Meditação para o 7º Domingo depois do Pentecostes. As Boas Obras

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 7, 15-

Naquele tempo disse Jesus a seus discípulos: «Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. 16Pelos seus frutos, os conhecereis. Porventura podem colher-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? 17Toda a árvore boa dá bons frutos e toda a árvore má dá maus frutos. 18A árvore boa não pode dar maus frutos nem a árvore má, dar bons frutos. 19Toda a árvore que não dá bons frutos é cortada e lançada ao fogo. 20Pelos frutos, pois, os conhecereis.»

21«Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu.

Meditação para o Sétimo Domingo depois de Pentecostes

SUMARIO

Ouviremos Jesus Cristo revelando-nos no Evangelho:

1.° A necessidade das boas obras sob o símbolo da árvore, que dá bons frutos;

2.º Os caracteres que devem ter essas boas obras para que nos salvem.

— Tomaremos a resolução:

1.º De aproveitar com alegria todas as ocasiões de fazer boas obras, que se apresentarem durante o dia, até obsequiar o próximo nas pequenas como nas grandes coisas; tratar e receber com agrado os pobres, os desgraçados, os criados;

2.° Do cumprir com cuidado todos os deveres do nosso estado, que são as primeiras boas obras, a que devemos entregar-nos.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Evangelho:

“Toda a árvore boa dá bons frutos” – Omnis arbor bona fructus bonos facit (Mt 7, 17)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo revelando-nos no Evangelho deste dia uma das verdades mais importantes para a salvação, a saber, que só podemos ser salvos com a condição de santificar o nosso trânsito na terra com boas obras (1). Demos-Lhe graças por tão preciosa lição, e roguemos-Lhe, que se digne fazer que nos aproveitemos bem dela.

PRIMEIRO PONTO

Necessidade das Boas Obras para a Salvação

Cada um de nós é como uma árvore plantada pela mão de Deus no campo da Igreja, como em uma terra abençoada, cultivada com esmero, regada com profusão. Se nem essa esmerada cultura, e esse orvalho do céu tão fecundante não nos fazem dar bons frutos, incorremos no anátema proferido pelo Apóstolo: A terra que embebe a chuva, que cai muitas vezes sobre ela, e não dá bons frutos é reprovada e está perto de maldição (2); maldição que não é mais do que a repetição, da palavra do nosso Evangelho:

“Toda a árvore que não dá bom fruto será cortada e metida no fogo” (Mt 7, 19)

E as razões desta sentença são numerosas, porque:

1.º Quem despreza as boas obras, não ama a Deus. O amor é uma inclinação que impele o coração para o seu objeto, e o induz a obrar por ele (3). Se nada faço para Deus, é uma prova de que O não amo; se faço pouco, é uma prova de que O amo pouco.

2.° Quem despreza as boas obras, não ama o próximo: quando o amamos, socorremo-lo com as obras de misericórdia.

3.° Quem despreza as boas obras não ama a si mesmo, pois que todo entregue a este mundo tão transitório, onde se vive tão pouco tempo, não cuida em alcançar a vida eterna. Entra no número dos servos ociosos, de que está escrito, que serão lançados nas trevas exteriores, em vez de ser do número desses justos, a que um Padre chama os ricos da eternidade (4), porque com as boas obras mandam adiante de si para o céu tesouros de merecimentos.

Examinemos aqui a nossa consciência, e ouçamos as suas exprobrações.

SEGUNDO PONTO

Caracteres, que devem ter as Boas Obras para que nos Salvem

1.º Convém que sejam inteiramente boas: porque, se são defeituosas por um só lado, quer em razão do tempo ou do lugar em que se fazem, quer em razão do modo como se fazem, quer em razão da intenção com que se fazem, basta isso para lhes tirar o seu preço ou lhes diminuir o mérito. Deus ama a ordem e a exige em todas as coisas; não Lhe agrada o que dela se afasta. Examinemos se as nossas boas obras tem este primeiro caractere, ou se apesar do grande número de obras, que temos feito, não estamos ainda muito pobres.

2.° Convém que sejam feitas segundo a vontade de Deus:

«Só entrará no reino dos céus, diz Jesus Cristo no Evangelho deste dia, o que fizer a vontade de meu Pai celestial»

Por conseguinte tudo o que nos afasta dos deveres de nosso estado, tudo o que inspira o capricho ou algum intuito humano, não pode ser incluído no número das boas obras. Só são obras verdadeiramente boas as que Deus prescreve, ou aconselha, ou permite, que se façam.

3.º Não basta entregarmo-nos às boas obras, quando o gosto a isso nos impele: é preciso continuá-las, ainda que nos causem desgosto. É preciso ser-lhes fiel até à morte (5).

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Omnis arbor quae non facit fructum bonum excidetur et in ignem mittetur (Mt 7, 19)

(2) Terra saepe… bibens imbrem… proferens autem spinas ac tribulos, reproba est et maledicto proxima (Hb 6, 8)

(3) Probatio amoris, exhibitio operis (São Gregório Magno)

(4) Divites aeternitatis

(5) Esto fidelis usque ad mortem (Ap 2, 10)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 277-280)