Lição 1: Traços biográficos de São Paulo

Paulo (ou Saulo) nasceu em Tarso na Cilícia (Ásia Menor) no limiar da era cristã, pois, quando escrevia a Filemon em 62, dizia ser ancião (cf. Fm 9; At 21,39; 22,3; Fl 3,5). Nasceu de família israelita, muito fiel às tradições religiosas; seu pai comprara a cidadania romana, de modo que Saulo nasceu como cidadão romano. Em conseqüência Paulo era, desde as suas origens, herdeiro de três culturas: a hebraica, essencialmente religiosa; a helenista, filosófica e artística, e a romana, de índole jurídica.

Aos quinze anos de idade, foi enviado para Jerusalém, onde se sentou aos pés do rabino Gamaliel (cf. At 22,3; 26,4; 5,34): foi então iniciado na arte rabínica de interpretar a Sagrada Escritura, como também deve ter aprendido uma profissão manual: a de curtidor de couro ou seleiro, profissão que o Apóstolo havia de exercer a vida inteira.

Cerca de vinte anos depois ou em 36 aproximadamente, Paulo era ardoroso perseguidor dos cristãos, julgando assim servir a Deus. Na estrada de Jerusalém para Damasco, onde pretendia prender cristãos, foi prostrado pelo Senhor, que lhe perguntou:

“Por que me persegues?”

Era Jesus que assim lhe falava e o enviava à casa de Ananias em Damasco, onde seria batizado; cf. At 9,1-18; 22,4-21; 26,11-18; Gl 1,13-16.

Feito cristão, Paulo quis iniciar em Damasco mesmo a pregação do Evangelho, mas não foi aceito pelos ouvintes. Retirou-se então para um lugar chamado Arábia, talvez não muito longe de Damasco, onde permaneceu três anos; a nova personalidade de Paulo foi amadurecendo sob o influxo da graça de Cristo, que lhe revelou a doutrina cristã. Após três anos, regressou a Damasco, onde mais uma vez quis tentar a pregação do Evangelho; mas os judeus tramaram a sua morte, obrigando-o a fugir dentro de uma cesta por uma janela que se abria na muralha da cidade para fora. Cf. At 9,19-25; Gl 1,17.

Era o ano de 39, quando Paulo em Jerusalém se avistou com Pedro e Tiago durante quinze dias; cf. Gl 1,18s. Também tentou pregar o Evangelho aos judeus, mas não encontrou acolhida. Para escapar novamente da morte, o Apóstolo teve que deixar a Cidade Santa e retornou à sua cidade natal, bastante acabrunhado pelos fracassos de sua missão apostólica; cf. At 9,26-30.

Em Tarso deve ter permanecido quatro ou cinco anos, até 43. A esta altura, algo de importante se deu na vida de Paulo: Antioquia da Síria tornara-se importante centro missionário, onde trabalhava Barnabé, primo de Paulo. Ora Barnabé, consciente da capacidade apostólica de seu parente, resolveu ir buscá- lo em Tarso para que colaborasse na missão em Antioquia; cf. At 11,25s. Esta nova tentativa foi bem sucedida, tanto que no ano seguinte, em 44, Barnabé e Paulo foram enviados pelos cristãos de Antioquia, para levar os frutos de uma coleta feita em favor dos pobres de Jerusalém; cf. At 11,27-30;12,25. De regresso a Antioquia, Barnabé e Paulo continuaram o seu ministério, até que em 45, por designação do Espírito Santo, foram indicados, juntamente com João Marcos, para o apostolado em terras distantes; cf. At 13,1-3.

