São Cipriano

“Não pode ter a Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe” (São Cipriano)

A presente instrução será a sequencia lógica da anterior. Para formularmos um juízo imparcial, é necessário enfrentarmos as objeções que os espíritos superficiais levantam contra a nossa Igreja; as que se referem a defeitos reais da vida da Igreja, e também as que se referem a defeitos aparentes, que só podem ser chamados defeitos em consequência dum juízo precipitado e parcial.

Têm havido, na História páginas realmente tristes, e têm havido também na vida da Igreja acontecimentos em que, infelizmente, se acusa o lado humano da Igreja, por demais. É lastimável e devemos trabalhar para que o elemento humano seja cada vez mais relegado para o segundo plano, na Igreja. Jamais, porém, será possível afastar totalmente esses defeitos, porque eles vão de par com o duplo semblante da Igreja, com a sua dupla natureza, divina e humana, como foi dito na instrução precedente.

Mas têm havido também na Igreja qualidade, têm havido na sua vida manifestações, que certas pessoas encaram como defeitos, lacunas e imperfeições, mas que não merecem essa qualificação. Ouvimos, a cada instante, alegações lançadas levianamente por pessoas frívolas ou mal intencionadas; vale, pois, a pena examinarmos detalhadamente esses pretensos defeitos da nossa Igreja, para nos certificarmos se são defeitos ou, antes, virtudes, se nos devemos escandalizar deles ou, antes, reconhecer neles os sinais da verdadeira Igreja.

E para podermos examinar bem essas dificuldades, consagrar-lhes-ei não só esta instrução, mas ainda a seguinte.

1. A “Intolerância” da nossa Igreja para com as outras religiões

Entre os “defeitos” que alguns nos exprobram tão facilmente, a coragem e a franqueza da Igreja Católica desempenham talvez o primeiro papel: é por isto que somos obrigados a ouvir a maioria das censuras, é por isso que dizem que a nossa Igreja é “intolerante” para com as outras religiões.

“Como pode a Igreja Católica ser tão intolerante?”, ouvimos dizer a cada instante. “Ela proclama que só ela é a religião da salvação. Ora, não é indiferente a Deus o ser adorado em tal igreja ou em tal outra? As outras instituições cristãs, ao menos reconhecem a legitimidade das outras religiões; mas a Igreja Católica, não. Diz que fora dela não há salvação. Não é espantoso? Será possível que quem não for católico seja condenado?”.

É assim que as pessoas se revoltam muitas vezes contra a Igreja, é assim que se indignam, que se escandalizam, mas somente porque A) duma parte, não refletem no que dizem, e B) doutra parte, não conhecem a doutrina da Igreja, ou só a conhecem pela metade.

A) A um homem razoável, quando afirma alguma coisa, convém refletir também em todas as suas consequências. Pois bem! Reflitamos no que resulta dessa afirmação de que cada qual pode adorar a Deus em qualquer religião, isto é, que todas as religiões são igualmente boas.

a) Se todas as religiões são igualmente boas, então não compreendemos por que cada religião se esforça por chamar a si os homens. De que servem então todos esses esforços para fazer conversões? Se todas as religiões são igualmente boas, então por que é que centenas de seitas, os Batistas, os Nazaremos, os Metodistas, os Adventistas, os Sabatistas, os Salutistas, etc. mostram tanta atividade em conseguir adeptos?

Pois bem! A experiência quotidiana contradiz essa afirmação de que “todas as religiões são boas”.

b) E também a contradiz a sã razão. Admitamos que os representantes das diversas religiões estivessem numa mesma sala, ao lado uns dos outros: que confusão haveria! Brama, Maomé, Marte, Júpiter, Lutero, Calvino, os ídolos, Buda, os deuses do Olímpo – são todos igualmente dignos do nosso culto? Um ensina uma coisa totalmente oposta à doutrina do outro. Um adora o que outro rejeita.

