Dom Henrique Soares da Costa
Mais uma vez, chegada a santa Quaresma, desejo partilhar com você, caro Amigo deste espaço virtual, meditações diárias da Palavra de Deus, que nos ajudem, a você e a mim, a bem percorrer o caminho até as celebrações pascais.

É tradição mística muito antiga da Igreja aproveitar o sagrado tempo de preparação para a Páscoa dedicando-se mais à escuta orante e saborosa da Palavra de Deus. Sobretudo nos tempos atuais, quando é tão forte a eterna tentação do homem de viver do seu modo, pelos seus critérios, na sua verdade mentirosa, é, mais que nunca, necessário, essencial, abrir o ouvido do coração para o Senhor, deixando-nos ferir, iluminar e guiar pela Sua santa Palavra.

O próprio título que dei a esta série de meditações, “São estas as palavras…”, é tirado dos primeiros dizeres do Deuteronômio. Pois bem, estas são as palavras que o Senhor Deus nos dirige, a mim e a você, neste sagrado tempo de conversão, de oração, de combate espiritual, de luta contra nossos demônios, para que cheguemos, com o coração dilatado pela caridade de Cristo, às festas pascais. Fazendo isto, nossa Quaresma será, realmente, um tempo de graça e celebraremos na alegria espiritual a Páscoa da Ressurreição.

No ano passado, o tema de nosso caminho espiritual foi o Êxodo. Comentei aqui todo aquele livro. Agora, esses comentários deverão em breve ser publicados pela Editora Cléofas como um livro. Neste 2018, vamos aprofundar o que meditamos no Êxodo, desta vez, tomando o Livro do Deuteronômio. Este livro aparece como uma série de três discursos de Moisés. Nas palavras desta obra, Deus interpela o Seu povo e cada um de Seus fieis! Assim, somos nós mesmos e toda a Igreja, Povo de Deus da nova Aliança, que somos interpelados!

Aqui, não se trata de comentar cada passagem do Livro, mas de tomar as perícopes e as palavras mais empenhativas, para nos deixar interpelar por elas, procurando ouvir o Senhor, conhecer o Seu Coração e viver na Sua santa vontade. Como tantas vezes tenho salientado e insistido, é indispensável sempre recordar que todo texto do Antigo Testamento encontra sua luz plena somente em Cristo, nosso Senhor, Palavra eterna do Pai, pronunciada continuamente na potência do Santo Espírito. É Dele, de Jesus, nosso Senhor e Salvador, nossa Vida e esperança, portanto, que este Livro, misteriosamente, dá testemunho!

Meditação I

Reze o Salmo 119/118,1-8
Agora, leia com piedade e coração que escuta na fé Dt 1,1-8.

1Estas são as palavras que Moisés dirigiu a todo o Israel, do outro lado do Jordão, no deserto, na planície em frente de Suf, entre Paran, Tofel, Laban, Hacerot e Di-Zaab. 2São onze dias de jornada desde o Horeb, passando pelo monte Seir, até Cadés-Barnea.

3No quadragésimo ano, no décimo primeiro mês, no primeiro dia, Moisés disse aos filhos de Israel tudo o que o SENHOR lhe ordenara para eles. 4Depois de ter derrotado Seon, rei dos amorreus, que residia em Hesbon, e Og, rei de Basan, em Edrei, que residia em Astarot, 5do outro lado do Jordão, no país de Moab, Moisés começou a expor esta Lei: 6«O SENHOR, nosso Deus, falou-nos no Horeb, dizendo: ‘Há muito que vos encontrais neste monte. 7Parti, então! Segui o vosso caminho e dirigi-vos para as montanhas dos amorreus e para todas as suas povoações, na Arabá, na montanha, na Chefela, no Négueb, no litoral marítimo, no país dos cananeus e no Líbano, até ao grande rio, o rio Eufrates. 8Vou entregar-vos este país. Ide e tomai posse do país que o SENHOR prometeu por juramento dar a vossos pais, a Abraão, Isaac e Jacob, e aos seus descendentes, depois deles.’»

