Capítulo 30: Motivos de confiança no Patrocínio de Maria Santíssima
Conhecimento que Maria tem das nossas necessidades

A Bem-aventurada Maria, Mãe de Deus, elevada ao seio da glória celeste, não se esquece de seus filhos degredados nesta terra de exílio. Como Mãe sensível é compassiva, não se despreza de voltar para nós seus olhos; conhece as nossas necessidades e misérias; vê os assaltos que nos dão os inimigos da salvação; ouve os nossos clamores; escuta as nossas preces e votos e acolhe-os com bondade. Esta divina Mãe viveu, como nós, neste vale de lágrimas; passou por terríveis provações, experimentou maiores tribulações do que as que nos oprimem; por isso o seu coração maternal se enternece com as nossas misérias, e está sempre pronto para nos socorrer. Que motivo pode haver mais próprio para nos inspirar a mais firme confiança nesta Mãe de bondade?

Dirijamo-nos a ela como a Protetora; invoquemo-la como Rainha de Misericórdia; consideremo-la sempre como refúgio, asilo, consolação e esperança.

Seu poder para com Deus

A fé nos ensina que o poder dos santos no céu é proporcionado ao número e à excelência das virtudes que praticaram na terra. Ora, Maria foi o modelo de todas as virtudes, elevou-as todas ao mais alto grau de perfeição; qual não deve ser, portanto, a extensão do seu valimento para com Deus? Jesus Cristo, dizem os Santos Padres, é o manancial de todas as graças, e Maria é, por assim dizer, o canal por onde elas correm para nós. O terno amor que este divino Filho tem a tão querida Mãe, não Lhe permite recusa alguma às suas súplicas. Por isso São Pedro Damião não receia dizer, que foi dado a Maria todo o poder no céu e na terra, e que não é tanto em qualidade de suplicante, como em qualidade de soberana, que ela se aproxima do trono do Redentor: Domina non ancila.

Saudemos com a Igreja esta Mãe de misericórdia, nossa comum esperança: Spes nostra, salve: e ,peçamos-lhe que nos acolha debaixo das asas de sua proteção maternal.

Sua ternura para com os homens

Desde o instante, em que a Bem-aventurada Virgem concebeu o Salvador do mundo, participou do Seu amor para com os homens e tomou a peito, como próprias, os nossos interesses. O terno amor de que esteve sempre animada para conosco, teve ainda novo aumenta no pé da Cruz, quando Jesus agonizante no-la deu por Mãe. Quem poderia explicar então os afetos de seu maternal coração? É pouco dizer que ela concebeu pelos seus filhos adotivos todo o amor, toda a ternura, toda a solicitude da melhor das mães; deve acrescentar-se, que nunca houve na terra mãe tão compassiva, tão sensível, tão cheia de bondade e misericórdia. E agora que se acha no céu, na feliz habitação da caridade, quanto não deve ser mais vivo, terno e ardente o seu amor para conosco?

Sim, divina Maria, sois a Mãe do amor; o vosso Coração maternal está sempre aberto para todos os filhos: não nos desampareis nesta terra de misérias e alcançai-nos todos os socorros de que precisamos para chegarmos à feliz eternidade.

ORAÇÃO

Mãe de Deus, Maria, a mais santa e amável de todas as criaturas, é verdade que há na terra muitos corações ingratos e insensíveis, que tem a desgraça de não vos conhecer, ou de não ter para convosco nem respeito, nem sentimentos de devoção; mas em compensação há no céu milhões de anjos e de bem-aventurados, que vos amam e louvam continuamente; e ainda mesmo na terra, quantas almas fiéis se não abrasam no vosso santo amor, trabalhando por honrar-vos e celebrar os vossos louvores! Que não possa eu ser abrasado pelo mesmo fogo, e atrair para vós os corações de todos os homens! Sois o objeto do amor e das ternas complacências do próprio Deus; eu miserável bichinho da terra, poderei deixar de vos amar?! Ah! Longe, longe de mim tal excesso de insensibilidade e ingratidão! Sim, minha amável Mãe, eu vos amo e desejo amar-vos sempre cada vez mais. Permita que persevere até ao fim no vosso amor, para que possa continuar a bendizer-vos e amar-vos com todos os bem-aventurados no céu.

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

Nossa Senhora das Graças em Maillane

A cólera que em 1854, grassava com intensidade no meio dia da França, fez em Maillane tão terríveis estragos, que a população aterrada emigrou precipitadamente. De 1400 habitantes mais de 1200 foram para se subtrair ao flagelo.

Entretanto o mal continuava implacável a sua marcha destruidora.