Paulo fez assim a sua primeira viagem missionária, que durou cerca de três anos (45-48), percorrendo a ilha de Chipre e parte da Ásia Menor (cf. At 13,1-14,28): muitos gentios abraçaram o Evangelho, constituindo comunidades cristãs esparsas pelo Sul da Ásia Menor. Eis, porém, que, em conseqüência, se levantava sério problema para Paulo: os judaizantes (judeus convertidos ao Cristianismo, mas adeptos das observâncias judaicas) queriam que os pagãos não fossem batizados sem abraçar antes a Lei de Moisés (como eles mesmos a tinham abraçado). Ora Paulo havia pregado o Evangelho e batizado sem mencionar a Lei de Moisés e a circuncisão. O Apóstolo compreendia bem que a Lei era como uma preparação provisória para o Evangelho; ela significava a vinda do Messias; por conseguinte, perdera seu papel logo que chegara o Cristo. Não haveria sentido, pois, em dar o batismo e impor a circuncisão simultaneamente. Paulo assim aparecia como o arauto da liberdade cristã frente às observâncias judaicas; todavia muitos judaizantes o viam como libertino ou traidor.

O problema assim colocado tornou-se agudo logo após a primeira viagem missionária de Paulo. Em vista disto, a igreja-mãe de Jerusalém resolveu chamar Paulo e Barnabé àquela cidade; reuniram-se com Pedro, Tiago e seus imediatos colaboradores constituindo o chamado “Concilio de Jerusalém” (49). Após os debates oportunos, os Apóstolos reconheceram a liberdade dos cristãos em relação às observâncias judaicas. Apenas pediram às comunidades da Cilícia e da Síria que respeitassem quatro cláusulas destinadas a preservar a paz nas regiões em que havia grande número de judeo-cristãos. Tais são as “cláusulas de Tiago”:

1) abster-se de idolotitos ou carnes imoladas aos ídolos nos templos pagãos, pois aos fiéis de consciência fraca pareciam contaminadas pelo demônio (o que não acontecia);

2) abster-se de carne portadora de sangue;

3) abster-se de tomar sangue, pois os judeus julgavam que o sangue é a própria vida, que só a Deus pertence (cf. Gn 9,4); 4) não ceder às paixões impuras. Cf. At 15,1-35.

O Concilio de Jerusalém esclareceu as mentes, mas não conseguiu deter os judaizantes, que continuaram a hostilizar São Paulo.

Pouco depois do Concilio, Pedro e Paulo se achavam em Antioquia. Pedro comia de todos os alimentos, sem observar a distinção judaica de alimentos puros e impuros. Quando, porém, chegaram alguns judaizantes, Pedro começou a proceder como se fosse ele mesmo judaizante. Paulo, vendo isto, opôs-se a Pedro, pois o exemplo deste podia arrastar multidões para o erro. Este é o “incidente de Antioquia”; cf. Gl 2,11-14. O episódio mostra a autoridade de Pedro; o seu exemplo era tomado como norma.

Seguiu-se a segunda viagem missionária (50-53), durante a qual Paulo em Corinto escreveu 1/2 Ts. Cf. At 15,36-18,22.

A terceira viagem missionária (53-58) sucedeu-se logo; cf. At 18,23¬21,17. Deu ocasião a mais quatro cartas de São Paulo, chamadas “as grandes epístolas”: Gl e 1Cor em Éfeso; 2Cor em Filipos; Rm em Corinto.

O êxito dessas viagens provocou os judaizantes de Jerusalém. Conseguiram mandar prender Paulo, que regressara recentemente da terceira expedição apostólica. O tribuno romano Cláudio Lísias, perplexo como estava (pois não entendia o problema religioso em foco), resolveu mandar Paulo para Cesaréia, onde residia o procurador romano Félix. O apóstolo passou dois anos (58-60) nesta cidade, aguardando julgamento; vendo que o caso não se resolveria em breve, Paulo apelou para o tribunal de César em Roma. Tinha direito a isto, pois era cidadão romano.

