Na linda natureza de Deus
Hoje de manhã; tempo claro e belíssimo, um bando de rapazes cercava o Carlos, ou melhor, o microscópio que ele trazia. Apareceu uma borboleta, e após uma caçada de quinze minutos, ele a apanhava. Afogueado voltava agora. “Como este malandro me cansou!”, suspirou ele. Depois colocou uma partícula pequenina da asa do inseto sob o microscópio. Era esse o motivo do ajuntamento.

“Oh, Carlos, deixe-me ver também! É realmente tão bonito?”

“Ora! De assombrar! Maravilhoso!”

“Vejam, rapazes”, disse o professor, “há pouco, nos extasiavam as estrelas imensamente grandes, e agora acontece o mesmo com coisas infinitamente pequenas. Examinem essa asa e sua finíssima contextura. Não há artista humano capaz de criar nada que apenas se assemelhe a isto. É esta a diferença, a obra humana é bela somente enquanto a consideramos em conjunto, a certa distância. Examinem com uma lente a mais linda pintura de Rubens, a mais célebre escultura de Canova, e que verão? No quadro, uma infinidade de traços de pincel; no rosto de bela estátua, horríveis irregularidades. Se, porém, colocarmos debaixo do microscópio uma obra do Criador, uma pétala insignificante, um fio de teia de aranha, uma asa de borboleta, uma gota d’água, suspendemos a respiração ante a magnificência que se nos depara na harmonia e perfeita adequação à sua finalidade. O próprio Diderot, o incrédulo escritor francês, dizia: — Um olho, uma asa de borboleta bastava para confundir um ateu”.

“Sr. professor, olhe aqui, por favor”, gritou Carlos, “lá está uma mosca parada no ar! É como se estivesse dependurada, mas o fio não se enxerga. E produz um som tão esquisito!”

Naturalmente todos volveram os olhos na direção indicada, e nada mais natural, a mosca enxotada descreveu uma curva, indo pairar alguns metros adiante.

“Fiquem quietos, rapazes! Aquilo é uma interessante espécie de mosca. É uma Syrphus pyrastri a ‘mosca pairadora’, vulgo varejeira. Está ela realmente dependurada, como julgou Carlos? Isso não! No entanto, o inseto vibra tão rapidamente as asas, que pode ficar parado quase no mesmo lugar. Carlos, mexa seus braços, como se fossem asas, com a máxima rapidez. Quantas vezes você pode levantá-los por segundo? Cinco vezes? Só? E os braços não lhe doem? Sabem quantas vezes esta mosca vibra as asas por segundo? 44O vibrações!”

“Shiii! Não pode ser! Além disso, como se pôde calcular que são exatamente 44O vibrações?”

“Ora isso não foi difícil. As vibrações das asas da varejeira produzem um som aproximado da nota ‘lá’ para isso são necessárias 435 vibrações por segundo.

Mas voltemos ao nosso pensamento inicial. Quando lavamos uma fruta, encontram-se, num centímetro cúbico d’água, mais de 6 milhões de bactérias. No solo molhado, na parede úmida, onde nossa vista nem mesmo percebe umidade, o microscópio nos revela verdadeiros lagos, nos quais pululam bactérias incrivelmente pequenas.

Com isso compreendemos deveras a verdade das palavras.

O poder de Deus se reflete nas coisas pequenas, no Ser mínimo. Deus nos aparece como Ser máximo.

A natureza nos apresenta uma multidão de casos surpreendentes. Durante todo um ano aprendemos botânica, esta planta é venenosa, aquela não é., no entanto, provavelmente ninguém de vocês poderá distinguir, com plena certeza, as plantas. Que? Você o poderia, João? Então já se esqueceu que não soube distinguir entre um cogumelo bom e um venenoso?”

“Calouro!”, começou Carlos, que brigara ontem com João.

O professor, porém, atalhou logo:

“Calma, rapazes; camaradas não zombam uns dos outros. Mas, já que você provocou, por castigo agora vai dizer-me por que os passarinhos novos têm bico amarelo. Então? Sim, por que os filhotes, no ninho, têm a faixa clara no bico… Não sabe. Não é? E quando eles abrem o biquinho faminto, veja como interior é vermelho. Quanto mais escuro for o ninho em que moram, tanto mais vivas são as cores. Sabem para que? Para que, quando a mãe volta com um verme ou outra guloseima apetitosa, e esvoaça por sobre o ninho, ela pode deixar cair o petisco direitinho no bico escancarado dos filhotes. Como é admirável a Providência que se ocupa até dos mínimos pormenores!

Mas voltemos à classificação das plantas. Nós não sabemos fazer distinção entre o que é prejudicial e o que é útil. Mas vejam: O boi o faz às mil maravilhas sem que o tenha aprendido.

Linneu assegura que o boi come 276 espécies de plantas e rejeita 218 porque lhe seriam prejudiciais. Isso se chama conhecer botânica! Em outras coisas, porém, o coitado é ‘estúpido como um quadrúpede’. A ovelha come 387 espécies de vegetais e evita cuidadosamente 141. E a cabra? 449 espécies ela aproveita, não tocando em 126.