Cada dia desapareciam cinco a seis vítimas, mas quando o receio de uma mortandade geral principiava a invadir o espírito dos mailaneses, um espantoso prodígio, veio reanimar-lhes a esperança e restituir-lhes a coragem.

Noutro tempo, havia na igreja paroquial de Maillane, uma imagem da Virgem, diante da qual, durante séculos, as gerações cristãs, se ajoelharam e oraram; mas, ou porque esta imagem estivesse muito deteriorada, ou porque diminui-se para com ela a piedade dos fiéis, um dos párocos da freguesia desterrou-a para um aposento obscuro do presbitério.

Ali esteve por muito tempo completamente abandonada, até que um dia, em 1850, uma religiosa da escola católica do lugar a descobriu. Pediu licença ao sacerdote para a levar e colocar, como um precioso depósito, num lugar de honra, na capela do seu convento. Porém a divina Mãe não estava ainda satisfeita, e eis o meio de que se serviu, para avivar no coração dos mailaneses, a terna devoção que seus antepassados, lhe haviam testemunhado por meio daquela imagem.

Nesses dias de luto, quando estava já completamente perdida toda a esperança, no socorro humano, um jovem sacerdote, natural do mesmo país, que ajudava o pároco, nos multiplicados deveres do seu santo ministério, lembrou-se de implorar, com alguns dos seus compatriotas, a proteção de Nossa Senhora das Graças a favor desta desgraçada população.

Confiaram o seu projeto ao cura de Maillane, falando-lhe em organizar imediatamente uma procissão que levasse a imagem da Virgem. Em vão lhes lembraram que se não podia fazer uma procissão extraordinária, sem licença do arcebispo.

Continuaram a insistir, porque o caso era urgente, e na tarde desse mesmo dia, 28 de agosto, os mailaneses, seguiam em procissão a imagem de Nossa Senhora das Graças, cantando o Miserere e o Sub-tuum.

Profundamente comovidos foram buscar a imagem à capela das religiosas, e dirigiram-se com ela para a antiga igreja paroquial, da qual a tinham banido, mas aonde esta boa Mãe, queria novamente receber às homenagens do seu povo e provocar o seu reconhecimento. Caso verdadeiramente miraculoso!

A partir deste momento cessou a mortandade. Nem mais uma vítima! Nem mais um caso de cólera, e os enfermos que havia pouco se contorciam nas convulsões de agonia, recuperaram milagrosamente a saúde!

Nossa Senhora das Graças operou o mais surpreendente e admirável dos prodígios, e este milagre foi tão sensível como consolador, para aqueles que cegamente se confiaram à proteção de Maria.

Os mailaneses que precipitadamente tinham abandonado a aldeia, voltaram, e decidiram que, para perpetuar a memória do insigne benefício com que a Virgem os favorecera, celebrariam cada ano com magníficos festejos o esplendido aniversário do prodígio.

E há 34 anos que os piedosos habitantes de Maillane, fiéis à sua promessa, dão às povoações circunvizinhas o comovente espetáculo da sua ternura filial, para com Aquela que os salvou.

Só quem assiste aos festejos pode compreender quanta poesia encerram, e quanta consolação e esperança derramam no íntimo da alma!

Na tarde de 28 de agosto, cessam em Maillane todos os trabalhos e vestem-se os trajes de festa. Os forasteiros que acodem são cordialmente recebidos.

Às 6 horas da tarde, hora a que em 1854 imploravam na maior aflição, o socorro de Nossa Senhora das Graças, organiza-se a procissão e repetem-se pouco mais ou menos as cerimônias do dia do milagre.

A veneranda imagem tem sido transportada, durante o dia, da igreja paroquial, para a capela das religiosas.

É ali que o cortejo a vai buscar, no mais profundo recolhimento, conduzindo-a através das ruas da localidade, entoando lamentosamente o Miserere. Chegando à praça pública, colocam-na sobre um estrado de ante-mão preparado e, ajoelhando piedosamente, cantam em côro o Sub-tuum.

Um sacerdote, tomando a palavra, fala por alguns momentos, recordando à multidão as misericórdias de Maria. Terminada a alocução, o pregador troca a capa da asperges roxa dos dias de tristeza e luto, pela dourada das grandes e alegres solenidades. A imagem é também despojada dos vestidos tristes e ornada de sedas e brocados de cor contente. A multidão entusiasmada solta cânticos de alegria, os sinos repicam e ao som das melodiosas harmonias da filarmônica de Maillane, a imagem de Maria é conduzida em triunfo para a igreja.

Todas as casas se iluminam, e por toda a parte se vêem imagens de Nossa Senhora das Graças, entre festões de verdura e flores.

E, realmente, nesses momentos, Maria reina em milhares de corações agradecidos! Às 10 horas da noite, um magnífico fogo artificio põe termo ao primeiro dia de festa.

