Capítulo 20: A vida oculta da Sagrada Família em Nazaré
Vive na pobreza

Consideremos a Sagrada Família, composta de Jesus, de Maria e de José. Esta Santíssima Família tinha só a Deus por seu único bem, vivia na obscuridade, nos trabalhos, talvez em desprezo, e sem dúvida na pobreza. Mas quanto não era rica em graças e virtudes! Nunca houve família mais santa, mais respeitável, mais feliz nem mais digna da vassalagem dos anjos e dos homens. Não são os bens e as honras deste mundo, o que faz a verdadeira felicidade, mas sim a graça de Deus; a virtude e a santidade. Oh! Quanto é rico e ditoso aquele que ama a Deus, e só a Ele possui!

Na obscuridade

Jesus podia logo desde menino fazer milagres, pregar, fazer-Se admirar de todo o mundo, mas para nossa instrução foge do esplendor e das honras, e escolhe passar uma vida oculta, obscura e desconhecida aos homens. Que faz Ele neste retiro? Obedece com exatidão a Maria e a José, participa de seus trabalhos, alivia-os em suas penas e desempenha todos os deveres do amor filial. Oh! Quais não seriam os sentimentos da humilde Maria, vendo submisso à sua vontade o Soberano Senhor do céu! Admiremos com ela a prodigiosa e, incompreensível obediência do Homem-Deus; e, depois de considerarmos quem é Aquele que obedece e a quem obedece, tiraremos desta consideração duas consequências: primeira, que devemos obedecer aos que Deus pôs em Seu lugar para nos dirigirem; segunda, que devemos honrar com profundíssimo respeito aquela Virgem, a quem o Salvador quis viver submisso.

Na prática da caridade

Admiremos a paz, a união e a devoção que reinavam na sagrada família; era uma verdadeira imagem do céu. É mais fácil imaginar, do que dizer, todas as coisas maravilhosas, inefáveis e misteriosas, que nela se passaram durante os trinta anos, que o Salvador viveu na solidão. Que caridade, que atenções, que mútuos respeitos, já da parte da mais santa, da mais terna, da mais desvelada de todas as mães, já da parte do mais amável e respeitoso de todos os filhos! Procedamos de tal sorte, que estas virtudes reinem em nós, em qualquer parte que nos achemos. Tenhamos cuidado de conservar sempre a paz e a concórdia com o próximo, pela nossa doçura e atenções. Evitemos, como peste, as dissenções, as invejas, as palavras ásperas, e tudo o que poderia ofender a caridade.

ORAÇÃO

Divina Mãe do Salvador, que lhe puseste o dulcíssimo Nome de Jesus, trazido do céu por um Anjo; com que respeito e suavidade não era por vós pronunciado este adorável Nome! Quanto não penetráveis vós os seus ocultos mistérios e toda a extensão do sentido, que ele encerra! Ah! Dai-me, Virgem Santíssima, algum dos devotos pensamentos, dos afetos santos e dos amorosos transportes, que este santíssimo Nome vos inspirava. E Vós, ó meu Jesus, pelo amor que tendes a Vossa divina Mãe, ensinai-me a pronunciar o dulcíssimo Nome de Maria, como Vós o pronunciáveis, para que estes dois sagrados Nomes de Jesus e de Maria me tragam à memória quanto Vos custou a minha alma, e pronunciando-os muitas vezes com fé e amor durante a vida, eles sejam a minha força, consolação e esperança na hora da morte e depois as minhas delícias e ventura por toda a eternidade.

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

A Virgem de Pompeia

A Revista religiosa do Santuário do Vale de Pompeia narrava em um dos seus números de 1890 o seguinte extraordinário acontecimento, sucedido na cidade de Lacedonia:

— Uma donzela de 18 anos de idade, por nome Antonietta Balastriere, achava-se há quatro meses inteiramente paralítica.

Os principais médicos da cidade empregaram todos os recursos da ciência para por termo, ou ao menos dar qualquer lenitivo à infeliz padecente. Tudo em vão. O mal crescia até que se perderam as esperanças de salvá-la. A pia donzela e seus parentes tinham notícia das graças e prodígios que a Santíssima Virgem de Pompeia prodigaliza no seu novo santuário e, desde o princípio da doença, a ela recorreram com repetidas novenas. À medida que que o mal progredia e se perdiam as esperanças nos recursos humanos, mais e mais avivava à sua fé e crescia a confiança no patrocínio da Consoladora dos aflitos. Tal confiança não podia ficar frustrada. A Mãe de Deus tinha escolhido aquela criatura, para nela manifestar a sua bondade e, para que mais resplandecesse este atributo, deixou crescer o mal até ao ponto da morte ser considerada iminente e inevitável.

