Meditação para o 5º Domingo depois da Páscoa. Humildade e Respeito na Oração

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João 16, 23

23Nesse dia, já não me perguntareis nada. Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome, Ele vo-la dará. 24Até agora não pedistes nada em meu nome; pedi e recebereis. Assim, a vossa alegria será completa.»

25«Até aqui falei-vos por meio de comparações. Está a chegar a hora em que já não vos falarei por comparações, mas claramente vos darei a conhecer o que se refere ao Pai. 26Nesse dia, apresentareis em meu nome os vossos pedidos ao Pai, e não vos digo que rogarei por vós ao Pai, 27pois é o próprio Pai que vos ama, porque vós já me tendes amor e já credes que Eu saí de Deus. 28Saí do Pai e vim ao mundo; agora deixo o mundo e vou para o Pai.»

29Disseram-lhe os seus discípulos: «Agora, sim, falas claramente e não usas nenhuma comparação. 30Agora vemos que sabes tudo e não precisas de que ninguém te faça perguntas. Por isso, cremos que saíste de Deus!»

Meditação para o 5º Domingo depois da Páscoa

SUMARIO

Como o Evangelho nos lembra o dever da oração, e os três dias seguintes se chamam dias de rogações ou de preces, meditaremos sobre a humildade e o respeito com que devemos acompanhar todas as nossas orações.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De conservarmos sempre, quando oramos, um aspeto profundamente respeitoso;

2.º De nos mantermos interiormente nos humildes sentimentos do publicano que, à porta do templo, se confunde diante de Deus lembrando-se da sua miséria.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Francisco de Assis:

“Quem sois vós, Senhor, e quem sou eu?” –  Quis tu, Domine? Quis ego?

Meditação para o Dia

Prostremo-nos com profunda humildade e sumo respeito diante da majestade de Deus, dizendo-Lhe como São Francisco de Assis:

“Quem sois Vós, Senhor, e quem sou eu para me apresentar diante de Vós?”

Ou como o santo patriarca Abraão:

“Falarei ao meu Senhor, ainda que eu seja pó e cinza?” – Loquar ad Dominum meum, cum sim pulvis et cinis (Gn 18, 27)

Roguemos-Lhe, que nos penetre até ao fundo da alma desta humilde e deste respeito, que são as duas primeiras condições da boa oração.

PRIMEIRO PONTO

Humildade com que devemos acompanhar as nossas orações

Deus ama a verdade e se compraz na verdade; em toda a parte onde a vê, o Seu coração nela se expande e derrama as Suas graças. Aborrece a mentira e a injustiça; e em toda a parte onde as descobre, o Seu coração afastá-se e o Seu ouvido fecha-se. Destas noções tão claras derivam-se duas consequências: a primeira é, que a humildade é o melhor meio de obter de Deus o que Lhe pedirmos. Se nos apresentarmos diante dEle com o íntimo, sentimento da nossa miséria, expondo-Lhe humildemente o nosso triste estado, como o pobre diante do rico, dizendo-Lhe:

“Vede, Senhor, a minha indigência: tenho fome e sede das Vossas graças; estou nu de todo o bem e de toda a virtude; pedi a todas as criaturas o que era necessário para alimentar a minha alma, cobrir a minha nudez, e todas me responderam, que nada tinham que dar-me, que só em Vós estava todo o bem e todo o dom perfeito”

Deus nos atenderá infalivelmente: porque está escrito, que a oração daquele que se humilha peneira as nuvens (1), e abre o seio das divinas misericórdias; que o Senhor olha para a oração dos que vivem humilhados e não despreza a Sua súplica (2); que não despreza um coração contrito e humilhado (3); que tem uma ternura excepcional pelos pobres que, julgando-se verdadeiramente pobres na Sua presença gemem sob o peso da sua miséria (4). Davi é atendido nas suas orações, porque se conserva diante de Deus como um pobre e um mendigo (5), como um enfermo todo coberto de chagas (6). O publicano é justificado, porque pede com humildade à porta do templo.

