Capítulo 17: A Profecia de Simeão
Dor que Maria Santíssima sente, ouvindo o que o santo velho profetiza a respeito:

De seu divino Filho

Quando o velho Simeão teve a dita de receber nos braços o Deus Menino, depois de testemunhar sua gratidão ao Senhor por lhe ter concedido ver o Salvador que vinha ser a luz para iluminar as gentes, e a glória do povo de Israel; alumiado com luz profética, o venerando ancião profere este triste oráculo:

“Este Menino está posto para alvo de contradição”

Aqui, de repente, e como numa lance de olhos, foram presentes à Senhora todas as perseguições de que seria objeto o seu bendito Filho, e todas as circunstâncias de sua dolorosa Paixão. De quanta amargura este espetáculo não repassaria o seu amantíssimo coração! E todavia, que admirável resignação e tranquilidade conservava no meio de tantas angústias! Com que rendimento se submete aos inefáveis decretos de Deus! Aprendamos daqui a conformarmo-nos com as disposições da divina Providência em todas as tribulações da vida, embora tenhamos de sacrificar os nossos mais justos e santos afetos.

Dela mesma

O golpe que caíra sobre o inocente Jesus, devia naturalmente cair com toda a força sobre o coração de Maria Santíssima. E o Santo Simeão, dirigindo-se à Virgem Mãe, acrescentou estas palavras:

“Uma espada traspassará vossa alma”

Ai! Esta espada principiou logo a cravar-se no seu amoroso coração! A vista antecipada dos padecimentos de seu Filho a enchia de angústias. Quando contemplava este adorável Menino, antecipadamente se lhe representava que havia de ser algum dia coroado de espinhos, despedaçado com açoites, traspassado com cravos e todo ensanguentado. Quando o envolvia nas faixas da infância e o reclinava no berço, logo ao seu espírito se apresentavam as vestiduras de ignomínia, com que havia de ser coberto e a cruz em que havia de ser pregado. Quando assistia aos sacrifícios da lei, figurava-se-lhe vê-lo já imolado e derramando até à última gota do sangue pela salvação dos homens. Que espetáculo para o coração de tal Mãe! E ela a tudo se sujeitava, porque sabia que tudo isto era necessário para nos resgatar do inferno! Ó divina Mãe, quanto nos amais, quantos sacrifícios não fizestes para a salvação de nossas almas! Não permitais que tenhamos a desgraça de nos perder e de tornar inúteis para nós os tormentos de vosso Filho, nem as dores que alancearam o vosso maternal coração!

Dos homens

A maior aflição de Maria Santíssima procedia desta parte da profecia:

“Este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel”

Ela gemia vendo a dureza e obstinação dos judeus em acreditarem no verdadeiro Messias, em rejeitarem as luzes que lhes mostrava e desprezarem as Suas graças. Previa com amarga dor a multidão dos pecadores que, longe de aproveitarem o remédio da Redenção, que tanto custava a seu Filho e a ela, lhe corresponderiam com novos crimes. O seu coração sensibilíssimo se dilacerava pensando que tantos trabalhos e sofrimentos seriam inúteis para grande número de almas. Ah! Nós renovamos de alguma sorte o motivo de acerba dor de Maria, traspassamos o coração da nossa terna Mãe, quando desaproveitamos as graças que custaram tão caro ao seu Jesus. Temamos de atrair sobre nós, por nossa ingratidão e infidelidades, os castigos que os judeus chamaram sobre si; e supliquemos com instância à Virgem Santíssima, que nos preserve de tamanha desgraça.