Na manhã do dia seguinte, legiões de sacerdotes se sucedem nos diferentes altares, a celebrar o Santo Sacrifício e distribuir aos fiéis o Pão dos Anjos. Depois há a missa solene e de tarde um sermão, findo o qual a procissão sai novamente através das ruas da povoação.

Esta procissão tem um caráter muito particular: Na véspera a imagem de Maria só é conduzida pelos enfermos de 1854, que ainda existem, ou pelos seus diretos descendentes que nem por um reino cederiam o seu direito!

No dia 29, é conduzida por toda a gente, passando pouco a pouco pelos ombros das 1500 ou 1600 pessoas que formam o cortejo.

Quando a procissão sai da igreja é a imagem que abre a marcha, mas ao recolher já vem na última fileira, tendo passado de ombro em ombro até lá.

Todos querem levar o precioso fardo e passar debaixo do andor, mesmo os próprios membros do conselho municipal.

Em 1888 as festividades de Nossa Senhora das Graças revestiram-se de um brilho incomparável, pela assistência de Mr. Gauthe-Soulard, do reverendo cura de Frigolet e de um dos mais ilustrados professores da Universidade Católica de Lyon, que foi o orador.

O arcebispo de Aix, arrebatado, dizia que tudo quanto lhe tinham contado das tradicionais magnificências das festas de 28 e 29 de agosto, estava muito aquém da realidade.

Sua grandeza comoveu-se até às lágrimas!

Na noite do último dia, ao despedir-se desta querida parte do seu rebanho, felicitando o pároco da freguesia pela ventura de viver no meio de ovelhas que tão bem correspondiam ao seu zelo e caridade, disse para os mailaneses:

— Queridos filhos, a vossa festa só tem o defeito de durar pouco tempo como todas as festas da terra. Consolemo-nos, porém, lembrando-nos que ela nos prepara a entrada no céu, onde a festa é uma só mas de gozo infinito interminável.

OUTRO EXEMPLO

A conversão e uma cura

Nas margens do Gironde habitava num antigo castelo próximo a uma cidade comercial uma nobre família.

Um dia a dona da casa, uma senhora viúva e grande benfeitora dos pobre, viu entrar misteriosamente no seu quarto a sua filha Luíza, menina de seus vinte anos que lançando-se-lhe ao pescoço e beijando-a lhe disse:

— Minha mãe, tomei a resolução inabalável de entrar num convento e professar!

— Que dizes, filha, pensas em deixar-me quando um dos mais distintos cavalheiros da França solicita a tua mão?!

— Antes de tomar esta resolução orei muito à Santíssima Virgem, para que me inspirasse o que devia fazer! Meu irmão Carlos dá- lhe muitos desgostos, em Paris, mamãe, pelo seu mau comportamento; eu resolvi-me a viver como um anjo, para que a Santíssima Virgem resolva Carlos a viver como um bom filho!

E apesar das lágrimas da mãe, e de todas as pessoas que a amavam, Luíza entrou para o noviciado das irmãs da caridade. Maria Santíssima correspondeu à ardente generosidade da nobre religiosa, comovendo o coração de seu irmão Carlos que, convertido, se entregou aos estudos, e começou uma vida exemplar.

Passados anos, Carlos voltou para a companhia da mãe, casando pouco depois com uma excelente menina muito digna pelas suas virtudes e distinção, de se ligar a tão nobre família. Infelizmente a conversão do marido não tinha sido duradoura, e meses depois de celebrado o casamento, Carlos contraiu vergonhosas relações, entregando-se completamente a uma deplorável e escandalosa fraqueza.

Luíza soube-o, e prostrando-se imediatamente ante uma imagem da Virgem, exclamou com ardor:

— Oh! Maria, minha terna mãe, peço-vos de todo o coração um milagre, peço-vos a irrevogável conversão de meu irmão! É um milagre que vos suplico, mas fico bem certa de que hei-de alcançá-lo de vossa misericordiosa ternura! Em reconhecimento ofereço-vos em holocausto a minha vida, mas salvai, santificai meu irmão!

E renovou o holocausto da sua vida à Santíssima Virgem, nas orações de uma fervorosa comunhão! Passados oito dias recebia ela uma carta da superiora geral, que lhe participava que, em consequência do grande número de vítimas do cólera, num dos principais hospitais de Marselha, o número de religiosas que lá estavam para tratar os doentes se tornara insuficiente e que, depois de pedir conselho à Santíssima Virgem, se sentira inspirada a chamá-la a ela para lá.

— É claro que Maria me conduz a Marselha para morrer no meu posto de honra! — exclamou a irmã Luíza.

E seguiu logo.

