Oculi eius sine intermissione inspicientes in viis eorum – “Os seus olhos se aplicam sem intermissão a considerar os seus caminhos” (Eclo 17, 16)

Sumário. A boa intenção é tão agradável a Jesus Cristo, que tem o poder de nos introduzir no seu Coração. Feliz aquele que se serve dela para ir habitar nesta morada de amor! Todas as obras exteriores que não procedem do coração e não são acompanhadas de boa intenção, não têm valor algum diante de Deus. Toda a glória de uma alma consiste em ser inteiramente unida pelo Coração de Jesus.

I. A boa intenção é tão agradável a Jesus Cristo, que tem o poder de nos introduzir no seu Coração. Feliz aquele que se serve dela para ir habitar nesta morada de amor! Quando Deus criou os nossos primeiros pais, Adão e Eva, não pôs os olhos sobre as suas mãos, mas sobre os seus corações, diz o Eclesiástico: Posuit oculum suum super corda illorum (1). Porque todas as obras exteriores que não procedem do coração e não são acompanhadas de boa intenção, não têm valor algum diante de Deus. Toda a glória de uma alma consiste em ser inteiramente unida pelo Coração de Jesus.

A nossa intenção nos atos de virtude, pode ser boa de três maneiras. A primeira, quando os fazemos para obter de Deus os bens temporais; esta intenção é boa, contanto que seja acompanhada de resignação à vontade de Deus; mas é pouco perfeita, porque o seu objeto não passa a terra. A segunda, quando os fazemos para satisfazer à justiça divina e diminuir as penas que merecem as nossas faltas, ou para obtermos de Deus os bens espirituais, como as virtudes, os merecimentos, a maior glória no paraíso; esta intenção é muito melhor do que a primeira. A terceira é a mais perfeita: é quando, em nossas ações, só temos em vista o beneplácito de Deus e o cumprimento da sua santa vontade. Esta intenção é também a mais meritória; porque, quanto mais nos esquecemos no bem que fazemos, mais o Senhor se lembrará de nós e nos encherá de graças, como disse um dia a Santa Catarina de Sena:

Minha filha, pensa em mim e eu pensarei em ti.

Estas palavras significam: pensa unicamente em me agradar, e eu cuidarei dos teus progressos na virtude, da tua perfeição e da tua glória no céu. Eis aqui justamente o que dizia a Esposa sagrada:

Eu sou para o meu amado, e o seu coração se volta para mim (2)

II. Pela boa intenção imitamos o amor dos Bem-aventurados, cuja felicidade consiste toda em agradar a Deus, porque eles se regozijam mais da felicidade de Deus que da deles próprios, e assim entram na alegria do seu Senhor (3), como se lê na Escritura. – A nossa intenção nos introduza, pois, no Coração de Jesus; aí é que iremos achar a alegria mais verdadeira que se pode gozar neste mundo. O olhar que fere o Coração do Esposo divino (4) e o inflama de amor, não é senão a intenção de agradar a Deus em tudo o que se faz.

Meu Deus, eu sou a árvore estéril de que fala o Evangelho; desde muito tempo mereço ouvir a sentença pronunciada contra ela: Cortai esta planta, lançai-a no fogo; para que deixa-la ocupar inutilmente o lugar? (5) Desgraçado de mim! Há tantos anos que me favoreceis com graças imensas para me santificar, e até o presente, Senhor, que frutos recebestes de mim? Mas Vós não quereis que eu desespere, que eu cesse de ter confiança no vosso Coração infinitamente misericordioso. Não dissestes: Pedi e recebereis? Pois sim! Como quereis que Vos peça graças, a primeira que solicito é o perdão de todas as minhas faltas; delas me arrependo do fundo da alma, vendo que feri o vosso Coração tão amante e benfazejo, por tantas ofensas e ingratidões. A segunda graça que peço, é o dom do vosso amor; possa eu Vos amar d’ora em diante, não com a frieza que Vos testemunhei no passado, mas de todo o meu coração, evitando dar-Vos o menor desgostos, e fazendo tudo o que Vos for agradável. Vós me quereis todo para Vós, para poderdes me estreitar mais ternamente sobre o vosso Coração: eis-me aqui pronto para Vos pertencer. Ó Coração de meu Jesus, tão cheio de generosidade e ternura, eu sou vosso e espero que sereis a minha recompensa durante toda a eternidade.

– Ó Maria, minha Mãe, uni-me ao Coração de vosso divino Filho, e obtende-me a graça de o amar sempre.

Referências:
(1) Eclo 17, 7
(2) Ct 7, 10
(3) Mt 25, 21
(4) Ct 4, 9
(5) Lc 13, 7

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 465-467)