Lição 1: A Escrita Bíblica

Três são as línguas bíblicas:

  • O hebraico, no qual foram escritos todos os livros protocanônicos do Antigo Testamento;
  • O aramaico, língua vizinha do hebraico, falada pelos arameus, que eram bons comerciantes na Mesopotâmia, na Ásia Menor e nas costas do Mediterrâneo; por isto a sua língua se tornou o idioma comercial internacional como também a língua dos diplomatas e das chancelarias. Em aramaico foram redigidos trechos de livros protocanônicos do Antigo Testamento, como Esdr 4,8-6,18; 7,12-26; Dn 2,4-7,28; uma frase em Jr 10,11 e duas palavras em Gn 31,47; além disto, também o original de São Mateus (hoje perdido);
  • O grego, em que foram redigidos os livros do Novo Testamento (de Mt temos uma tradução grega antiga), Sb, 2Mc. Além disto, os livros e fragmentos deuterocanônicos do Antigo Testamento cujos originais se perderam, encontram- se em tradução grega: 1Mc, Jt, Tb, algumas secções de Daniel (Dn 3,24-90; 13­14) e os acréscimos de Ester recolhidos desordenadamente em Est 10,4-16,24 (da Vulgata Latina).

O texto do Eclesiástico encontra-se em situação especial. Apresenta-se como tradução grega do original hebraico; ver Prólogo, vv. 15-35. O texto original hebraico se perdeu desde os tempos de São Jerônimo († 420); mas dois terços do mesmo foram reencontrados numa sinagoga do Cairo em 1896 e 1931; outros fragmentos ainda foram descobertos nas grutas de Qumran e Massadá (N.O. do Mar Morto). Todavia o texto grego continua sendo o oficial canônico.

O conhecimento das línguas bíblicas por parte dos estudiosos é de grande importância, pois cada qual tem seu gênio e suas particularidades. O comum dos leitores da Bíblia não precisa de conhecer essas línguas estrangeiras, mas deve utilizar boas traduções da S. Escritura e estar alerta para os possíveis semitismos e particularismos da linguagem sagrada. Vejamos algumas peculiaridades desses idiomas:

a) O hebraico era escrito somente com consoantes, sem vogais, até o século VII d. C. Isto quer dizer que o leitor devia mentalmente colocar as vogais entre as consoantes das palavras hebraicas: visto que podia enganar-se, compreende-se que no texto hebraico antigo haja oscilações, como as haveria em português se quiséssemos completar com vogais o grupo l m; poderíamos ler lama, leme, lume, lima, alma… Em hebraico, por exemplo, q r n pode ser lido como qaran ( = brilhar) e qeren ( = chifre); por isto Moisés, que tinha o rosto a brilhar (qaran), é representado na arte ocidental com dois chifres (qeren), visto que São Jerônimo leu qeren em lugar de qaran em Ex 34,29s. Mais: o hebraico era pobre em vocabulário, de modo que, por exemplo, a mesma palavra ah podia significar irmão e primo ou parente (ver Mc 6,3; Gn 13,8; 29,12-15; 31,23; 1 Cr 23,21-23); bekor podia significar primogênito e bem-amado (ver Lc 2,7 e Zc 12,10s). Além disto, notemos que o hebraico não tinha termos de comparativo e superlativo; por isto o versículo: “Muitos são chamados, mas poucos os escolhidos” (Mt 22,14) deve ser traduzido por “maior é o numero dos que são chamados (à fé); menor é o numero dos que chegam à vida definitiva”, podendo a diferença entre maior e menor, no caso, ser muito pequena. O superlativo era expresso mediante um genitivo: assim o Cântico dos Cânticos ( = o mais belo dos Cânticos), o Santo dos Santos (= o lugar mais santo); os céus dos céus (= o mais alto dos céus)… O hebraico escrevia os números utilizando consoantes; visto que estas podiam ser muito semelhantes e confundidas entre si, podia haver dificuldades para lê-las – o que originava confusão na indicação dos números nos livros sagrados. Mais: o hebraico não separava as palavras entre si – costume este que viria a ser fonte de erros na transmissão do texto sagrado.

