Lição 1: Livro humano e divino

Nas lições sobre a inspiração bíblica dizia-se que a Sagrada Escritura é, toda ela, Palavra de Deus feita palavra do homem. Disto se segue uma verdade muito importante: para entender a Escritura, duas etapas são necessárias: o reconhecimento da sua face humana, para que, depois, possa haver a percepção da sua mensagem divina. É impossível penetrarmos no conteúdo salvífico da Palavra bíblica se não nos aplicamos primeiramente à análise da roupagem humana de que ela se reveste. Isto quer dizer: não se pode abordar a Sagrada Escritura somente em nome da “mística”, procurando ai proposições religiosas pré-concebidas; é preciso um pouco de preparo ou de iniciação humana para perceber o sentido religioso da Bíblia. Doutro lado, não se podem utilizar apenas os critérios científicos (lingüísticos, arqueológicos…) para entender a Bíblia; é necessário, depois do exame científico do texto, que o leitor procure o significado teológico do mesmo.

Interpretação quer dizer “explicação, comentário” (Aurélio). Em grego a arte de interpretar é dita “HERMENÊUTICA”.

Examinemos mais detidamente cada qual das duas etapas acima assinaladas.

Lição 2: Livro humano

A Bíblia não é um livro caído do céu, mas um livro que passou por mentes humanas de judeus e gregos existentes numa faixa de tempo que vai do séc. XIV a. C. ao século I d.C.

Por conseguinte, o primeiro cuidado do bom intérprete é o de tomar conhecimento da face humana da Bíblia mediante recursos científicos, a fim de poder averiguar o que os autores bíblicos queriam dizer mediante as suas expressões.

Isto não quer dizer que todo leitor da Bíblia deva ser um intelectual, perito em línguas, história e geografia do Oriente, mas significa que

  • é necessário usar uma tradução vernácula feita a partir dos originais segundo bons critérios científicos;
  • é preciso que o leitor procure uma iniciação no livro que está para ler, a fim de conhecer o gênero literário, as expressões características, a finalidade, o fundo de cena de tal livro. Podem bastar as páginas introdutórias que as boas edições da Bíblia trazem; às vezes, porém, requer-se um livro ou um curso de introdução na Bíblia (há livros e cursos de diversos graus, para as diversas exigências do público);
  • é preciso ter certo senso critico diante das múltiplas interpretações da Bíblia que circulam. Com efeito; faz-se mister perguntar sempre: têm fundamento no texto original da Sagrada Escritura? Ou são a expressão de teses do intérprete que não são as teses do autor sagrado?

Demos alguns exemplos:

1. Em Ap 13,18 lê-se que o número da besta é 666. Isto quer dizer que o leitor tem que procurar um nome de homem cujas letras (dotadas de valor numérico) perfaçam o total de 666. Tal procura tem que ser efetuada no ambiente histórico e geográfico de São João e dos primeiros leitores do Apocalipse; teremos que indagar na Ásia Menor e no século I da era cristã que personagem poderia ser esse. A conclusão mais provável é que se trata do Imperador Nero (54-68), primeiro perseguidor da Igreja, cujos feitos malvados os cristãos ainda estavam experimentando no fim do século I; São João deve ter intencionado revelar discretamente esse nome aos seus leitores, a fim de lhes dizer que o perseguidor pereceria. Por conseguinte, é despropositado dizer que o Papa é a besta do Apocalipse, porque (assim afirmam sem fundamento) traz na cabeça a inscrição “VICARIUS FILII DEI”; São João e os primeiros leitores do Apocalipse não sabiam latim, que ainda era urna língua ocidental quando tal livro foi escrito; não adiantaria aos leitores propor-lhes um nome que eles não pudessem perceber através da linguagem cifrada de Ap 13,18.

Outro exemplo: quando as traduções vernáculas falam de irmãos de Jesus, não usam esta expressão no sentido moderno, mas no sentido semita de parente, familiar. A Bíblia está cheia de exemplos do uso de irmão (ah) para designar tio e sobrinho (cf. Gn 13,8; 29,15), primos (1Cr 23,21s), familiares (Lv 10,4; 2Sm 19,12s).

Ainda mais: quando as traduções vernáculas da Bíblia falam de “sábado”, têm em vista não o que nós entendemos em português por sábado, mas o que os hebreus entendiam por shabat e sheba = sétimo (dia) e repouso. Em conseqüência, os cristãos, no seu serviço a Deus, não têm a obrigação de ficar presos ao dia que o português chama sábado, e o inglês chama saturday (dia de Saturno), mas compreenda que observar o sábado é observar todo sétimo dia mediante repouso sagrado.

2. A partir de quanto foi dito, também se compreende que a interpretação de certos textos da Bíblia tenha mudado nos últimos decênios. Neste período, sim, foram descobertos alfabetos, peças literárias e monumentos arqueológicos de povos orientais vizinhos do povo judeu. Foi possível, então, recolocar melhor a Bíblia no seu ambiente originário, de modo a compreender mais autenticamente as suas expressões; a interpretação dai decorrente é, por vezes, diferente da clássica, mas é a interpretação certa. Tenha-se em vista o caso de Gn 1,1-2,4a: hoje é entendido como hino da liturgia judaica que tencionava incutir muito calorosamente o preceito do repouso no sétimo dia, dando-lhe por fundamento imaginário o comportamento do próprio Deus, que teria criado tudo em seis dias e descansado no sétimo; intencionava também relacionar todas as criaturas com Deus, sem entrar em questões modernas de evolucionismo e fixismo. – As novas interpretações não alteram o Credo, mas referem-se a pontos que nunca foram tidos como objeto de fé na Igreja e por isto são sujeitos a revisão desde que haja motivos plausíveis para isto.