A segunda consequência, que se deriva das noções precedentes, é que sem humildade a nossa oração não pode ser acolhida favoravelmente por Deus. Se diante do Seu trono estamos possuídos de uma santa estima das nossas virtudes e dos nossos méritos, se não sentimos o nosso nada quando nos aproximamos do Ser dos seres, a nossa fraqueza na presença da Sua suprema majestade, a nossa miséria diante da Sua infinita santidade, só seremos a Seus olhos o pobre orgulhoso, que Ele aborrece (7); a nossa oração incorrerá na maldição reservada aos mentirosos, pois que a verdade é, que somos pobres além de toda a expressão, que somos nada (8), que nada temos de nós mesmos (9); que nada podemos (10); e depois, porque daria Deus as Suas graças ao coração, que não é humilde? Seria fornecer um alimento ao orgulho, que se atribuiria os dons de Deus; seria entregar ao ladrão o bem que se possui. Quem entre os homens, fez jamais esmola ao pobre soberbo, que não reconhece a sua miséria? Ninguém obtém o socorro dos homens senão movendo-lhes o coração, expondo-lhes humildemente a sua miséria. Deus segue a mesma regra. Examinemos, neste ponto, a nossa consciência: acompanhamos nós a nossa orações com essa profunda humildade, que é ao mesmo o penhor e a condição do bom êxito?

SEGUNDO PONTO

Sumo respeito com que devemos acompanhar as nossas orações

Para o compreender, basta considerar com alguma fé a quem nos dirigimos, quando oramos. Nós falamos ao grande Deus diante de quem as colunas do céu estremecem, diante de quem os vinte e quatro anciãos do Apocalipse se prostram em adoração, e os mesmos Serafins se cobrem com as suas azas. Ora, quando todo o céu se humilha, poderia eu, pobre pecador, não estar ceio de respeito e de veneração? Poderia eu não conservar, nesta continua conversação, um aspeto profundamente religioso, um completo recolhimento dos sentidos, e sobretudo dos olhares, finalmente todo esse conjunto de modéstia, que requer a majestade de Deus! Se falamos a um rei, ainda que só seja para lhe dizer uma palavra, é sempre com o maior respeito, e diante de vós; Majestade eterna, quantas vezes o hábito, a falta de atenção, nos tem feito perder diante de Vós todo o respeito, exterior e interior, até nem se quer pensar no que Vos dizíamos; até esquecer que, ainda que só tivéssemos que dizer-Vos uma palavra, devemos sempre tratar-Vos como Deus, isto é, com sumo respeito!

Entremos aqui em nós mesmos; humilhemo-nos, imploremos perdão, e convertamo-nos.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Oratio humiliantis se nubes penetrabit… et non discedet donec Altissimus aspiciat (Eclo 35, 21)

(2) Respexit in orationem humilium (Sl 101, 18)

(3) Cor… humiliatum, Deus, non despicies (Sl 1, 19)

(4) Dominus de caelo in terram aspexit, ut audiret gemitus compeditorum. Astitit a dextris pauperis, ut salvam… faceret animam… (Sl 101, 20; Sl 108, 31)

(5) Ego sum mendicus et pauper (Sl 39, 18). Libera me, quia egenus et pauper egum sum (Sl 108, 22)

(6) Sana animam meam, quia peccavi tibi… Non est sanitas in carne mea (Sl 40, 5; Sl 37, 4)

(7) Odivit anima mea… pauperam superbum (Eclo 25, 4)

(8) Si quis existimat se aliquid esse, cum nihil sit, ipse se seducit (Gl 6, 3)

(9) Quid nabes quod non accpeisti? (1 Cor 4, 7)

(10) Non quod sufficientes simus cogitare aliquid a nobis, quasi ex vobis (2 Cor 3, 5)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 64-68)