QUINTA-FEIRA

Pauper sum ego, et in laboribus a iuventute mea – Eu sou pobre e vivo em trabalhos desde a minha mocidade (Sl 87, 16)

Sumário. Jamais alguém amou Deus e a própria alma como Jesus ama seu Pai e as nossas almas. Por isso é que Jesus, vendo desde o seio de Maria todos os pecados em particular e conhecendo tanto a injúria por eles feita ao Pai, como os males que deles deviam provir para as nossas almas, sofreu durante toda a sua vida, o martírio mais doloroso. Mas se Jesus se afligiu a tal ponto por pecados que não eram seus próprios, é mais do que justo que nós também nos aflijamos, que os havemos cometido.

Cristo, Homem das Dores (Carlo Dolci)

Cristo, Homem das Dores (Carlo Dolci)

I. Considera que todas as penas e ignomínias que Jesus sofreu em sua vida e na morte, Lhe eram presentes desde o primeiro instante da sua vida: Dolor meus in conspectu meo semper (1) — A minha dor está sempre diante de mim. Desde o berço Jesus começou a oferecer todas essas penas em satisfação por nossos pecados, principiando desde então a ser nosso Redentor. Ele mesmo revelou a um seu servidor, que desde o começo de sua vida até à morte sofreu, e sofreu tanto por qualquer um dos nossos pecados, que, se houvera tido tantas vidas quantos homens existem, teria morrido de dor igual número de vezes, se Deus não lhe tivesse conservado a vida para sofrer ainda mais. Oh! Que martírio padeceu incessantemente o Coração amante de Jesus pela vista de todos os pecados dos homens! Ad quamlibet culpam singularem habuit aspectum, diz São Bernardino (2). Sim, desde que Jesus desceu ao seio de Maria, cada pecado em particular era-Lhe presente, e cada pecado afligia-O imensamente.

Diz Santo Tomás, que a dor causada a Jesus Cristo pelo conhecimento da injúria feita ao Pai e dos males que do pecado resultariam para as almas tão amadas, excedeu a dor de todos os pecadores contritos. — Com efeito, nunca um pecador amou Deus e a sua alma como Jesus ama seu Pai e as nossas almas. Daí é que o Redentor sofreu, desde o seio de sua Mãe, a agonia que depois padeceu no horto à vista de todas as nossas culpas que tomara sobre si a fim de satisfazer por elas. Pauper sum ego, et in laboribus a iuventute mea (3) — Eu sou pobre e vivo em trabalhos desde a minha mocidade. Assim predisse o Salvador de si mesmo pela boca de Davi, que toda a sua vida seria um padecimento contínuo. — Donde São João Crisóstomo conclui que nós não nos devemos afligir por outra coisa senão pelo pecado; e que, assim como Jesus passou toda a sua vida em aflição por causa dos nossos pecados, assim nós, que os havemos cometido, devemos estar possuídos de uma contínua dor, pela lembrança de termos ofendido um Deus que nos amou tanto.

II. Santa Margarida de Cortona nunca deixou de chorar as suas culpas. Certo dia disse-lhe o confessor: “Margarida, deixa-te de chorar; o Senhor já te perdoou.” — “Como”, respondeu a Santa, “como poderei dar-me por satisfeita com as lágrimas derramadas e com a dor daqueles pecados que afligiram o meu Jesus Cristo durante a sua vida toda?” — Imitemos esta Santa pecadora, e pensando muitas vezes nos nossos pecados, digamos frequentemente ao Senhor:

Ó meu Jesus, eis aqui a vossos pés o ingrato, o perseguidor, que Vos fez sofrer durante toda a vossa vida. Mas dir-Vos-ei com Isaías: Tu autem eruisti animam meam, ut non periret: proiecisti post tergum tuum omnia peccata mea (4) — Tu livraste a minha alma para que não pereça, lançaste atrás das tuas costas todos os meus pecados. Eu Vos ofendi e Vos traspassei o Coração com tantos pecados, mas Vós não recusastes tomar sobre Vós todas as minhas culpas. Eu por minha livre vontade tenho condenado a minha alma a arder no inferno, cada vez que consenti em ofender-Vos gravemente, e Vós, como preço de vosso sangue, não Vos cansastes de livrá-la e de fazer que não ficasse perdida. Meu amado Redentor, graças Vos dou e quisera morrer de dor ao pensar que tenho ofendido tão gravemente a vossa bondade infinita.

Ó meu amor, perdoai-me e vinde tomar posse de todo o meu coração. Dissestes que não Vos dedignais de entrar no coração de quem Vos abre a porta, e de fazer-lhe companhia: Si quis aperuerit mihi ianuam, intrabo ad illum, coenabo cum illo (5). Se em outros tempos Vos repulsei de mim, agora Vos amo e não quero outra coisa senão a vossa graça. Eis que Vos abro a porta, entrai em meu pobre coração, mas entrai para nunca mais sair dele. Meu coração é pobre, mas entrando nele Vós o fareis rico. Serei rico enquanto Vos possuir, o supremo Bem. — Ó Rainha do céu, Mãe aflita desse aflito Filho, a vós também causei dores amargosas, porquanto tivestes tão grande parte nos sofrimentos de Jesus. Minha Mãe, perdoai-me e alcançai-me a graça de servir fielmente, agora que, como espero, Jesus de novo entrou em minha alma.

Referências:
(1) Sl 37, 18
(2) S. Bernardinus Sen. t. II, serm. 56
(3) Sl 87, 16
(4) Is 38, 17
(5) Ap 3, 20

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 53-52)