Esta vida é passageira, loucura ganharmos esta vida sendo que por Deus fomos criados e para Ele devemos retornar

Melior est puer pauper et sapiens rege sene et stulto, qui nescit praevidere in posterum – “Melhor é um moço pobre e sábio, do que um rei velho e insensato, que não sabe prever nada para o futuro” (Ecl 4, 13)

Sumário. Pobres pecadores! Trabalham, afadigam-se para adquirir as ciências humanas ou a arte de granjearem os bens da vida presente, que em breve acaba, e não cuidam dos bens da outra vida, que nunca termina; ou, antes, renunciam a eles por uma satisfação passageira. Não sejamos tão loucos. Lembremo-nos que o Senhor nos pôs neste mundo tão somente para merecermos a vida eterna, e digamos muitas vezes conosco: Para que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a alma? Perdida a alma, tudo está perdido.

I. Pobres pecadores! Trabalham e afadigam-se para adquirirem os bens mundanos ou a arte de granjearem os bens da vida presente, que acabará em breve, e não cuidam dos bens da outra vida, que nunca terá fim. Os infelizes perdem de tal forma a razão, que não só se tornam insensatos, mas brutos. Sim, porque, como diz São João Crisóstomo, ser homem é ser racional, é agir segundo a razão, e não segundo o apetite sensual. Assim como de um animal que agisse conforme a razão, se diria que age como homem, assim se deve dizer que o homem age como animal, quando, contra a razão, se deixa guiar unicamente pelos sentidos. É exatamente o que fazem os pecadores, que não consideram o que é bem nem o que é mal, seguem unicamente o instinto animal dos sentidos, prendendo-se apenas ao que atualmente lisonjeia a carne, sem pensarem no que perdem e na ruína eterna que atraem sobre si.

Oh! Como é mais sábio o simples aldeão que se salva, do que um monarca que se condena! Melhor é um moço pobre e sábio, do que um rei velho e insensato, que nada sabe prever para o futuro. Não se consideraria como louco aquele que, para ganhar presentemente uma pequena quantia, se expusesse ao risco de perder todos os seus haveres? E não deverá ser tido por louco o que, por uma pequena satisfação, perde a alma e se arrisca a perdê-la para sempre? O que faz a desgraça de tantas almas que se condenam, é o ocuparem-se unicamente dos bens e dos males presentes, sem cuidarem nos bens e nos males eternos.

Deus certamente não nos colocou no mundo para alcançarmos riquezas, adquirirmos honras ou contentarmos os nossos sentidos, mas sim para ganharmos a vida eterna. A única coisa importante para nós deve ser a realização deste fim: Porro unum est necessarium (1) — “Só uma coisa é necessária”. Ora, é este fim o que mais desprezam os pecadores. Só pensam no presente, caminham para a morte, estão próximos da eternidade e não sabem para onde caminham. Que diríeis do piloto, pergunta Santo Agostinho, que, perguntado para onde vai, respondesse que o ignora? Toda a gente diria que levaria a embarcação ao naufrágio certo. Tais são os sábios do mundo, que sabem ganhar dinheiro, gozar dos divertimentos, adquirir dignidades, mas não sabem salvar a alma.

O mau rico conheceu a arte de enriquecer, mas morreu e foi sepultado no inferno: Mortuus est, et sepultus est in inferno (2). Alexandre Magno soube conquistar muitos reinos, mas, depois de poucos anos, morreu e se perdeu eternamente. Henrique VIII da Inglaterra sustentou-se habilmente no trono, apesar de sua revolta contra a Igreja; mas no fim, reconhecendo que perdia a alma, fez esta confissão: “Tudo para mim está perdido” — Perdidimus omnia.

II. Ante hominem vita et mors: quod placuerit ei, dabitur illi (3) — “Diante do homem estão a vida e a morte: o que lhe agradar, ser-lhe-á dado”. Meu irmão, neste mundo tens diante de ti a vida e a morte, isto é, a privação dos prazeres proibidos com a vida eterna, ou o gozo desses prazeres com a morte eterna. Que dizes? Qual é a tua escolha? Escolhe como homem e não como bruto. Escolhe como cristão iluminado pela fé e dize: Quid prodest homini, si universum mundum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur? (4) — Para que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois vier a perder a alma? Oh! Quantos desgraçados estão chorando no inferno e dizem: Quid nobis profuit superbia? (5) — “De que proveito foi para nós o orgulho?” Eis que para nós todos os bens do mundo passaram qual sombra e nada mais nos resta senão lamentos e penas eternas.

Ó meu Deus, destes-me a razão, destes-me a luz da fé e, todavia, no passado, comportei-me qual bruto, sacrificando a vossa graça a miseráveis prazeres sensuais, que passaram como o vento, e só me deixaram remorsos de consciência e contas para dar à vossa divina Justiça. Non intres in iudicium cum servo tuo (6) — “Não entres em juízo com o teu servo”. Ah, Senhor, não me julgueis pelo que mereci; mas tratai-me segundo a vossa Misericórdia. Iluminai-me; dai-me dor das ofensas que Vos fiz e perdoai-me.

Erravi sicut ovis, quae periit: Quaere servum tuum (7) — Sou a ovelha tresmalhada; se não me procurardes, continuarei perdida. Pelo Sangue que derramastes por meu amor, tende piedade de mim. Ó meu soberano Bem, pesa-me de Vos ter abandonado e de ter renunciado voluntariamente à vossa graça. Quisera morrer de dor; dignai-Vos aumentar ainda essa dor. Fazei que eu vá ao Céu para cantar as vossas misericórdias. — Ó Maria, minha Mãe, Vós sois o meu refúgio, rogai a Jesus por mim; rogai-Lhe que me perdoe e me dê a santa perseverança.

Referências:

(1) Lc 10, 42
(2) Lc 16, 22
(3) Eclo 15, 18
(4) Mt 16, 26
(5) Sb 5, 8
(6) Sl 142, 2
(7) 118, 176

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 264-267)