O embarque para Roma deu-se no começo de outubro de 60, quando se aproximava o inverno. Lucas, companheiro de Paulo a bordo, deixou-nos impressionante relato dessa viagem infeliz; cf. At 27,1-28,15. O navio naufragou junto à ilha de Malta, onde Paulo, Lucas e Aristarco passaram o inverno. Finalmente prosseguiram para Puteoli perto de Nápoles, donde chegaram a Roma (61). Paulo ficou nesta cidade em prisão domiciliar até 63. São Lucas não nos diz qual o desfecho do processo, mas é de crer que tenha terminado com a libertação de Paulo; cf. At 28, 16-31. Durante esses dois anos Paulo manteve intercâmbio com os fiéis do Oriente, resultando daí as quatro cartas do cativeiro: Fm, Cl, Ef, Fl.

O resto da vida de São Paulo é-nos incerto. É de crer que tenha passado de Roma para a Espanha, aonde desejava ir para atingir “os confins do mundo” (Rm 15,24). Da Espanha terá voltado para o Oriente, onde se julga que escreveu mais duas cartas (ditas “pastorais”): 1Tm e Tt, entre 64 e 66. Finalmente foi preso em 66 e levado para Roma; este segundo cativeiro romano foi mais penoso do que o primeiro, pois Paulo estava em prisão comum, como malfeitor (desde 64, o nome de cristão era ilícito); somente Lucas o acompanhava, como se depreende da 2Tm 4,11, testamento do Apóstolo, escrito naquele cárcere como terceira carta pastoral. É de crer que a condenação à morte tenha sido proferida e executada em 67.

Assim terminou a sua missão um dos maiores vultos do Cristianismo. Ao Apóstolo tocou o papel de proclamar e defender a liberdade dos cristãos frente à Lei de Moisés. Se Paulo não o tivesse feito, o Cristianismo se teria tornado uma seita judaica e teria perecido como outras seitas judaicas do início da era cristã. Em prol dessa causa Paulo padeceu horrivelmente durante toda a sua carreira apostólica; uma imagem desses sofrimentos encontra-se no catálogo das dores do Apóstolo em 2Cor 11,23-29.

Este trecho mostra a têmpera enérgica e a fibra entusiástica do Apóstolo, que, além do mais, devia sofrer de moléstia crônica, com acessos dolorosos e imprevisíveis, como se depreende de 2Cor 12,7-10… Não se pode explicar o que tenha sido o aguilhão da carne de Paulo (doença dos olhos, conforme Gl 4,12-15, a resistência dos israelitas, irmãos de Paulo segundo a carne?, a fé cristã, conforme Rm 9,1-3?).

O Apóstolo deixou-nos treze cartas, como se pode perceber. A epístola aos Hebreus é agregada ao epistolário paulino, mas certamente não é da autoria de Paulo, sem deixar de ser canônica. Alguns críticos modernos discutem também a autoria paulina de 1Ts, Ef, 1/2 Tm e Tt; o assunto será estudado na introdução a cada uma destas cartas.

Lição 2: A Redação das Cartas

Sabemos que a tarefa de escrever, na antiguidade, era difícil e lenta, pois se usava papiro ou pergaminho, a que se aplicavam estiletes de plantas ou penas de ganso.

Paulo não escrevia diretamente, mas recorria a escribas peritos (Tércio, em Rm 16,22, Silvano, Timóteo…; cf. 1Ts 1,1; Gl 6,11; 1 Cor 16,21; Cl 4,18), a quem o Apóstolo ditava. Fazia-o não durante o dia, pois então pregava e trabalhava com as mãos, mas em serões noturnos, que não podiam durar mais de 2/3 horas: a luz era fraca e amarelada, de azeite; as posições, sobre o chão ou almofadas, muito incomodas. Em tais circunstâncias o rendimento do trabalho era exíguo: 3 sílabas por minuto, 72 palavras por hora.