“Todas as religiões são boas” – esta máxima já penetrou no povo, mas acaso tem tornado os homens mais religiosos? Absolutamente não. Tem-nos tornado irreligiosos. É a consequência lógica. Se todas as religiões são boas, então cada uma em particular não é boa. “Todas as religiões são boas” – afirmam aqueles que não têm religião.

c) Essa afirmação também é contrária à moral. A religião penetra profundamente a vida do homem. É ela que cria a civilização e a cultura moral. Se o fundamento religioso é falso, falsa é também a formação do povo. Os deuses do Olímpio são imorais: os povos grego e romano são sem moralidade. As estátuas de Buda são inertes: os seus servidores são inertes, sem energia. Sim, tal religião, tal povo. A natureza da religião não é, pois, indiferente.

No Hindostão, as pessoas se atiravam sob as rodas dos carros dos deuses. Em Cartago, matavam-se crianças. Na Meca, faziam-se hecatombes humanas – e tudo isso é indiferente a Deus? Tudo isso é igualmente agradável a Deus? A vida de um São Luiz Gonzaga teria o mesmo valor apara Deus que a de um sultão turco com o seu harém de cento e cinquenta mulheres? A caridade heroica dum São Vicente de Paulo seria equivalente ao enternecimento sentimental com que se contentam certas religiões?

O pagão idólatra reza deste modo: “Touro, tu é que és deus; cegonha, íbis, gato, tu é que és deus, adoro-te”. E Deus que dirá disso? Aprova, acha isso bem, já que “todas as religiões são boas”.

Os antigos Romanos oravam também: “Vênus, és uma deusa, a deusa da impureza, eu também serei impuro. Mercúrio, és um espertalhão, sê-lo-ei também”. Mas o católico faz esta oração: “Senhor, sois a pureza, ajudai-me a ser puro. Senhor, sois a justiça, ajudai-me a ser justo. Senhor, sois a mansidão, ajudai-me a ser manso”. Acaso é isso indiferente a Deus? Mas, se “todas as religiões são boas”, então isso deve ser-lhe indiferente. Como estais vendo, irmãos, basta refletirmos nas consequências dessa afirmação feita levianamente, de que “pouco importa a igreja em que adoramos a Deus”, para lhe vermos os absurdos; facilmente se escandalizam, pois, os que não refletem no que dizem.
B) Escandalizam-se ainda os que não conhecem exatamente, ou só conhecem pela metade, a doutrina da Igreja. A nossa Igreja sustenta realmente que só ela é a verdadeira Igreja de Cristo; portanto, a Igreja Católica é a única Igreja que nos pode salvar, e fora dela não há salvação. Quantas dificuldades, quantas objeções somos obrigados a ouvir dos que não compreendem bem esse dogma de fé! “Como se pode ser tão intolerante, tão arrogante?”, dizem eles.Ora, bastaria compreender bem esse dogma, para que todos os mal-entendidos desaparecessem.

a) Quando a nossa religião proclama que é a única Igreja que pode proporcionar a salvação – pois é o que ela proclama realmente – diz com isso que é a única que está na posse dos poderes dados por Cristo à sua Igreja, e que só ela conserva totalidade da revelação e a plenitude dos instrumentos da graça.

Sim, é o que ela ensina. E isso que quer dizer?

Que Cristo deu uma única embarcação na qual podemos atravessar a vida de modo a alcançarmos as margens da eternidade bem-aventura. Que Cristo fundou uma única Igreja e essa é a Igreja Católica. Que só esta conserva a doutrina que Cristo pregou, os poderes que deu, os instrumentos de graça que instituiu para fortificar e guiar as almas.

Mas como ousa a Igreja afirmar isso? Não haverá orgulho em afirmar que fora da Igreja não há salvação?

Não somos nós porém, que o afirmamos, foi Nosso Senhor Jesus Cristo que assim decidiu. Deus é o soberano Senhor das suas criaturas. Tem o direito de lhes prescrever o caminho a seguir. “Ninguém, se não renascer da água e do Espírito, pode entrar no reino de Deus” (Jo 3, 5), “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 16), quem não seguir esse caminho perecerá. “Quem crer e for batizado será salvo: quem não crer será condenado” (Mc 16, 16).