1. Logo no v. 1, é importante notar o tom solene do início do Deuteronômio: Israel, a inteira assembleia santa do Senhor Deus, toda reunida nas planícies de Moab, irá escutar o Senhor que lhe fala através de Moisés. Atenção, que este “Todo Israel…” ao qual Moisés se dirige “do outro lado do Jordão”, isto é, ainda fora da Terra Prometida, é o Israel de todas as épocas, pelos séculos a fora, onde quer que se encontre, mesmo espalhado, disperso pelo mundo! Israel deverá viver sempre desta Palavra santa do Senhor, dita nas palavras de Moisés.

Mas, nunca esqueçamos:

“A Lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17)

É Jesus nosso Senhor a plenitude da Lei! Se as palavras de Moisés traziam em si a Palavra de Deus, agora, em Jesus, a própria Palavra, o Verbo, fez-Se pessoalmente carne e habitou entre nós para formar o Novo Israel, da Nova e eterna Aliança (cf. Jo 1,14).

Agora, às vésperas de entrar na Terra Prometida, no Fasga, cadeia montanhosa entre o País de Moab e o Mar Morto, Moisés recordará ao Povo santo todo o caminho que o Senhor Deus o fez percorrer, recordará o dom da Lei, a santa Torá (= a Instrução) que o Senhor dera para a vida do Seu povo. Na verdade, pela boca de Moisés, o Senhor educa o Seu Israel amado, o Seu Povo querido em cada geração! Por isso mesmo, estas palavras sagradas são importantes, são atuais também para nós, “foram escritas para nossa instrução, nós que fomos atingidos pelo fim dos tempos” (1Cor 10,11).

Nunca esqueça disto: quem lê as Escrituras por mera curiosidade ou estudo intelectual jamais colherá seu sentido profundo, jamais penetrará no seu coração! As Escrituras santas não são um conjunto de textos antigos simplesmente interessantes ou veneráveis; são, isto sim, são a Palavra santa de Deus, pronunciada na força do Santo Espírito a cada geração do Povo da Aliança! É, portanto, com esta convicção e este sentimento que vamos percorrer este Livro, ouvindo as palavras dirigidas a todo Israel, a toda a Igreja, “Israel de Deus” (Gl 6,16).

2. Pergunte-se, portanto: Como tem sido sua escuta das Escrituras seja na Liturgia como na lectio cotidiana? Como seu ouvido e seu coração recebem esta Palavra sagrada? O Apóstolo elogia os tessalonicenses porque acolheram a Palavra de Deus “não como palavra humana, mas como na verdade é, Palavra de Deus, que produz efeito em vós, os fieis” (1Ts 2,13).

Nunca esqueça: somente quando as Escrituras são lidas na comunhão da Igreja, Templo do Espírito Santo de Cristo, é que elas são realmente Palavra viva do Deus vivo, produzindo frutos na nossa vida!

3. No v. 3 há um detalhe importante. O tempo, para Israel, é contado a partir da Páscoa do Mar dos Juncos, da saída do Egito:

“No quadragésimo ano…”

Aqui se tem um sentido profundo: na escravidão do Egito, o tempo não conta; na escuridão da servidão, é como se não houvesse vida, não houvesse luz! Israel passou a existir, efetivamente, quando foi libertado pelo seu Deus da escravidão do Egito! Também para nós, a vida verdadeira começa quando nos abrimos para o Senhor e, no Batismo, fizemos nossa páscoa, tornada atuante e presente em cada Eucaristia. Leia Ef 2,1-10. O Senhor é assim: Deus que nos arranca da morte e, gratuitamente, dá-nos a Vida! Escutá-Lo, viver Nele, é ter a Vida e a liberdade verdadeiras!