ORAÇÃO

Ó Mãe aflitíssima eu não posso considerar na terrível espada que traspassou o vosso coração amabilíssimo, sem que reconheça em mim o criminoso obreiro que a fabricou com suas culpas! Sem dúvida essa espada profetizada por Simeão é obra de minha malícia; e afiando-a com meus pecados a fiz assim aguda e penetrante, e com ela repetidas vezes tenho traspassado o vosso maternal coração! Ai! Quantas vezes tenho por isso merecido o inferno! Já nesta hora estaria condenado, se vós, ó Mãe de misericórdia, não tivésseis implorado em meu favor a clemência divina! Mas agora que reconheço e confesso a minha grande culpa, quero emendá-la; quero salvar-me a todo custo. Já que vós, Virgem inocentíssima, quisestes padecer tanto por este filho ingrato, impetrai-me grande dor de meus pecados, paciência para sofrer os trabalhos e penas da vida, luz para conhecer a importância da salvação eterna e graça para trabalhar nela com diligência e perseverança, até que possa ir louvar-vos e bendizer-vos no céu, e agradecer-vos a grande misericórdia que usastes comigo, salvando-me pela vossa eficaz intercessão. Assim seja.

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

Cura miraculosa

Na Semana Religiosa da diocese de Montpellier de 28 de junho de 1890, lê-se uma carta da irmã Santa Cecília, religiosa conversa da colonia de New York, dirigida à superiora geral das Religiosas do Sagrado Coração de Maria a cuja congregação pertence a referida irmã, na qual narra a maneira maravilhosa por que fôra pela Santíssima Virgem repentinamente curada de um cancro, de que há três anos sofria no estômago, e juntamente remete o atestado do médico que a tratou, o qual não duvida classificar de miraculosa esta tão extraordinária cura.

Eis os documentos:

Sag-Harbor, New-York, 8 de Setembro de 1889.

Minha querida e reverenda Mãe.

Imagino qual será a sua surpresa ao saber que ainda estou neste mundo, depois de me julgar às portas da morte! Não lhe farei, querida e reverenda mãe, a narração circunstanciada da minha doença, porque sei que a minha boa superiora daqui a tem posto ao fato de tudo; dir-lhe-ei somente que durante as duas últimas semanas, esperava a morte a cada momento, sentindo-me resignada e inteiramente submissa à adorável vontade de Deus.

Não lhe posso descrever os horríveis sofrimentos que a inanição me causou! Eu não podia tomar alimento algum, porque o estômago, como que fechado pelo tumor nada podia receber. Na última semana, sentindo-me completamente exausta de forças, pedi muito a Nosso Senhor que me deixasse viver até ao dia da festa de Nossa Senhora dos Anjos. Devo dizer-lhe, querida mãe, que no meio dos meus sofrimentos, Nosso Senhor se dignou consolar-me muitas vezes; não assim a Santíssima Virgem. Esta parecia ter-se esquecido completamente de mim.

Pedi então muito e muito ao nosso bom Jesus, que, ao menos nos derradeiros momentos da minha vida, me enviasse sua Santíssima Mãe para me assistir e, entretanto, ia-me esforçando em repetir a cada instante esta invocação:

Nossa Senhora dos Anjos, rogai por mim!

Chegou finalmente o dia 2 de agosto. Pela manhã tive a felicidade de receber ainda o Sagrado Viático, e em seguida aplicaram-me as indulgências da hora da morte. Estava preparada para a jornada da eternidade e às duas horas da tarde, enquanto que a comunidade reunida na capela, recitava o rosário, diante do Santíssimo Sacramento, exposto, recebia eu a visita da Santíssima Virgem! Oh! Sim, minha mãe, foi realmente a Santíssima Virgem que, pousando-me as suas maternais mãos sobre os ombros e inclinando a sua divina cabeça sobre o meu rosto, me repetiu por três vezes estas palavras:

“Venho provar-te que não me esqueci de ti, minha filha”

É impossível, minha querida e reverenda mãe, descrever-lhe a impressão que senti nesse momento tão precioso para mim! Pareceu-me despertar de um profundo letargo! Foi uma verdadeira ressurreição!

Sentei-me repentinamente no leito, chamei a irmã enfermeira que, espantada do que via, em vez de se aproximar de mim, me respondeu de longe:

“— Que é que quer, minha irmã?