Essas palavras são decisivas, é impossível sofismar, e dar-lhes outro sentido.

b) Censuram à nossa Igreja o ser “intolerante” porque não reconhece as outras igrejas como verdadeiras religiões de Cristo. Mas não é a Igreja que é intolerante, é a própria verdade. A verdade é intolerante, porque não suporta a seu lado o erro. O raio de sol é intolerante, porque não suporta a seu lado o gelo. As matemáticas são intolerantes, porque não suportam que 2 x 2 sejam 5.

Enfim, a Igreja Católica é intolerante porque Cristo só fundou uma única Igreja, uma única religião. Se ela acredita ser a verdadeira Igreja de Cristo, desde esse instante é obrigada a afirmar que as outras religiões não estão de posse de toda a doutrina de Cristo, isto é, que não é membro da Igreja Católica não pode ser salvo.

c)Ah! Aí está justamente o orgulho! – exclamam. Como se pode dizer semelhante coisa? Que o protestante, o judeu, o muçulmano, o pagão estão todos condenados?”.

Mas quem diz isso? – perguntarei aos que assim se indignam. Fostes vós que acabastes de dizê-lo!

Quem não é membro da Igreja católica será condenado.

Sim, sim!… Mas vamos devagar. É verdade que quem não pertence à Igreja Católica será condenado. Mas pode-se pertencer à Igreja Católica de dois modos. Pertence-se-lhe quando se foi batizado catolicamente e, desse modo, admitido entre os membros da Igreja: há no mundo cerca de 360 milhões de católicos desse gênero. Mas contamos também entre os católicos essa multidão de homens de boa vontade, de qualquer religião em que tenham nascido, os quais, sem que haja nisso culpa da sua parte, não conhecem a Igreja Católica, estão persuadidos da verdade da sua religião e lhe observam os preceitos. Esses são membros da Igreja em alma e em desejo; em consequência, participam também da verdade e das graças de Cristo.

Há, portanto, no mundo cerca de 360 milhões de católicos – nos registros de batismo da terra; mas no registro de batismo do céu – quer dizer, perante Deus, que de tudo sabe – eles são muito maior número. Efetivamente, a Igreja Católica considera como seus filhos – que sublime doutrina! – todos aqueles, mesmo de outra religião, que, como o filho pródigo, se acham a caminho da casa de seu Pai, mas por causa do nevoeiro e das trevas, ainda não a puderam achar. A nossa Igreja não pode esquecer estas palavras do Salvador: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil” (Jo 10, 16); e, assim como não ensinamos que todos os católicos serão salvos, também não ensinamos que todos os membros das outras religiões serão condenados. De fato, o pagão de boa fé, ou o transviado de boa fé pertence à Igreja, em alma e em desejo.
C) Creio – meus irmãos – que podemos agora responder a esta pergunta: A nossa religião é verdadeiramente intolerante?

A resposta é simples e clara: Certamente, nos nossos dogmas, somos intolerantes; mas não o somos na vida cívica e social.

a) Somos intolerantes nas questões dogmáticas. Só há uma religião que possa ser a verdadeira: é o catolicismo. Disto estamos convencidos. Uma religião que não ousa afirmar isso de si mesma, comete um suicídio. Mas a nossa Igreja ousa afirma-lo. E ousa também tirar dai as ultimas consequências. Por isso, não pode permitir que participemos de culto de outra religião, pois seria apostasia. Por isso, ainda, não pode permitir que os filhos dum casamento misto sejam de outra religião, pois seria uma apostasia. É severo esse dogma? É. Mas, se a Igreja cedesse, poderíamos dizer: a própria Igreja não acredita na sua verdade.

É intolerante a Igreja Católica? Sim, mas Nosso Senhor Jesus Cristo também o foi, quando disse daquele que não escuta a Igreja “Seja ele para ti como um pagão e um publicano” (Mt 18, 17).

Também o foram os apóstolos, quando excomungavam os hereges: “Quando nós mesmos, ou um anjo do céu vos anunciasse outro Evangelho que não este que haveis recebido, seja anátema” (Gl 1, 8).

Nas questões dogmáticas somos, pois, realmente intolerantes, tal como são intolerantes não somente as verdades da fé, mas também todas as demais verdades, 2 x 2 não “toleram” outro resultado senão 4. O jardineiro não “tolera” a erva daninha num canteiro de flores. O mestre não “tolera” uma respostas falsa, o médico não “tolera” a doença, nem o juiz, o crime. Desde que eu esteja convencido de que uma coisa é verdadeira, sou intolerante para com quem se oponha à minha convicção.