4. No v. 5, a Escritura diz:

“Moisés começou a inculcar esta Lei”

Para um judeu, a Lei (Torá, Instrução) é expressão do Coração de Deus, da Sua sabedoria: “A Lei do Senhor é perfeita, faz a Vida voltar; o testemunho do Senhor é firme, torna sábio o simples” (Sl 19/18,8); ela é o grande dom que Israel recebera e pelo qual e no qual deveria sempre viver:

“Escuta, Israel, os preceitos de Vida; presta ouvidos, para conheceres a prudência: Ela é livro dos preceitos de Deus, a Lei que subsiste para sempre: todos os que a ela se agarram destinam-se à Vida, e os que a abandonarem perecerão. Volta-te, Jacó, para recebê-la; caminha para o esplendor, ao encontro de sua luz! Não cedas a outrem a tua glória, nem a um povo estrangeiro os teus privilégios. Felizes somos nós, ó Israel, pois aquilo que agrada a Deus a nós foi revelado” (Br 3,9; 4,1-4)

Não somos judeus; nossa Lei verdadeira, definitiva e eterna é o Santo Espírito de Cristo, Ele mesmo o Amor de Deus derramado em nossos corações (cf. Rm 5,5). Mas, quando lida à luz do Espírito de Cristo, a Lei de Moisés e todo o Antigo Testamento revelam-nos o Coração do Senhor Deus, ajudam-nos a amar o Senhor e nos faz conhecer mais e melhor Jesus. Portanto, é à luz de Cristo que a Lei de Moisés pode ser acolhida e reinterpretada. Assim, enquanto Moisés inculca a Lei ao coração de Israel, o cristão, lendo os textos do Antigo e do Novo Testamento, procura inculcar, ou melhor, deixa que o Espírito inculque ao seu coração os mesmos sentimentos e atitudes de Cristo Jesus. Leia e sublinhe na sua Bíblia Fl 2,5 e 1Jo 2,6.

5. Nos vv. 6-8, Deus aparece como Aquele que dirige os destinos de Israel: é Ele Quem determina o destino, os tempos e os modos do caminho do Seu povo:

“Voltai-vos e parti!”

É Ele também Quem dá a Terra, conforme Sua promessa. É assim ainda hoje, ainda agora, na nossa vida: para aquele que crê de verdade, o caminho da existência é caminhado nos tempos e nos modos de Deus… Tudo tão diferente da mentalidade do mundo atual, sedento de autonomia, decidido a fazer por si mesmo os seus caminhos. Tais caminhos se tornam, então, caminhos de morte, pois “tal caminho parece reto para alguém, mas afinal é o caminho da Morte” (Pr 14,12). Por isso mesmo, o crente deve suplicar sempre:

“Ensina-me os Teus caminhos, Senhor, e caminharei segundo a Tua verdade; unifica o meu coração para temer o Teu Nome” (Sl 86/85,11)

Dono de um coração quebrado, espatifado em mil vontades contraditórias, o crente suplica ao Deus Um que unifique o seu coração. Como unificá-lo? Procurando sempre e em tudo viver na vontade única do Deus único!

Para você meditar:

A) Reze o Salmo 19/18, 8-15
B) Reze com esta oração do Beato Newman:

“Conduze-me, doce Luz,
Através das trevas que me cercam,
Conduze-me sempre mais longe!
A noite é como uma tinta negra;
Estou longe de Tua casa;
Conduze-me sempre mais longe!
Ampara meus passos;
Não peço para ver desde agora
Aquilo que devo ver mais adiante.
Basta, para mim, um único passo de cada vez.
Mas, nem sempre fui assim,
Nem sempre rezei para que me conduzisses,
Cada vez mais longe.
Gostava de escolher, eu mesmo,
O meu caminho.
Mas, agora, conduze-me Tu,
Sempre mais longe…
Fascinavam-me os dias de glória
E, apesar do medo,
O orgulho dominava minha vida.
Não Te lembres mais dos anos já escoados…
Durante tanto tempo Teu poder me abençoou;
Certamente ele saberá conduzir-me ainda,
Cada vez mais longe,
Pelo deserto, pelo pântano,
Sobre as rochas abruptas,
Pelas forças das torrentes,
Até que a noite tenha ido embora
E que venha a manhã sorridente.
Que esses rostos de anjo, que amei outrora,
E que perdi de vista durante muito tempo,
Voltem novamente a brilhar!”