A escola de rabinos (= mestres) judeus que instituiu a vocalização do texto hebraico da Bíblia é dita “dos massoretas” (massorá = tradição, provavelmente). Fizeram bom trabalho aos poucos, entre o século VII e o século X d. C. O texto hoje utilizado com vogais é chamado “Massorético” (M).

b) O aramaico, muito semelhante ao hebraico, tornou-se a língua adotada pelo povo judeu a partir do século V a. C. Foi a língua falada por Jesus Cristo, O hebraico, aos poucos, ficou sendo apenas o idioma usado no culto divino.

c) O grego era língua de um povo inteligente. Na Bíblia aparece impregnado de semitismos, pois foi utilizado por escritores Tenhamos em vista o vocábulo cálice, que designa “sorte” (Mt 20,22; 26,39); caminho, que significa “doutrina, escola” (At 9,2; 18,25s; 19,9.23) ; língua, que significa “nação” (Ap 5,9).

Os manuscritos gregos da Bíblia mais antigos apresentam letras trocadas (eram semelhantes umas às outras, como também o são em português), muitas palavras escritas abreviadamente, falta de pontuação – o que dificultou a transmissão do texto sagrado por meio dos copistas da antiguidade.

Os escritores antigos não dividiam o texto sagrado em capítulos e versículos. Os cristãos, porém, sentiram a necessidade de dividi-lo para poder citá-lo e utilizá-lo na Liturgia; nos primeiros séculos assinalavam, por exemplo, o trecho “a respeito dos magos” (= Mt 2,1-12),…”a respeito das crianças assassinadas” (= Mt 2,13-18),… “a respeito da siro-fenícia” (- Mc 7,24-30)… Eusébio de Cesaréia (1340) dividiu o texto dos quatro Evangelhos em 1162 capítulos (Mt 355, Mc 233, Lc 342, Jo 232). Na Idade Média, o arcebispo Estêvão Langton, de Cantuaria († 1228), distribuiu o texto latino do Antigo e do Novo Testamento em capítulos; esta divisão foi introduzida no texto hebraico do Antigo Testamento e no texto grego dos LXX e do Novo Testamento. Está até hoje em uso.

A divisão dos capítulos em versículos como atualmente a temos data do século XVI. Santes Pagnino de Lucca († 1541) dividiu o Antigo e o Novo Testamento em versículos numerados; este trabalho ficou sendo definitivo para o Antigo Testamento. Roberto Estêvão, tipógrafo francês, refez a distribuição do Novo Testamento em versículos no ano de 1551; é a que hoje em dia se utiliza, embora tenha suas imperfeições; assim, por exemplo, Mt 19,30 deveria ser o inicio do capitulo 20 de Mateus, pois o mesmo refrão (“os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos”) volta em Mt20,16, enquadrando a parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1-15); notemos também que Gl 5,1a deveria ser, conforme a lógica do pensamento, a conclusão de Gl 4,31.. –

Também a pontuação, que faltava nos autógrafos, foi sendo colocada pelos copistas e intérpretes do texto sagrado nem sempre com muito acerto; consideremos os casos de Jo 1,3s; 7,37s; Gl 4,31-5,1…

O material utilizado para escrever era papiro (junco cortado em tiras) ou pergaminho (couro de animais). Este material era caro e raro, de modo que pouco se escrevia na antiguidade; o ensinamento era feito por via oral mediante recursos mnemotécnicos, que procuravam dar cadência à frase, para que se gravasse melhor na memória; nos livros bíblicos encontram-se ecos escritos desse cadenciamento; cf. Mt 5,21.27.31.33.38.43; 6,2-6 16-18… Dada a fragilidade do papiro e do pergaminho, entende-se que não se tenha conservado nenhum dos autógrafos (textos saídos das mãos dos autores sagrados) da Bíblia. Todavia, se os autógrafos se perderam e só temos cópias dos mesmos, podemos crer que se tenha conservado o teor original da Bíblia? – É o que veremos a seguir.

Lição 2: História do texto hebraico do Antigo Testamento

Sabe-se que nos séculos anteriores a Cristo o texto hebraico do Antigo Testamento oscilava muito. Isto se compreende bem desde que se tenha em vista a maneira como se escrevia antigamente: falta de vogais, ocasiões múltiplas de confundir letras e números.

