“A morte não respeita riqueza, nem poder, nem a púrpura; tanto os súditos como os príncipes serão reduzidos à corrupção e à podridão.” - Teodoreto (Cemitério, pintura de Katherine Tucker)

“A morte não respeita riqueza, nem poder, nem a púrpura; tanto os súditos como os príncipes serão reduzidos à corrupção e à podridão.” – Teodoreto
(Cemitério, pintura de Katherine Tucker)

Cum interierit (homo), non sumet omnia, neque descendet cum eo gloria eius – “Em morrendo, nada levará (o homem) consigo; nem a sua glória descerá com ele” (Sl 48, 17)

Sumário. É certo que a morte não respeita nem riquezas, nem poder, nem a púrpura; e quem morre (ainda que seja príncipe) nada leva consigo para a sepultura; deixa toda a glória no leito em que expira. Como é possível que os cristãos, pensando nisto, se apeguem aos bens da terra e não deixem antes tudo para se consagrarem inteiramente a Jesus Cristo, que os julgará conforme as suas obras? Se no passado fomos tão insensatos, sejamos mais prudentes para o futuro, e tomemos a resolução de sermos sempre fiéis no serviço divino.

I. Quando Filipe II, rei de Espanha, estava próximo da morte, mandou vir o filho, e, abrindo o vestido real, mostrou-lhe o peito roído pelos vermes, e disse:

“Príncipe, vede como se morre e como acabam todas as grandezas deste mundo!”

Com razão disse Teodoreto:

“A morte não respeita riqueza, nem poder, nem a púrpura; tanto os súditos como os príncipes serão reduzidos à corrupção e à podridão.”

— Quem morre, ainda que seja rei, nada levará consigo ao túmulo; deixará toda a glória no leito em que expira. Em morrendo, nada levará (o homem) consigo; nem a sua glória descerá com ele. Ó Deus! Como é possível que, pensando nisto, um cristão que crê nas verdades da fé, não deixe tudo para se consagrar inteiramente a Jesus Cristo, que nos julgará segundo as nossas obras?

Refere Santo Antonino que, depois da morte de Alexandre Magno, certo filósofo exclamou:

“Eis ai: o que ontem dominava a terra é hoje por ela oprimido. Aquele cuja ambição ontem nem toda a terra bastava, contenta-se hoje com o espaço de sete palmos. Ontem corria a terra à testa dos seus exércitos; hoje, meia dúzia de homens o depositam nela.”

— Mas escutemos antes o que Deus nos diz: Quid superbit, terra et cinis? (1). Ó homem, não vês que és terra e cinza? De que te ensoberbeces pois? Porque só pensas e consomes o tempo com o fim de te elevares no mundo? Virá a morte e então se dissiparão todas as tuas grandezas e todos os teus projetos: In illa die peribunt cogitationes eorum (2) — “Naquele dia perecerão todos os seus pensamentos”.

Quanto mais doce não foi a morte de São Paulo Ermita, que viveu 60 anos retirado numa gruta, do que a de Nero, que em vida foi imperador de Roma! Quanto mais feliz não foi a morte de São Felix, simples frade capuchinho, do que a de Henrique VIII, que passou a vida nas pompas do trono, mas na inimizade de Deus!

II. Devemos refletir que os santos, para obterem uma boa morte, abandonaram tudo: a pátria, as delicias e as esperanças que o mundo lhes oferecia e abraçaram uma vida pobre e desprezada. Sepultaram-se vivos neste mundo, para não serem sepultados depois da morte no inferno. Mas como é que os mundanos podem esperar uma morte feliz, se vivem sempre nos pecados, nos prazeres terrestres e nas ocasiões perigosas? Deus previne os pecadores que na morte o procurarão e não o acharão: Quaeretis me, et non invenietis (3).

Ah Senhor, quantas noites tive a infelicidade de dormir na vossa desgraça! Ó Deus, em que estado miserável se achava então a minha alma! Ela era odiada de Vós e comprazia-se nesse ódio. Eu já estava condenado ao inferno; só faltava que se executasse a sentença. Mas Vós, meu Deus, não deixastes de andar a procurar-me e de me convidar à reconciliação. Quem me afiançará que já me haveis perdoado? Meu Jesus, deverei viver neste receio até que venhais julgar-me? A dor que sinto de Vos ter ofendido, o desejo que tenho de Vos amar e, mais ainda, a vossa Paixão, ó meu amado Redentor, dão-me a confiança de que estou na vossa graça.

Pesa-me de Vos haver ofendido, ó meu soberano Bem, e amo-Vos sobre todas as coisas. Estou resolvido a antes perder tudo do que perder a vossa graça e o vosso amor. Quereis que se alegre o coração que Vos procura. Laetetur cor quaerentium Dominum (4) — “Alegre-se o coração dos que procuram o Senhor”. Detesto as injúrias que Vos fiz; dai-me coragem e confiança; não me lanceis mais em rosto a minha ingratidão, já que a reconheço e detesto. — Dissestes que não quereis a morte do pecador, senão que se converta e viva: Nolo mortem impii, sed ut convertatur et vivat (5). Pois bem, meu Deus, renuncio a tudo e me converto a Vós; é a Vós que procuro, a quem quero e a quem amo sobre todas as coisas. Dai-me o vosso amor e nada mais Vos peço. — Ó Maria, vós sois minha esperança; alcançai-me a santa perseverança.

Referências:

(1) Eclo 10, 9
(2) Sl 145, 4
(3) Jo 7, 34
(4) 1 Cr 16, 10
(5) Ez 33, 11

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 245-248)