações de que está semeada a vida presente!

SEGUNDO PONTO

Do uso da Fé no Governo da Vida ou do Espírito de Fé

Sem espírito de fé não se é cristão: obrar sem reflexão e sem motivo, é mover-nos como uma máquina; obrar para satisfação dos sentidos, é portar-nos como o bruto; obrar conforme a razão, é viver como pagão ou filósofo; obrar com fé ou com o intuito de agradar a Deus, é nisto unicamente que se acha a vida cristã, a vida que Deus preza e que leva em conta para o céu. Ainda que façamos esmola por compaixão humana, que prestemos algum serviço ao próximo para que ele no-lo preste, que sejamos modestos para conseguir que nos estimem, que refreemos as nossas paixões para que não formem mau conceito de nós: perderemos o nosso tempo e trabalho; e depois de uma vida talvez laboriosa e penosa, apareceremos com as mãos vazias diante do tribunal de Deus. Ao contrário, com o espírito de fé, a alma eleva-se e engrandece-se; toda a vida é nobre e sobrenatural, todas as obras são meritórias. Na oração, o espírito de fé torna-nos atentos, respeitosos, fervorosos; no procedimento toma-nos pontuais, exatos, desvelados em fazer bem todas as coisas. Nas relações com o próximo, inspira-nos a caridade, a mansidão, a condescendência, a tolerância dos defeitos. Nos revezes, na tribulação e na doença, torna-nos pacientes, resignados à vontade de Deus. No uso das riquezas, torna-nos desinteressados e generosos. Finalmente, em todos os pensamentos e desígnios, é uma grande elevação de intuitos, uma perfeita nobreza de sentimentos; em tudo e em toda a parte é a santidade em ação. Ditosas, pois, as almas que têm o espírito de fé! Ai das que dele são destituídas!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 162-165)