De fato, poucos dias depois da chegada ao hospital, sentindo os primeiros sintomas da terrível epidemia, Luíza dirige-se à superiora, entrega-lhe uma carta, e pede-lhe que no caso de falecer a faça chegar às mãos de seu irmão. Nessa carta lembrava-lhe quanto tinha feito por ele, comunicava-lhe o seu heroico segredo, verdadeira causa, da sua morte. Pedia-lhe que se regenerasse para um dia se poderem reunir no céu! — Efetivamente, passados alguns dias, a boa religiosa faleceu, e o irmão, ao ler a carta, sentiu uma comoção tão violenta que sob a sua salutar influência, regenerou-se completamente, perseverando dali para o futuro no cumprimento de todos os seus deveres.

Dois anos depois Deus ameaçou-o nas suas mais caras afeições. Sua esposa foi atacada por uma terrível enfermidade e a ciência desesperou de a salvar! Carlos, porém, ouvindo a sentença do médico, exclamou com íntima convicção:

— Não, minha esposa não morrerá, porque tenho no céu um anjo, o anjo da nossa família, a nossa santa Luíza, que implorará a Mãe de Deus pela doente, e há de obter-lhe a cura!

E voltando-se para sua mãe, acrescentou:

— Rezemos a Nossa Senhora de Lourdes por intermédio de Luíza e minha esposa será salva!

Com efeito, depois de fazerem tomar à doente algumas gotas de água milagrosa de Lourdes, principiaram a orar com fervor. O médico que nessa noite veio visitar a pobre enferma, ao retirar-se, disse para um amigo da família:

— Amanhã de manhã estará morta!

A doente passou a noite num sono perfeitamente tranquilho e pela manhã, ao acordar, sentou-se na cama exclamando com voz serena e forte:

— Carlos, Carlos, vem que estou curada! Estou completamente boa!

E contou que durante o sono, vira em sonhos a irmã Luíza que aproximando-se docemente do leito lhe dissera:

— A Santíssima Virgem, deixando-se comover pelas minhas orações e pela confiança e piedade de Carlos, concede-te a vida e a saúde. Amanhã podes levantar-te e nada temas que estarás completamente boa.

E de fato assim era!

Este milagre excitou o espanto e o reconhecimento da família, espalhando-se em seguida por toda a cidade, aonde causou uma admiração e entusiasmo indescritíveis.

LIÇÃO
Sobre a confiança no valimento de Maria Santíssima

Maria é a Filha amada do Pai Eterno, a Mãe do Filho de Deus humanado, a Esposa do divino Espírito Santo. Procurai penetrar o sentido destas palavras e concebereis do seu poder uma ideia, a que nada se pode acrescentar.

Filha sem mancha do Pai Celeste, única perfeita a seus olhos, mais amável do que todas as outras simples criaturas, que poder não tem ela no seu coração?

O Pai Eterno deu-lhe no céu um poder proporcionado, à enchente de graça, com que a enriquecera na terra.

Verdadeira Mãe do Verbo Divino feito Homem deixará ela de ser atendida por seu Filho?

Maria pode por seus pedidos tudo o que o Jesus pode por onipotência. Duvidar se Ela tem poder bastante para nos alcançar as graças que nos são necessárias, seria duvidar se o Filho honra sua Mãe.

O próprio Deus quis ser-lhe sujeito na terra; e ter-lhe-á menos atenções agora que reinam ambos nos céus?

Esposa ternamente amada do Espírito Santo, Maria tem todo o valimento com Ele, pode movê-lO em nosso favor e alcançar-nos os Seus dons e frutos preciosíssimos.

O Onipotente constituiu-a Rainha do céu e da terra; logo confiou-lhe um poder adequado a esta excelsa dignidade. Debalde teria ela este título tão glorioso, se não pudesse acudir aos miseráveis e fazê-los felizes.

Se pela intercessão dos santos, opera o Senhor grandes prodígios, que negará às rogativas da Rainha de todos eles?

Colocai-vos, pois, debaixo da sua proteção, e nada temereis; é proteção segura que nunca falha; proteção onipotente que vence todos os obstáculos; proteção universal que a todos acolhe.

Mas não queirais adormecer em criminosa ociosidade, confiando na proteção da divina Mãe; não é este o espírito dos seus servos.

Ajudado com a graça de Jesus, que Maria vos alcançará, trabalhai da vossa parte para chegardes à pátria feliz, para onde Ela se esforça por nos conduzir a todos.

Máxima Espiritual

“Se perseverardes na devoção verdadeira para com Maria até à morte, confiai que a vossa eterna salvação está segura” – Santo Afonso Maria de Ligório

Jaculatória

Regina Sanctorum omnium, ora pro nobis

Rainha de todos os Santos, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 386-400)