Todavia a partir dos séculos I/II d. C. a difusão dos escritos cristãos (Evangelhos, epístolas…) obrigou os judeus a cuidar da forma do texto bíblico; os cristãos argumentavam a favor de Cristo utilizando passagens do Antigo Testamento. Julga-se que no século II d. C. já havia quase um texto oficial do Antigo Testamento entre Judeus; é o que insinuam as traduções gregas de Áquila, Símaco e Teodocião então realizadas; supõem um arquétipo hebraico mais ou menos fixo ou constante.

Nos séculos VII -X, entre 650 e 1000 d. c., os massoretas fixaram o texto, colocando-lhe as vogais. Verifica-se hoje, mediante apurados estudos de lingüística, rítmica e literatura orientais, que as opções feitas pelos massoretas eram autênticas.

Quanto aos manuscritos, notemos que até 1947 não possuíamos cópias do texto hebraico anteriores aos séculos IX/X depois de Cristo. Naquela data, porém, foram descobertos os manuscritos de Qumran, a N. O. do Mar Morto, que datam dos séculos I a. C. e I d. C. Foi possível assim recuar mil anos na história da tradição manuscrita; verificou-se então que há identidade entre os manuscritos medievais e aqueles de Qumran – o que quer dizer que o texto se foi transmitindo fielmente através dos séculos. Os judeus muito estimavam a sua literatura sagrada a ponto de não permitirem que se deteriorasse gravemente.

Hoje em dia existem edições criticas do texto hebraico do Antigo Testamento, como a de Rudolf Kittei, que permitem ao estudioso confrontar entre si as fontes do texto e certificar-se de que está lidando com a face autêntica do texto do Antigo Testamento.

Lição 3: a história do texto grego do Novo Testamento

Existem hoje mais de cinco mil cópias manuscritas do Novo Testamento datadas dos dez primeiros séculos. Algumas são papiros, que remontam aos séculos II/III. O mais antigo de todos é o papiro de Rylands, conservado em Manchester (Inglaterra); data de 120 aproximadamente e contém os versículos de Jo 18,31 -33.37.38; se consideramos que o Evangelho segundo João foi escrito por volta de 100, verificamos que dele temos um manuscrito que é, por assim dizer, cópia do autógrafo.

A multidão de cópias do Novo Testamento, apresenta, sem dúvida, numerosas variantes na transmissão do texto: cerca de 200.000. Todavia trata-se, em geral, de oscilações meramente gramaticais ou sintáticas: diferenças na grafia, colocação ou omissão de artigo, de preposição, de advérbio… diferenças estas que não alteram a substância do texto. Os estudiosos concluem que, em vista do grande número e da antiguidade dos manuscritos do Novo Testamento, é possível reconstituir a face autêntica do mesmo, de modo a não deixar dúvidas sobre a fidelidade do texto que hoje utilizamos. Damos, a seguir, alguns exemplos de oscilações dos manuscritos. A mais importante é a de 1Cor 15,51, onde se poderia ler: “Nem todos morreremos, mas todos seremos transfigurados” ou “morreremos todos, mas não seremos todos transfigurados”. Pois bem; a consulta dos manuscritos mais antigos e abalizados leva a ler com toda a segurança: “Nem todos morreremos, mas…” (São Paulo julgava que quem estivesse vivo no dia da segunda vinda de Jesus, não morreria; ver 1Ts 4,16s e2Cor5,1-4). Outras variantes são as de Lc 22,43s (alguns copistas quiseram eliminar a notícia do suor de sangue de Jesus, mas os melhores manuscritos a afirmam); Jo 5,3s (parece que, segundo a boa tradição, se deve omitir o vers. 4 com a noticia de que um anjo agitava a água da piscina de Betesda); 1Jo 5,7s (a referência ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo foi acrescentada tardiamente, ou seja, por ocasião das controvérsias sobre a SS. Trindade no século IV); Mc 1,1 (os bons manuscritos atestam “Jesus Cristo, Filho de Deus”); Mt 1,16 (leia-se “José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado Cristo”, e não, como atesta somente uma tradução síria: “José, com o qual estava desposada a virgem Maria, gerou a Jesus”). – Estes exemplos, que são dos mais significativos, bem mostram que não foi alterada a autenticidade substancial do texto do Novo Testamento.