A extrema contração dos nervos tinha-lhe quase de todo fechado a garganta, e não lhe deixava sequer engolir uma gota de água; a infeliz apresentava o aspecto de uma moribunda, e tinha recebido todos os sacramentos.

Não podendo sentir o mais pequeno rumor, nem sofrer o mínimo reflexo de luz, fez intender à família que a deixassem por algum tempo sozinha. No meio da escuridão da noite e próxima a aparecer diante do tribunal divino, invocou com fé mais viva do que nunca a predileta Virgem de Pompeia, recitando, mais com o coração do que com os lábios a sua novena, que já sabia de cor.

Deixemos agora falar o piedoso Diretor da Revista religiosa Il Rosario e la nueva Pompei:

Apenas a enferma tinha começado as primeiras palavras: Ó Virgem Imaculada, Rainha do Santo Rosário, tende piedade de mim que tenho tão grande necessidade do vosso auxílio, etc., os seus olhos amortecidos foram feridos por um fulgor de luz que saía da escuridão, do lado direito da cama.

Atônita e assustada deixa de orar, e vê no meio daqueles esplendores a Mãe de Deus, a Virgem de Pompeia, de beleza inefável, que se lhe aproxima do leito.

A aparição não tinha nada de aéreo e indeterminado, era uma pessoa real e viva, revestida de um corpo em tudo semelhante ao nosso, e só diferente, por ser maravilhosamente luminoso e belo. Os seus vestidos eram alvos como a neve; cobria-a um manto de cor celeste, trazia na cabeça uma corôa branca, tinha as mãos erguidas, como quem esta a orar, e pendia-lhe da cintura o Rosário.

Em seguida dirige à moribunda estas palavras:

— Antonietta, queres tu vir a Pompeia?

— Senhora minha, como hei de eu ir, se não posso sequer voltar-me neste leito?

E a Virgem:

— Ergue-te que estás sã

— Como hei de eu estar sã, se não posso mover-me?

Quando a enferma pronunciava estas palavras, a Santíssima Virgem colocou a sua alvíssima mão direita sobre o estômago da donzela, e a esquerda sobre um lado, que estava todo chagado, e com bondade inefável Ela mesma a ergueu e sentou sobre o leito, dizendo:

— Estás sã.

— Senhora minha, antes quero morrer do que ficar assim tolhida.

— Não, não deves morrer. Hás de viver para manifestar as minhas grandezas em toda a Lacedonia.

E continuou:

— Amanhã te erguerás e irás à igreja, hás de confessar-te e comungar e ir me visitar a Pompeia; antes porém de entrar no meu Santuário, deves descalçar-te, e iri de joelhos ao meu altar.

Quando quiseres alguma graça recorre a mim que sou sempre tua mãe. — E desapareceu.

A enferma quis experimentar se estava verdadeiramente sã: estendeu imediatamente os braços, e as mãos abriram-se naturalmente. Feito isto, saltou abaixo da cama, para experimentar se podia caminhar e caminhou sozinha. As dores da espinha dorsal, a contração das pernas e dos braços, as ulceras da boca, as grandes dores do estômago, o catarro das vísceras, a paralisia facial, tudo tinha desaparecido num instante!

Imagine quem puder, o júbilo da família, ao verificar a verdade do acontecido.

Isto passava-se a 29 de julho, de madrugada. Fiel ao preceito que a Santíssima Virgem lhe tinha imposto, às 6 horas da manhã sai de casa, acompanhada de uma íntima amiga, e dirige-se à matriz de Lacedonia. A notícia deste acontecimento espalhou-se por toda a cidade.

O templo encheu-se de fiéis, que quiseram verificar com os próprios olhos a realidade do acontecido, e ouvir da própria boca da ressuscitada a narração do grande prodígio.

Não sendo conveniente, nem a sua voz bastante forte para ser escutada pela grande multidão, um zeloso sacerdote, levanta-se e, no meio de soluços e lágrimas, a todos narra o portentoso acontecimento, exclamando:

“Vedes esta donzela, que ontem estava morta e hoje por um insigne milagre da Virgem de Pompeia está viva e sã? Ao nosso país tinha chegado o eco dos prodígios que a Santíssima Virgem opera no seu bendito vale de Pompeia, mas ninguém desta cidade tinha sido testemunha de um milagre. E hoje está vivo no meio de nós. Vede Antonietta Balestrieri que já tinha sido ungida e há quatro meses se achava prostrada no leito. A Virgem de Pompeia apareceu-lhe e restituiu-lhe a saúde e o vigor. Porque apareceu a Santíssima Virgem em Pompeia? Para que toda a gente neste país se converta para Deus”

Lágrimas de compunção e alegria corriam de todos os olhos, soluços e gemidos rebentavam de todos os peitos. Muitos que viviam afastados da Igreja, se converteram e aproximaram dos sacramentos.