Na base destes dados, julga-se que a carta aos Romanos, que tem 16 capítulos e 1.701 palavras, deve ter exigido mais de 98 horas de escrita e 50 folhas de papiro hierático; isto equivale a 32 dias com 3 horas de trabalho ou a 49 dias com 2 horas de trabalho; facilmente, porém, poderíamos admitir que a redação de Rm se tenha protraído por dois meses ou mais, se levássemos em conta as depressões de saúde e os imprevistos que perturbavam a vida do Apóstolo. A 1Ts, com 1.472 palavras, pode ter exigido 20 horas de escrita; a 1Cor, com 6.820 palavras, 94 horas; a 2Cor, com seus 13 capítulos, 62 horas; Galatas, com 2.200 vocábulos, 22 horas; Colossenses, com 4 capítulos, 21 horas; 2Ts, com 3 capítulos, 11 horas; 1Tm, com 6 capítulos, 22 horas; a 2Tm, com 1.329 vocábulos, 17 horas; Tt com seus 3 capítulos, 9 horas; Filemon com 335 palavras, 5 horas ou 2/3 serões.

Estes números não são aceitos por todos os estudiosos. Julgam que o temperamento enérgico do Apóstolo não se concilia com tal morosidade na redação de mensagens que, muitas vezes, eram urgentes.

Em qualquer hipótese é claro que as cartas de São Paulo foram redigidas por etapas, com repetidas interrupções do fio das idéias. Estas concorrem para explicar a falta de conexão entre certas passagens, a transição brusca de um tema para outro, as repetições, os truncamentos de textos, as mudanças repentinas de estilo e sintaxe do epistolário paulino.

Lição 3: O estilo de Paulo

O Apóstolo mesmo reconhecia que não fazia caso da sabedoria da linguagem (1Cor 1,17). Interessavam-lhe acima de tudo o conteúdo dos vocábulos e a doutrina a ser transmitida. Ora, esta, São Paulo a possuía em profusão:

“Ainda que seja imperito no falar, não o sou na ciência de Cristo. Nós sempre o manifestamos diante de vós em todos os pontos” (2Cor 11,6).

Paulo vibrava com todas as fibras do seu ser ao tratar do Evangelho. Em conseqüência, a sua palavra não podia deixar de ser rica de vigor e vida. A todos impressionava não tanto pela forma literária, mas pela profundidade do conteúdo. Aliás, Quintiliano († 95), famoso mestre romano de eloqüência, observava:

“O coração e a sólida convicção é que tornam os homens eloqüentes”.

Ora é justamente isto que se dava com São Paulo. Por isto também os crítico, reconhecem, nas cartas do Apóstolo passagens de admirável eloqüência, que merecem para São Paulo um lugar de destaque entre os grandes escritores da literatura mundial. Tenham-se em vista especialmente Rm 8,31-39 (o hino da vitória de Cristo), 1Cor 13,1-13 (a Dama Caridade), 1Cor 1,18-30 (a loucura da cruz).

Para terminar, seguem-se três sugestões práticas:

1) Não ler as epístolas paulinas como estão dispostas no cânon (a ordem é de tamanho decrescente), mas segundo a seqüência cronológica (a partir de 1Ts…);

2) Colocar cada epístola no seu contexto histórico e geográfico próprio, ou seja, no contexto da biografia de São Paulo; usar cronologia e mapa das viagens paulinas;

3) Ler anotando as dúvidas para levá-las a quem as possa elucidar.


Para ulterior aprofundamento:

BALLARINI, T., Introdução à Bíblia, vol. V/1. Ed. Vozes 1974.
BARBAGLIO, FABRIS, MAGGIONI, As Cartas de Paulo. Ed. Loyola
BELLINATO, G., Paulo: cartas e mensagens. Ed. Loyola 1979. CERFAUX, L, O Cristo na Teologia de São Paulo. Ed. Paulinas 1975. 7″
DATTLER, FR., Eu, Paulo. Ed. Vozes 1976.
MOHANA, J., A Cristo por Paulo. Ed. Agir 1985.

Perguntas sobre a pessoa e obra de São Paulo

1) Cite três episódios da vida de São Paulo que mais o(a) tenham impressionado. Justifique sua escolha.
2) Diga como São Paulo escrevia suas cartas.
3) Aponte três textos paulinos cujo conteúdo lhe pareça especialmente significativo. Justifique a escolha.