Na linda natureza de Deus
Ontem, no descascar batatas, Carlito cortou o dedo. Júlio, o enfermeiro, logo acorreu e aplicou um penso. O talho não fora profundo, mas Júlio teve a satisfação de poder utilizar seu ambulatório para fim um pouco mais sério do que as poucas gotas de amoníaco aplicadas ultimamente contra a ferroada da abelha, o que realmente não era serviço de monta…

O Chiquinho, porém, correu direitinho ao mestre.

“Senhor professor, por obséquio! Carlos se cortou, e está sangrando horrivelmente!…”

Como é natural, o professor apressou-se e de pronto surgiu na cozinha, onde a metade do acampamento, alarmado pelo Chiquinho, estava reunida: Felizmente não havia razão para sustos. O sangue já estancara.

“Quase se esvaiu em sangue”, disse o Celsinho assustado.

A que o Silva replicou:

“Tão depressa a gente não morre. Carlos está pálido, mas é por causa do susto e não da hemorragia. Ora, pode-se perder mais ou menos meio litro de sangue sem sentir”.

“E, no entanto, disse o professor, ele é a parte mais preciosa do nosso corpo. É ele que edifica o corpo que cresce, renova o já desenvolvido, fornece calor e energia. Olá, ó Silva, explique aos companheiros em que consiste o sangue.”

“Compõe-se de duas partes: de um líquido incolor, o soro, e de partículas coloridas, os glóbulos vermelhos que flutuam no soro. Os glóbulos são minúsculos; seu diâmetro é de O,OO7 de milímetro. Por isso se compreende que um milímetro cúbico de sangue de um homem com saúde encerre cerca de 5 bilhões deles, portanto, no corpo todo — digamos 5 litros — uns 25 trilhões.”

“Bravo! Não é sem razão que você quer ser médico; há, pois, 25 trilhões de glóbulos vermelhos no homem. Um número fabuloso, principalmente se considerarmos que não circulam desordenadamente. O organismo inteiro necessita de sangue; este há de, assim, alcançar todos os pontos. Para este efeito existe uma intrincada e bem ramificada rede de artérias, constituída de canais muito elásticos e flexíveis. A rede de abastecimento de água das grandes metrópoles, com suas bombas, reservatórios e condutos é em comparação, desta, brinquedo de crianças. Talvez não saibam quanto se pensa, trabalha, melhora na central, para impedir que haja paralisação no serviço. A circulação do sangue tem também sua estação central: o coração.

O coração é uma poderosa bomba aspirante e premente, como nenhum engenheiro seria capaz de construir. É’ um músculo do tamanho apenas de um punhado cerrado, que provê de sangue todo o organismo. É um trabalho que nos maravilha! 70 pulsações por minuto, dia e noite, sem interrupção! Enquanto cada parte do corpo tem seu descanso, enquanto a vista, o ouvido, a mão, o cérebro gozam de repouso noturno, o coração não pode folgar, nem por um momento. Esse pequeno músculo realiza um trabalho de 87OOO quilogramas. Que significa isso?”

“Uma força capaz de levantar 87OOO kg a um metro de altura, isto é, encher quase nove vagões ferroviários. Um vagão abrange o volume de 1OOOO kg e sua porta está acerca de um metro acima do solo.”

“Um cavalo de carroça não precisa trabalhar mais do que isso”, observou Jorge.

“E notem que esse pobre coraçãozinho realiza a pesada tarefa durante 6O, 7O, 😯 anos, sempre, sempre, sem cessar. Não é de admirar que entrementes se gaste, mas ele conserta as partes afetadas, sem para isso interromper seu trabalho por um momento sequer. Quantas vezes o trânsito é interrompido nas ruas, quando o calçamento precisa ser reparado. Também o coração se gasta e deve ser reparado, mas a circulação não pode suspender-se. Quer comamos, durmamos, andemos ou estejamos sentados, corramos ou nademos, pensemos nisso ou não, nosso fiel operário, nosso coração, pulsa sempre no mesmo ritmo. Três vezes por minuto, todo o sangue é conduzido através do corpo. Qual a finalidade dessa circulação contínua do sangue, creio que todos saberão”.

“Sim, sim! Nas artérias corre o sangue vermelho, puro, saturado de oxigênio, por todo o corpo, até às extremidades mais distantes. Nessa corrida os glóbulos vermelhos cedem oxigênio aos ossos, tecidos, pele, nervos, glândulas e daí eliminam os produtos da combustão: água e o deletério gás carbônico, carregando-os consigo. A corrente sanguínea leva também a todos os lugares as matérias necessárias à renovação do corpo; ele se gasta, um novo se constrói, e nada disso percebemos.”

“E agora, que sabem das veias?”

“Os glóbulos vermelhos recebem os produtos venenosos e voltam ao coração pelas veias.”

“Bem. Mas então? Se o coração distribuir de novo esse sangue deteriorado, dar-se-á uma intoxicação por gás carbônico. Mas isso, já foi previsto e impedido. O sangue venoso penetra num filtro maravilhoso: os rins. Lá é purificado. Como é interessante o processo! O que é nocivo, venenoso, passa através dos rins, mas nenhum glóbulo útil pode passar. Realmente… os microscópicos glóbulos, que penetram no mais tênue vaso capilar, ficam presos nos rins. Do mesmo modo a albumina, o açúcar, numa palavra, tudo o que é proveitoso ao organismo. Como foi grande o júbilo, quando a invenção do filtro das ondas de rádio permitiu pegar exatamente a onda desejada! De fato, foi uma invenção notável. E que é isso, comparado com os rins? Eles deixam passar a água, de maior volume, e não os pequeninos glóbulos vermelhos!

Sem embargo, com esse processo não está ainda terminada a purificação do sangue. Uma parte das matérias trazidas do corpo é depositada no fígado, que elabora com elas a bílis, tão necessária à digestão. Só então o sangue penetra no ventrículo direito. Dali é premido para o pulmão onde é definitivamente limpo e refrescado.

O próprio pulmão é outro prodígio. Compõe-se de uns 18OO milhões de bolhas do tamanho de e meio milímetro. Se entendêssemos as paredes dessas bolhas, adivinhem que superfície teríamos? 2OO m²!”

“Duzentos m² para que tamanha superfície?”

“A cada pulsação derramam-se 18O gramas de sangue sobre ela. Como o coração tem 7O pulsações por minuto, essa quantidade permanece apenas 1/7O de minuto no pulmão, e este nem bem um segundo de tempo deve bastar para que o sangue elimine o gás carbônico, e os glóbulos vermelhos recebam o oxigênio. O sangue assim purificado penetra no ventrículo esquerdo, donde recomeça a circulação vivificante. Agora já não é sangue ruim, mas puro, gerador de vida. Assim se passa, dia e noite, minuto por minuto, com a máxima exatidão e pontualidade, e nada disso percebemos. Quem movimenta esse inquieto pedacinho de carne? Aí justamente sentimos quando dependemos de Deus? Basta que o coração pare um minuto e a vida terminou…

Pensando-o, compreendemos aquilo de Schiller: ‘Se quiseres, Senhor nosso coração se paralisa; cai a plumagem da água, mais nenhuma folha é derrubada pelo vento, para torrente; cessa o ruído do mar revolto, detêm-se os astros; nem um verme mais se enrola…'”

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(TOTH, Monsenhor Tihamer. Na linda natureza de Deus. Editora S. C. J., 1945, p. 101-105)