— Quero comer alguma coisa e depois levantar-me, respondi eu”

Então a irmã, um pouco mais tranquila, aproximou-se de mim e perguntou-me o que queria que fosse buscar. Disse-lhe que me trouxesse algumas frutas e logo que m’as apresentou comi com apetite magnífico. Depois pedi os meus vestidos, e sem que ninguém me ajudasse, vesti-me, enquanto que a irmã enfermeira se dirigia para a capela muito satisfeita, anunciar à nossa boa superiora e a toda a comunidade a minha milagrosa cura. Pouco depois entrei eu, e ajoelhando-me cheia de reconhecimento para com a minha divina Mãe do céu, cantei-lhe a Magnificat, com uma alegria e um entusiasmo impossíveis de descrever!

No dia seguinte levantei-me com toda a comunidade e retomei as minhas antigas obrigações sem sentir o mínimo incômodo. Graças a Nossa Senhora dos Anjos, as forças aumentam de dia para dia. O médico que me tratou examinou-me e, reconhecendo que o tumor tinha completamente desaparecido, exclamou:

“É um verdadeiro milagre! Um milagre de primeira ordem”

Agora resta-me testemunhar constantemente a Nossa Senhora dos Anjos a minha profunda gratidão, e peço-lhe, minha querida e reverenda mãe, que interceda por mim nas suas fervorosas orações para que eu me torne cada vez mais digna da graça que me foi concedida e, em meu nome, suplique ao nosso reverendíssimo Pe. Superior, a quem esta carta vai certamente levar imensa consolação e alegria, que me auxilie e agradeça também por mim a Nossa Senhora dos Anjos.

Vossa respeitosa e afeiçoadíssima filha em Nosso Senhor
Irmã Santa Cecília.

Religiosa do Sagrado Coração de Maria, Virgem Imaculada.

Atestado do Dr. que tratou a Irmã Santa Cecília

Eu abaixo assinado, G. A. Sterling, médico, formado pela Escola Médica do hospital Bellevue, residente em Sag-Harbor, New York, certifico que tratei a Irmã Santa Cecília, na sua última e gravíssima enfermidade, a qual foi classificada de cancro no estômago, diagnóstico confirmado numa conferência com o Dr. G. A. Lyons, também da mesma cidade de New York. O tumor, estacionado por algum tempo (durante o qual a doente foi julgada por duas vezes — in articulo mortis) desapareceu repentinamente, e a irmã Santa Cecília pôde levantar-se completamente restabelecida.

Assinado
Geo A. Sterling,
Doutor Médico-Cirurgião do Hospital de Marinha
Estados Unidos, Sag-Harbor, L. J. Dezembro de 1889.

OUTRO EXEMPLO

Poder e proteção de morta

Havia na cidade de Leão um velho de 80 anos que, gozando até então saúde perfeita foi repentinamente acometido de uma doença mortal. Infelizmente, conservando em todo o vigor a sua antiga impiedade, só o preocupava a ideia de prolongar o mais possível esta vida a que tanto apego sentia. Estava longe de pensar em padre que lhe ouvisse a confissão, em Viático que o confortasse nos derradeiros momentos; a sua qualidade de maçom, colocava-o ao abrigo de qualquer ataque religioso.

Contudo um sacerdote que teve conhecimento do seu estado, arriscou-se a transpor-lhe a porta do quarto, onde foi recebido com as mais significativas ameaças.

O ministro de Deus, porém, perfeitamente tranquilo, deixou passar o primeiro momento de cólera e conseguiu depois fazer-lhe tolerar a sua presença, conservando-se prudentemente num terreno completamente neutro.

Isto foi já um progresso, ainda que de pouca duração, porque voltando o sacerdote na manhã seguinte fazer-lhe segunda visita, encontrou o enfermo mais encolerizado ainda.

