6ª Carta Circular de Santo Afonso: Pobreza... Observância Regular (Outubro, 1757)

Aos Padres da Congregação

Nota: Naquele tempo havia dúvidas e questões a respeito do voto de pobreza. O Santo, nesta Circular aos Padres, procura esclarecer alguns pontos, mormente sobre o uso das restituições incertas.

Nocera, 3 de outubro de 1757.

Vivam Jesus, Maria, José e Teresa!

Irmãos diletíssimos em Jesus Cristo.

Para o bem da observância comum, julguei necessário chamar a vossa atenção para o seguinte:

Em primeiro lugar, tendo sido considerado seriamente por mim e pelos Consultores, na consulta do mês passado, o seguinte: se seria contra a pobreza receber de penitentes restituições, para empregá-las em obras pias ao arbítrio do confessor, foi resolvido tanto pela autoridade dos Doutores como pela razão, que isso ofende sem dúvida o voto de pobreza.

Quanto aos Doutores, temos Lohner, que na sua Bibl. man., tom. 3, tit. 112 Paupertas, §11 in fin., diz assim: Quintum dubium est, an liceat ab alio pecuniam accipere vel simile quid, quod in pauperes distribuatur. — Resp.: Si ita accipiat, ut liberum ei sit his vel illis dare, tum omnino contra votum facturum, si accipiat sine facultate (Superioris); cum neque proprietas, neque usus illius rei independens a Superiore, cuiquam, paupertatis voto obstricto, conveniat. — De igual modo, o Pe. Rodrigues: Perfeição relig. part. 3, tr. 3, cap. 15, vers. Mas já que… onde diz:

«Não somente é contra o voto de pobreza tornar-se dono da coisa, mas ainda ter o uso e administração da mesma, sem dependência do Superior»

Azorio diz igualmente (part. I, liv. 12, cap. 9, vers. Hoc posito) que isso é admitido por todos: Certi item juris est (são palavras suas) non posse religiosum secundi generis peculium habere — isto é, com o uso livre de dispor a seu arbítrio — nam etiam voto paupertatis repugnat usus vel administratio, in qua abbas nutu suo monachum amovere non possit; religiosus enim nihil proprium habere potest, sed usus vel administratio, quam quis pro libito habet, nullius alterius voluntati subjectum, est allquid proprium. Diz Azorio que por isso o Concilio Tridentino (sess. 25, cap. 2) ordenou que o uso de coisas móveis, tratando-se de Religiosos, dissesse respeito ad solos officiales, ad nutum Superiorum.

A razão, enfim, é clara; ei-la brevemente: todo o uso de alguma coisa é propriedade que ofende o voto, quando aquele que é ligado pelo voto de pobreza o faz independente da vontade do Superior.

Isto posto, também eu, tanto para me livrar do escrúpulo do juramento de não permitir nenhum uso próprio independente etc., como para prevenir a muitos inconvenientes, julguei bem (como o julgaram também os Consultores) ordenar, como pela presente ordeno a cada um, que todas as restituições incertas recebidas por nossos confessores, estando esses em casa, se levem ao Reitor da casa onde o súdito se encontra; achando-se, porém, em missão, sejam entregues ao Superior da missão, que delas poderá servir-se com prudência, se houver necessidade, para as despesas da missão ou para alguma esmola urgente. Se isso não ocorrer, tais restituições serão entregues ao Reitor da casa de onde veio o súdito.

A fim de se evitar toda lesão ou interpretação desta minha ordem, proíbo expressamente aos confessores insinuar aos penitentes a intenção de destinar a restituição a esta ou àquela obra, porque isso seria frustrar abertamente esta minha ordem.

Lamento, aliás, que as minhas ordens de obediência sejam não raro interpretadas, evitando-se, depois, de comunicar-me o acontecimento. Muitas coisas tenho eu de repetir para me ver obedecido. Vejo-me obedecido apenas em coisas, em que exijo obediência expressa. Mas onde está a delicadeza da obediência que Jesus Cristo deseja de vós, meus Irmãos? Especialmente quando se age contra a mente do Superior, não sei como possa escusar-se. Temo, por isso, algum grande castigo de Deus. E são apenas vinte e quatro anos que a Congregação foi fundada! Que será daqui há cem anos ?

A respeito das cartas torno a recomendar que não se recebam, se o Irmão não as levou primeiramente ao Reitor, para que ao menos veja se são coisas de consciência; senão, digo aos Superiores quem sem exceção, abram as cartas e lhes passem os olhos, antes de entregá-las aos súditos.

Recomendo calorosamente não se vá a casas de seculares, sem licença dos Superiores, a não ser que haja causa urgente, e não se tenha tempo de pedir a licença. Recomendo, especialmente, que não se vá a conventos de religiosas, sem licença do Reitor.

Recomendo não falem com pessoas de fora sobre coisas da Congregação e da casa. Que miséria ver que os de fora sabem melhor do que os nossos as nossas coisas!

Recomendo de novo que, se for preciso mandar algum súdito pernoitar fora de casa (mormente se for por mais dias) avisem-me previamente, quando houver tempo de fazê-lo.

Recomendo a obediência que se deve aos Superiores locais e aos das missões como se fosse à minha pessoa. A respeito, tenho ouvido várias queixas. O Capítulo resolveu que o ponto — se nas despesas de mais de dez escudos os Consultores teriam voto decisivo — se faça como praticavam os Padres Pios Operários. Pediu-se informação, e soube-se que assim é. Envio este aviso a todos os Reitores.

Recomendo não me mandem, sem prévio aviso, moços que querem ser recebidos. Recomendo se execute a ordem do Capitulo de se introduzir em todas as casas o livro de receita e despesa, inclusive das esmolas. Além disso, em cada casa se ponha na sacristia, como manda o Papa, a tabela das missas de obrigação. Recomendo, outrossim, não se digam as missas com demasiada pressa: isso em nós causa mais escândalo aos outros.

Quanto às missões, recomendo:

O retiro de um dia dentro do espaço de um mês mais ou menos;

Não procurar comidas particulares e, podendo ter-se uma boa sopa (minestra) e cozidos (bollito), não se exija outra coisa: esta regra é de muita edificação, e, se começa a relaxar-se, dentro em breve estará tudo acabado;

Com os estranhos não usar de confiança nem ter conversas inúteis: toda a cortesia, mas também toda a seriedade;

Recomendo a modéstia dos olhos nas missões: ela é mais necessária do que as pregações;

Em todas as missões faça-se o Capítulo das culpas;

Guardem-se de dizer graçolas diante dos estranhos. O Superior das missões marcará um zelador (ispettore) que tome nota das faltas e me avise;

Nas missões haja sempre um prefeito da igreja, e outro das pazes, e este poderia cuidar também dos esposos que deram a palavra de casar-se logo;

Recomendo aos pregadores que façam (com o povo) os atos da manhã, e isso antes da prática; o pregador recomende e peça ao povo (al paese) que se toque o sino, quando alguém está agonizando para morrer: dê-se tal sinal com o sino, isto é, um sinal diferente dos outros para que todos, percebendo que alguém está na agonia, o recomende a Deus com um Pater e Ave, etc. Isto faz bem aos enfermos e aos sãos.

Abraço a todos em Jesus Cristo.
Vivam Jesus, Maria, José e Teresa!

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(LIGÓRIO. Santo Afonso de. Cartas Circulares. Oficinas Gráficas Santuário de Aparecida, 1964, p. 39-45)