Ecce elongavi fugiens; et mansi in solitudine — “Eis que me alonguei fugindo, e permaneci na soledade” (Sl 54, 8)

Sumário. A fim de nos sugerir o amor à solidão e ao silêncio, quis Jesus nascer fora da cidade e numa gruta solitária. Felizes de nós se, à imitação de José e Maria, nos entretivermos com ele nessa santa solidão. Aí o divino Menino nos falará, não ao ouvido, mas ao coração. Vendo a sua pobreza, ouvindo os seus vagidos, considerando que um Deus se reduziu a tal estado pelo nosso amor, ser-nos-emos atraídos suavemente a ele, e não poderemos deixar de o amar de todo o nosso coração, copiando em nós as suas virtudes.

I. Nascendo Jesus, quis escolher para sua ermida e oratório a gruta de Belém, pelo que dispôs que nascesse fora da cidade, numa solitária espelunca, a fim de nos sugerir o amor à solidão e ao silêncio. Jesus, na sua manjedoura, conserva-se silencioso; silenciosos Maria e José o adoram e contemplam. Foi revelado a Sóror Margarida do Santíssimo Sacramento, chamada a esposa de Jesus Menino, que tudo o que se deu na gruta de Belém, mesmo a visita dos pastores e a adoração dos santos Magos, foi tudo feito em silêncio.

O silêncio das demais crianças provém da sua impotência, mas em Jesus Cristo foi virtude. Jesus Menino não fala, mas quanto nos diz o seu silêncio! Feliz daquele que na santa solidão do presépio se entretém com Jesus, Maria e José! Por pouco que os pastores ali se tenham demorado, voltaram todos abrasados no amor divino, pois que não cessavam de o louvar e bendizer: Reversi sunt laudantes et glorificantes Deum (1). Ó feliz da alma que se encerra na solidão de Belém para contemplar a misericórdia divina e o amor que Deus teve e ainda tem aos homens.

Ducam eam in solitudinem et loquar ad cor eius (2) — “Eu a levarei à solidão e lhe falarei ao coração”

Na sua solidão o divino Menino nos falará, não ao ouvido, mas ao coração, convidando-nos ao amor de um Deus que tanto nos ama. Contemplando ali a pobreza daquele lindo ermitãozinho, que está numa fria espelunca, sem lume, com uma manjedoura por berço e um pouco de palha por colchão; ouvindo os vagidos, e vendo as lágrimas daquele Menino inocente; considerando, enfim, que ele é o nosso Deus, como poderemos pensar em outra coisa que não seja amá-lo? Ah! Que doce ermida é para uma alma de fé a gruta de Belém, na qual o Senhor nos fala e conversa conosco, não como rei, mas como amigo, irmão e esposo! Ó! Que paraíso é o conversar a sós com Jesus Menino na lapinha de Belém!

II. Imitemos Maria e José, que, abrasados em amor, se detêm na contemplação do grande Filho de Deus, feito homem e sujeito às misérias terrestres. Contemplam a sabedoria feita criança sem fala; o grande feito pequenino; o supremo tão humilhado; o rico feito tão pobre, o todo-poderoso feito fraco. Numa palavra, considerando a majestade divina oculta sob a forma de uma criança pequenina, desprezada e abandonada do mundo, fazendo e padecendo tudo para se tornar amável aos homens, roguemos-lhe que nos admita ao seu santo retiro. Paremos ali e nunca mais dali nos afastemos.
Querido Salvador meu, Vós sois o Rei do céu, o Rei dos reis, o Filho de Deus; como estais pois nessa gruta, abandonado por todos? Para Vos assistir não vejo senão José e vossa santa Mãe. Desejo ajuntar-me a eles para Vos fazer companhia. Não me recuseis. Não sou digno disso, mas sinto que me convidais com os vossos doces convites interiores. Sim, a Vós venho, ó amadíssimo Menino; deixo tudo para ficar só convosco, durante toda a minha vida, ó meu querido Solitário, único amor da minha alma.

Que insensato que sou! No passado Vos abandonei e Vos deixei só, meu Jesus, e fui mendigar junto das criaturas prazeres miseráveis e venenosos; mas agora, iluminado pela vossa graça, não desejo senão viver só convosco, que quereis viver solitário nesta terra. Quis dabit mihi pennas sicut columbae? Volabo et requiescam (3) — “Quem me dará asas como da pomba? Voarei e descansarei”.

Ah! Quem me dera poder fugir deste mundo, onde tantas vezes achei a minha ruína; fugir dele e ficar sempre convosco, que sois a alegria do paraíso e amigo verdadeiro da minha alma. Senhor, prendei-me aos vossos pés, a fim de que me não aparte mais de Vós, e goze a felicidade de Vos fazer contínua companhia. Ah! Pelos merecimentos da vossa solidão na gruta de Belém, concedei-me recolhimento contínuo; de tal forma que a minha alma se torne uma cela solitária, na qual a minha única ocupação seja entreter-me convosco, submeter-Vos todas as minhas ações e pensamentos, consagrar-Vos todos os meus afetos, amar-Vos sempre e suspirar sem cessar por sair da prisão do meu corpo, para Vos ir amar sem véu no paraíso. Amo-Vos, ó bondade infinita, e espero amar-Vos sempre, no tempo e na eternidade. Ó Maria, ó vós que podeis tudo, pedi a Jesus me prenda com os laços do seu amor e não permita me suceda perder novamente a sua graça.

Referências:
(1) Lc 2, 20.
(2) Os 2, 14.
(3) Sl 54, 7.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano Eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 416-418)