Um quadro da Virgem Maria, suspenso do leito do enfermo, serviu de tema a este bom padre para encetar uma nova tentativa de conversão.

“— Falais tanto contra a religião, encolerizais-vos contra ela, e tendes tão perto de vós uma imagem da Virgem?

— É verdade, respondeu o velho perturbado, mas isso não é da vossa conta.

— Não temeis a influência da Santíssima Virgem? insistiu o sacerdote, não sois maçom?

— Sou, sim, e como tal fiz juramento de morrer sem confissão, portanto podeis retirar-vos e deixar-me em paz.

— Pois sim, visto que tendes em casa a nossa divina Mãe, vou fazer-vos a vontade. Ela sabe muito melhor do que eu o que lhe cumpre fazer”

Dizendo isto, retirou-se para voltar no dia seguinte, E, coisa notável! O enfermo recebeu-o agradavelmente.

Ao ódio implacável da vespeira, sucedera uma perfeita tranquilidade e o sacerdote aproveitando-a insistiu em lhe falar no quadro da Santíssima Virgem, perguntando-lhe se nunca tivera vontade de se desfazer dele.

“Não, respondeu o pobre velho, e olhe que apesar da minha qualidade de maçom, nunca deixei passar o dia 15 de agosto sem ir visitar Nossa Senhora à sua igreja de La Fourviere”

Depois mostrou-lhe um cordão azul que trazia consigo desde a mais tenra idade, insígnia duma confraria erigida em honra da Santíssima Virgem.

O sacerdote retirou-se profundamente comovido, mas quase tranquilo pela sorte do enfermo que ele julgava sob a maternal proteção de Maria.

Horas depois era chamado a toda a pressa, da parte do moribundo, que, completamente arrependido dos seus erros, lhe fez uma humilde confissão, manifestando os mais vivos sentimentos duma contrição verdadeira.

Depois, abrasado no ardente amor desse Deus que tanto tempo desprezara e animado duma filial devoção por Maria, recebeu os últimos sacramentos e exalou suavemente o último suspiro, no seio da divina Mãe que por certo lhe abriu as portas do céu!

Que este exemplo sirva para aumentar a nossa devoção e amor pela Santíssima Virgem que jamais deixa sem recompensa a menor homenagem a ela prestada por qualquer pecador que seja.

LIÇÃO
Sobre a Conformidade com a Vontade de Deus

Deus nunca permite que sejamos tentados, aflitos e experimentados mais do que podemos: proporciona sempre os auxílios às provações.

Atendei à graça divina que vos fala, correspondei aos seus movimentos; quantas mais cruzes Deus prepara a uma alma, mais copiosos meios lhe dispõe para as suportar.

As cruzes são um dos mais ricos presentes que Deus pode dar à Sua criatura; à aceitação voluntária que delas se faz é o mais agradável sacrifício que a alma pode fazer ao Criador. Se as cruzes que Deus vos tem destinado são grandes, é porque tem a vosso respeito maiores desígnios de santificação. Quereis acaso estorvá-los?

O vosso alvoroço, impaciência e queixas não fazem remover essas cruzes; por mais que façais sempre haveis de padecê-las; qual é pois o partido mais prudente?

É submeter-vos a tudo quanto Deus ordenar. Deveis dizer na tribulação:

Meu Deus faça-se a Vossa divina vontade

E vereis que, comovido pela vossa submissão e fiel às Suas promessas, tornará mais suaves, do que julgais, as cruzes que vos parecem tão pesadas.

Ele as tornará tão leves, que vos obrigará a dizer:

Quanto maior parte temos nos padecimentos de Jesus, maior já temos nas consolações que Ele nos envia

Máxima Espiritual

“Quem se conforma exatamente com a vontade de Deus está contente com tudo o que Lhe possa acontecer”

Jaculatória

Vas spirituale, Vas honorabile, Vas insigne devotionis, ora pro nobis

Vaso espiritual, Vaso digno de honra, Vaso insigne de devoção, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 224-236)