Lição 3: Livro divino

Uma vez entendido o texto bíblico com o instrumental das ciências humanas que permitem compreender o que o autor sagrado queria significar, faz- se mister procurar a mensagem teológica do respectivo texto. Como dito, a mensagem bíblica é, antes do mais, religiosa.

Para perceber essa mensagem teológica, deverá o intérprete levar em consideração a “analogia da fé” (Rm 12,6), ou o conjunto das verdades da fé, de modo a nunca atribuir ao texto sagrado uma interpretação destoante das verdades da fé, mas, ao contrário, entendê-lo segundo as demais proposições da fé. Por exemplo, as palavras de Jesus “o Pai é maior do que eu” (Jo 14,28) não poderão ser entendidas como se Jesus fosse simplesmente inferior ao Pai, em desacordo com a fé, que diz ser Jesus consubstancial ao Pai ou uma só substância com o Pai (cf. Jo 14,10s; 10,30); será preciso reconhecer que Jesus, como Deus, é igual ao Pai, mas, como homem, é-lhe inferior.

A “analogia da fé” leva-nos a pensar na igreja e no seu magistério. A Palavra de Deus escrita não pode ser entendida plenamente senão em consonância com a Palavra de Deus oral, que é anterior à escrita e que continua a ressoar viva dentro da Igreja através do magistério desta. É a Igreja, em última análise, quem nos entrega as Escrituras e nos orienta na interpretação autêntica das mesmas. Quem assim pensa, evita o subjetivismo arbitrário (“eu acho que…”, “parece-me que…”), subjetivismo ilusório, no qual incorre quem queira praticar a interpretação da Bíblia segundo critérios pessoais (por mais bem intencionados que sejam).

O magistério da Igreja não está acima da Escritura, nem é um canal próprio pelo qual Deus revelaria novas verdades aos homens, mas é simplesmente a expressão genuína da Tradição oral, que berçou a Tradição escrita (Bíblia) e que jamais poderá ser separada desta.

Apêndice: Tipo e acomodação

Na Escritura, Deus nos fala não somente por palavras, mas também por pessoas, coisas e fatos, que são imagens ou tipos de realidades futuras. Assim ele quis fazer do primeiro Adão um esboço ou uma figura (tipo) do segundo Adão, Jesus Cristo, conforme Rm 5,14; o primeiro Adão, qual homem compendioso, recapitula toda a humanidade, como Jesus Cristo a recapitula. Melquisedec (Gn 14,17-20) também é figura de Cristo, conforme Hb 7,1-25; o cordeiro de Páscoa (cf. Ex 12,1-14) é figura de Cristo, conforme 1Cor 5,7; a serpente de bronze igualmente, segundo Jo 3,14s; cf. Nm 21,4-9… Quando as Escrituras do Novo Testamento apontam trechos do Antigo Testamento, como portadores de figuras, diz-se que tais textos têm sentido típico.

Outra coisa é a acomodação de textos bíblicos, que ocorre freqüentemente na prática dos cristãos. Imaginemos que a S. Escritura nos apresente determinado sujeito (S) com algum predicado (P): “A sabedoria (S) é a mãe do belo amor, do temor, do conhecimento e da esperança” (Eclo 24,18). Ora o leitor vê, no seu mundo cristão, um sujeito (Sj) semelhante ao sujeito bíblico (S), ao qual podem convir os predicados atribuídos pela Bíblia a S; então faz a acomodação ou a adaptação de tais predicados a S1 … Se, por exemplo, me parece que Maria, por ser a sede da Sabedoria Divina, pode ser dita também “Mãe do belo amor… e da esperança”, faço a acomodação do Eclo 24,18 a Maria. Os próprios autores bíblicos fizeram tais acomodações; por exemplo, São Paulo em Rm 10,15.18 faz a acomodação, aos Apóstolos, de textos que não visavam diretamente aos Apóstolos (cf. Is 52,7 e SI 18,5).

Os cristãos costumam fazer acomodação ou adaptação de textos bíblicos aos fatos da sua vida cotidiana. Tal procedimento pode ser válido, se de fato há semelhança entre o sujeito bíblico e o sujeito não bíblico (entre Jeremias desolado, por exemplo, em Jr 15,18, e o cristão perseguido); mas será condenável, se servir para brincadeiras ou aplicações irreverentes da Bíblia (como às vezes ocorrem nos cartazes de publicidade, no rádio e na televisão).


Para aprofundamento deste estudo, sugere-se:

VAN DEN BORN, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, verbete “Bíblia, Interpretação”. Ed. Vozes, Petrópolis 1971.

LOHFINK, A., Agora entendo a Bíblia. Ed. Paulinas 1978.

SCHARBERT, JOSEF, O mundo da Bíblia. Ed. Vozes, Petrópolis 1969.

Introdução à Sagrada Escritura. Ed Vozes, Petrópolis 1980.

ARENHQEVEL, DIEGO, Assim se formou a Bíblia. Ed. Paulinas 1978.

Perguntas sobre a Interpretação de texto

  • Que entende por “a Bíblia é livro humano e divino”?
  • Todas as traduções da Bíblia são igualmente valiosas?
  • Posso entender a Bíblia sem alguma introdução na mesma?
  • Dê alguns exemplos de como não se deve entendera Bíblia.
  • Qual a função da Igreja na interpretação da S. Escritura?
  • Que é “analogia da fé” (Rm 12,6)?
  • Que é um tipo bíblico ?
  • Que é uma acomodação bíblica?