Quando abrimos, ontem, um formigueiro vocês ficaram estupefatos, que palácio maravilhoso, cheio de andares e corredores construíram estes bichinhos! Se pudessem ver a construção dum castor ou o ninho artístico do abelharuco! Digam-me, rapazes, como é que tão insignificantes animaizinhos sabem estas coisas admiráveis? Basta considerar a natureza com olhos abertos para percebermos a grandeza do Criador em toda a sua formosura.

Como se explica que a andorinha, nascida durante o verão, debaixo de qualquer telhado de uma casa colonial, conhece que ao outono se seguirá o inverno frio e que seria aconselhável mudar de pouso? Ela nunca viu o inverno. Quem lhe diz, portanto, que ele virá? Recordemos encantados o ensino do Salvador, a respeito do Pai Celeste, que cuida dos lírios do campo e das aves do céu… E as andorinhas põem-se a caminho. Aonde vão? Onde está o sul ou o norte?

Sim, nós podemos determiná-lo com o auxílio da bússola ou do relógio. A andorinha não tem nem bússola nem relógio e a pesar disso empreende o vôo pelos ares. E depois de percorridos milhares de quilômetros, chega sem errar às zonas quentes, já visitadas por seus pais. Quem lhe ensinou o caminho?

Como sabe a mosca e a libélula que devem deixar cair os ovos na água, pois somente ali poderão desenvolver-se? No entanto, ambas receiam a água porque lhes molharia as asas. Quem ensinou à tartaruguinha, apenas saída do ovo na areia quente, onde fica o mar? Pois, imediatamente que se livrou da casca, dirige-se sem a mínima hesitação para o mar, que nunca viu e que está, às vezes, bem distante…

Agora, perguntem ao Luís o que ele viu ontem na toca do arganaz.”

“Ainda não contou nada”, exclamaram os companheiros.

“Não era uma presa comum o que encontrei, quando escavei a toca. Não quero exagerar, mas pelo menos meio quilo de trigo lá estava. O curioso, porém era que a ponta de cada grão estava comido”.

“Isso já aprendemos”, observou Guilherme, “ele corta as pontas do grão no ponto onde se acha o gérmen, a fim de que não germine em sua dispensa”.

“Nós o aprendemos”, disse o professor. “Vocês aprenderam. Onde, porém, o aprendeu o arganaz? E outros exemplos! Apenas o pintainho mete o bico fora do ovo, imediatamente procura grãozinhos. O patinho nasce perfeito nadador; a mãe não o alimenta nem um dia. Por que não?

É porque são sempre tantos que os pais não poderiam vencer o trabalho. Mas quem ensinou ao pintainho a procurar seu alimento desde o primeiro dia, quando outros pássaros, que põem menos ovos, têm que alimentar os filhotes por muito tempo? Eles podem fazê-lo, têm poucos filhos.

Digam-me já observaram o pato, quantas vezes passa seu bico por sobre as asas?”

“Ah, sim. Ele está se lavando!”

“Mas isto não é lavar. Ele tem glândulas sebáceas na cabeça, com cujo conteúdo se unta, para que a umidade não penetre nas penas, e assim ele se possa manter mais facilmente à tona d’água. Quem lhe ensinou esse truque? Como sabe o pato que a gordura é impermeável?”

“Ai, ai!”, berrou Jorge nesse momento e deu tal salto para o lado que por um triz não pisou no fogo.

“Que aconteceu? Você está doido?”

“Ora, um enorme morcego! Quase me ficou preso nos cabelos!”

“Um morcego em pleno dia, rapaz? Terá sido algum pardal. Mas, vejam, também para o morcego há uma providência admirável. Para que suas ténues asas não se tornem quebradiças, de uma glândula ao lado do nariz ele transuda um óleo, com o qual unta suas asas. Como é que o quiróptero sabe que é bom olear as asas de vez em quando? — Vejam como um rapaz esperto anda de olhos abertos, quando passa pela natureza maravilhosa”.

“Interessante!”, começou Luís, depois duma curta pausa. “Li, não sei onde, que tudo se pode explicar pelo instinto e inteligência dos animais. Há pouco me ocorreu, porém, como se poderia rebater cabalmente essa afirmação:
Como se poderá falar da inteligência dos animais, se são tão estúpidos em certas coisas?”

“Tem razão. O pombo correio volta sem dificuldade da Espanha à Bélgica; mas o mesmo pombo que não errou o caminho num trajeto de centenas de quilômetros, não é capaz de se libertar, ao cair na mais simples armadilha. Pode-se então falar em inteligência? A galinha percebe o gavião a uma altura onde a vista humana absolutamente nada enxerga; mas, ponha no ninho um ovo de gesso, seu cérebro de galinha não nota o logro; ela se assenta em cima para chocá-lo. O gramofone canta belas canções, por isso será ele inteligente? Não. Inteligente é seu inventor. Os animais parecem em muitos casos, surpreendentemente espertos. São-no de fato? Não. Seu Criador, é que é infinitamente sábio!”

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(TOTH, Monsenhor Tihamer. Na linda natureza de Deus. Editora S. C. J., 1945, p. 63-69)