Os manuscritos do Novo (e também do Antigo) Testamento encontram-se atualmente em diversas bibliotecas de Paris, Londres, Berlim, Leningrado, Madrid, Vaticano…; podem ser consultados por qualquer pesquisador. Os manuscritos bíblicos são patrimônio da humanidade e não pertencem apenas à Igreja Católica.

Existem também edições criticas do Novo Testamento, preparadas tanto por católicos como por protestantes; põem ante os olhos do leitor as principais variantes dos manuscritos e o grau de autoridade que possuem. Tenha-se em vista a edição de Kurt Alland, devida a uma comissão mista de católicos e protestantes e que é a melhor no gênero

Apêndice: As traduções dos LXX e da Vulgata

Quem utiliza uma boa edição brasileira da Bíblia, encontra nela referências às traduções dos LXX e da Vulgata. Daí a necessidade de abordarmos também estes termos.

Os LXX

Os judeus se estabeleceram na cidade de Alexandria (Egito) nos séculos IV/III a. C., lá constituindo próspera colônia. Adotaram a língua grega, de modo que tiveram a necessidade de traduzir a Bíblia do hebraico para o grego – o que foi feito devagar entre 250 e 100 a. C. Chama-se esta “a tradução alexandrina da Bíblia”. A lenda, porém, diz que esta tradução teve origem milagrosa, a saber: o rei Ptolomeu II Filadelfo (285-247 A. C.), querendo possuir na sua biblioteca um exemplar grego dos livros sagrados dos judeus, terá pedido ao sumo sacerdote Eleázaro de Jerusalém os tradutores respectivos. Eleázaro terá enviado seis sábios de cada uma das doze tribos de Israel (portanto, 72 sábios) para Alexandria; estes terão sido encerrados em 72 cubículos isolados e, não obstante, haverão produzido o mesmo texto grego do Antigo Testamento – o que só podia ser milagre. Esta lenda, hoje bem reconhecida como tal, fez que a tradução alexandrina fosse também chamada “dos Setenta Intérpretes”. É importante, porque nos refere o modo como os judeus liam a Bíblia nos séculos III/II a. C.

A Vulgata

Entre os cristãos do Ocidente, havia no século IV tantas traduções latinas da Bíblia que os leitores se viam confusos a respeito. Foi por isto que o Papa São Dâmaso (366-384) pediu a S. Jerônimo fizesse uma revisão dessas traduções. São Jerônimo revisou o texto grego do Novo Testamento e traduziu o hebraico do Antigo Testamento, dando à Igreja um texto latino que logo se propagou e foi chamado “Vulgata latina” (forma di-vulgada latina). -A Vulgata de São Jerônimo gozou de grande autoridade até o Concilio do Vaticano II; hoje em dia existe a Neo-Vulgata, tradução latina dos originais realizada com mais recursos lingüísticos e arqueológicos do que a Vulgata de S. Jerônimo.


Bibliografia

VAN DEN BORN, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, verbetes “Qumran”, “Bíblia”, “Manuscritos”, “Bíblia, Texto da B.”, “Setenta”, “Vulgata”.

SCHARBERT, JOSEF, O mundo da Bíblia. Ed. Vozes, Petrópolis 1965. ARENHOEVEL, DIEGO, Assim se formou a Bíblia. Ed. Paulinas 1978. LOHF INK, GERHARD, Agora entendo a Bíblia. Ed. Paulinas 1978.

MANNUCCI, VALERIO, Bíblia, Palavra de Deus. Curso de Introdução à Sagrada Escritura. Ed. Paulinas, São Paulo 1966.

JÚLIO TREBOLLE BARRERA, A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã. Ed. Vozes 1996

Perguntas sobre os Textos Sagrados

  • Quais são as línguas bíblicas e suas características?
  • De quando data a divisão do texto bíblico em capítulos e versículos ?
  • Existem os autógrafos (textos escritos pelas mãos dos autores sagrados)? Por quê?
  • Quem são os Massoretas ?
  • Pode-se admitir a autenticidade do texto do Antigo Testamento hoje divulgado em hebraico e nas diversas traduções ?
  • Que houve de importante em Qumran? Quando?
  • Pode-se admitir a autenticidade do Novo Testamento hoje divulgado em grego e nas diversas traduções ?
  • Há variantes importantes na transmissão do texto? Exponha.
  • Diga o que é a tradução dos LXX.
  • Exponha o que são a Vulgata e a neo-Vulgata.