Acabada a missa, aproximaram-se de Antonietta numerosas pessoas congratulando-se pela sua felicidade.

E em todo o dia e nos seguintes, foi um contínuo movimento de povo que corria a visitar a casa de Antonietta, e todos saiam consolados e chorando de compunção e religiosa piedade.

Assim se realizavam as palavras da Virgem:

“Deves viver para tornar conhecidas as minhas grandezas em toda a cidade de Lacedonia”

Antonietta, fiel ao mandado da Santíssima Virgem, queria logo partir para o Santuário de Pompeia, mas, por obediência à família, a viagem só pôde realizar-se a 10 de setembro.

Veio acompanhada de seus pais, parentes e amigos, formando uma comitiva de trinta pessoas, as quais, a exemplo de Antonietta, apenas chegaram à porta daquele famoso Santuário, se descalçaram e seguiram de joelhos até ao altar da Virgem do Rosário.

Terminada a romaria, deviam todos voltar para Lacedonia. Foi nesta ocasião que se passou uma cena, a mais terna e tocante. A donzela miraculada, em tom de voz resoluto, com as faces banhadas de pranto, voltou-se para o pai, dizendo-lhe:

“Meu pai, a Santíssima Vargem ressuscitou-me, mas quer que eu viva para Ela; eu quero obedecer aos seus conselhos. Desejo ficar para sempre nesta casa, onde há tantas piedosas mulheres, ocupadas em exercitar a caridade.

Serei aqui a serva de todas, porque servirei a casa da minha celeste Benfeitora.”

E o bom pai consentiu nesta santa resolução de sua filha, que ali vive assistindo às órfãs abandonadas, recolhidas no hospício anexo ao Santuário da Santíssima Virgem do Rosário do Vale de Pompeia.

OUTRO EXEMPLO

Conversões devidas ao Padre Hermano, durante a sua permanência em Lyon

Em 1859, o Padre Hermano, religioso Carmelita, foi encarregado pelos superiores de estabelecer em Lyon, um convento da sua ordem.

Em consequência disto teve de habitar durante dois anos na velha cidade lionesa, onde gozava de uma grande popularidade e todos bendiziam o seu nome, sendo a sua demora nesta cidade assinalada por numerosas conversões.

Não nos é possível narrá-las todas, que são muitas; daremos apenas conhecimento das mais notáveis.

— Um celebre maestro, Mr. Bauman, afastado de todas as práticas religiosas, levava essa vida de artista, semelhante à do Padre Hermano, antes da sua conversão.

Adoeceu gravemente e, como os médicos declarassem a sua vida em grave risco, propuseram-lhe que chamasse um padre e se reconciliasse com Deus. A todas as instâncias respondia formalmente que não.

As pessoas que o rodeavam não deixaram de insistir, e o doente, mais para se ver livre de importunos do que tocado pela graça, disse:

— Pois bem, mandem pedir ao Padre Hermano que venha ver-me e falaremos um pouco de música, já que ele é como eu, um grande amador.

Horas depois o sacerdote estava à cabeceira do enfermo, conversando familiarmente e com tal franqueza que lembrava o artista de outro tempo. O doente, comovido por palavras tão francas e tão amigas, consentiu em tudo que lhe pediu e confessou-se com os sentimentos da mais viva dor, recebendo depois os últimos sacramentos. Para reparar os seus antigos erros, Bauman convidou os seus amigos para assistirem à tocante cerimônia da administração do Sagrado Viático, ensinaodo-os assim a bem morrer. Dias depois comparecia ante o Supremo Tribunal, purificado e feliz!

— Que esplendido — Te Deum — cantaremos, quando nos reunirmos no céu! — dizia ele ao sacerdote Padre Hermano momentos antes de expirar!

***

— Um outro artista também muito conhecido em França pelo seu maravilhoso talento e pelas desordens da sua vida, vivia também nessa época em Lyon. Ouvindo falar de Hermano, desejou conhecer o homem, cuja conversão, dizia ele, lhe parecia um verdadeiro heroísmo e acrescentava:

— Eu é que jamais teria coragem para renunciar aos inebriantes prazeres da vida de artista!

Estas palavras dizia-as Hain a uma piedosa senhora, que, desejando a conversão dele, e esperando obtê-la duma entrevista com o Padre Hermano, animou-o a ir ao convento do Carmo procurá-lo, asseverando-lhe que seria bem recebido. Hain prometeu ir, mas apenas ficou só, lamentou sinceramente ter comprometido a sua palavra, e estudou o melhor meio de faltar a ela. No entanto, sabendo que o Padre Hermano ia ser avisado da sua visita, parecia-lhe difícil deixar de a cumprir.

Subitamente lembrou-se de que o Padre Hermano costumava ir às quartas feiras a Fourviéres, confessar as Carmelitas, e escolheu um desses dias para a visita, certo de o não encontrar.

Chegando ao páteo do mosteiro, preparou o seu cartão para o deixar, e dirigindo- se a um religioso que falava com uns operários perguntou-lhe pelo Padre Hermano.

O religioso olhou-o fixamente e pousando-lhe de leve a mão no ombro disse-lhe:

— O Padre Hermano, sou eu, e vós sois Jorge Hain.

A providência permitira que uma extraordinária circunstância impedisse o Padre Hermano de ir nesse dia a Fourvíéres. A graça divina esperava o artista quando este julgava fugir-lhe. O Padre Hermano conduziu Hain ao convento, que o seguiu um pouco confuso mas sem resistência. A entrevista dos dois foi demorada e alguns dias depois, Jorge Hain dirigia-se à igreja de Nossa Senhora de Fourviéres onde comungou com verdadeira devoção.

Passados meses casava-se com uma virtuosa menina que proporcionando-lhe todas as alegrias de uma vida tranquila e feliz, lhe tornou mais fácil a sua conversão.

***

Ainda outra conversão obtida pelo Padre Hermano

Madame A., mulher de um talento superior, pertencente ao mundo aristocrático, patenteava a todos as suas ideias filosóficas, afetando não admitir nenhuma crença religiosa. Contudo, sob o aspecto de espírito forte, buscava inquietamente a verdade que bem sabia não estar nas ideias que expunha. Procurou ter uma conferência com o padre Lacordaire, mas saiu dela tão pouco convencida como quando entrou. Um dia Madame A. dirigiu-se à catedral de São João, para ouvir o Padre Hermano que ia pregar. Despertava-lhe a curiosidade ver o antigo artista, vestido de monge, exortando à penitência e à virtude. O sermão foi sobre a Eucaristia; e Hermano, que se abrasava no mais ardente amor por esse divino Sacramento, foi tão eloquente, que a dama, sentindo-se repentinamente comovida e tocada da graça, sem mais discutir, caiu de joelhos orando. Tempo depois tornou-se uma das mais fervorosas penitentes do Padre Hermano.

LIÇÃO
Sobre o bom uso do trabalho

O trabalho e as ocupações, ainda as mais penosas e importunas, não são bastantes a suspender em um cristão devoto e interior a sua união com Deus.

A alma habitualmente recolhida, tem uma maravilhosa facilidade de pensar em Deus, mesmo nas ocasiões em que os deveres do seu estado a ocupam e deviam distrair.

A pureza de intenção com que anima cada uma das suas ações e o oferecimento que delas faz ao Senhor levam-na a evitar a dissipação, em que frequentemente caem as almas menos cuidadosas.

O espírito de fé e religião tudo enobrece, adoça e consagra; quanto se faz com este espírito, é apreciado por Deus e digno de recompensa.

Fazei por Ele o que tantos outros fazem unicamente pelo mundo ou por algum interesse temporal. Ocupai-vos no que pede o vosso estado, mas fazei-o com intenção cristã; isto será trabalhar ao mesmo tempo para a vida presente e para a vida eterna.

Se tomais o trabalho por gosto, por gênio, por costume, por obrigação ou qualquer motivo puramente humano, sem que Deus seja o principal motor, passareis horas inteiras sem lhe dirigir um só afeto.

Nem digais que não podeis pensar em duas coisas a um tempo: o coração não gasta tempo em dizer a Deus o que lhe quer significar.

Quantas vezes nas vossas ocupações vos entretendes com quem vos faz companhia? Falai também com Deus que está presente a quanto fazeis.

Oferecei-Lhe o vosso trabalho unido com os trabalhos que Jesus e Maria padeceram pela vossa salvação.

Se ele for bem sucedido, bendizei ao Senhor, que o faz frutificar; se for perdido, submetei-vos a esta mortificação, que Ele permite para apurar a vossa paciência e aumentar a vossa corôa.

Por esta união com Deus em todas as ações, ainda mais pequenas e insignificantes na aparência, as podeis tornar tão elevadas que mereçam novo grau de glória no céu.

Máxima Espiritual

“O demônio anda sempre à caça dos ociosos” – Santo Afonso Maroa de Ligório

Jaculatória

Domus aurea, ora pro nobis

Casa de ouro, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 261-275)