E é justo. Apenas, não devo exigir que os de opinião contrária sejam obrigados a curvar a cabeça.

b) É por isto que, se proclamamos a intolerância nas questões dogmáticas, não a proclamamos igualmente na vida cívica. Sem dúvida, estamos em guerra com o erro, mas queremos estar em paz com os hereges.

Desprezamos então as outras religiões? Oh! Não. Conquanto lastimemos que os seus adeptos não estejam entre nós, e embora rezemos ardentemente para que se realize o ardente desejo do coração de Nosso Senhor, de que haja um só rebanho e um só pastor, sabemos respeitar as convicções do outro. Mas nada podemos ceder dos princípios da nossa fé, e não podemos dizer que “todas as religiões são boas”, pois isso equivaleria a dizer que “todas as religiões nada valem”.

Penso, meus irmãos, que, depois destas explicações, nada mais tenho a dizer sobre as objeções que nos dirigem constantemente.

“Quem não for membro da Igreja não será salvo”. É à primeira vista, frase realmente severa. Mas quando se sabe que a Igreja Católica coloca entre seus membros todo homem de boa vontade, que acredita inabalavelmente que a sua religião é a boa, e que utiliza todos os meios dessa religião para servir a Deus, então realmente não há nada de “terrível” nesse dogma. Pode a Igreja ser mais liberal – e assim, não “intolerante”, mas, pelo contrario, “indulgente” – do que quando proclama que aquele que exteriormente está bem longe da verdadeira religião de Cristo, e mesmo talvez nunca tenha ouvido falar de Cristo, também pode pertencer à Igreja Católica? Assim compreendemos que a Igreja reconheça ainda, como seus filhos, os homens que, tendo vivido antes de Cristo, amaram e serviram a Deus sinceramente, e ensine que também eles seriam salvos pelos merecimentos do futuro Redentor.

2. A intolerância da nossa Igreja para com seus próprios fiéis

Mas a Igreja Católica ainda é obrigada a ouvir criticas de outro gênero. Alguns lhe exprobram o ser intolerante para com as outras religiões. Outros, porem, a acusam de outro extremo: de ser intolerante para com seus próprios fieis.
A) Há pessoas que não podem suportar o principio de autoridade, a submissão, a obediência que não tolera o oportunismo, exigida pela Igreja, dos seus próprios fiéis. “É demais – dizem eles. Sejam quais forem as prescrições da Igreja, por mais profundamente que penetrem na vida privada e familiar, cumpre obedecer-lhes como à própria palavra de Deus”.

a) E é a verdade: Assim como a igreja obedece a Deus, também reclama a obediência de seus fieis para consigo mesmo. Por isso, a obediência é a virtude característica do católico, e é isso que São Paulo mais faz salientar na vida de Cristo: “Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 11, 8).

A Igreja pede-nos uma obediência sem condições, porque Cristo lhe confiou, com o cuidado da salvação das nossas almas, uma grande responsabilidade. É da Igreja que dependem a extensão do verdadeiro culto de Deus, e a extensão dos efeitos da redenção. É a ela que se dirige em primeiro lugar o aviso de São Paulo “Prega a palavra, insiste a tempo e a contratempo, repreende, ameaça, exorta, com inteira paciência e sempre instruindo” (2Tm 4, 2).

b) Se considerarmos estas coisas, compreenderemos melhor a psicologia da Igreja. Compreenderemos porque é que ela é tão suscetível nas questões de respeito da autoridade: ela representa entre nós a autoridade divina. Se alguém a ataca, não é a si mesma que ela sente atacar, são os direitos de Deus. É esse sentimento de responsabilidade que devemos descobrir na atitude da Igreja, quando exige uma obediência inflexível, sem compromissos.

Será exagerada essa convicção que a Igreja alimenta, de que por trás de todas as suas prescrições se acha a autoridade de Deus? Mas o Filho de Deus pronunciou estas palavras extremamente significativas: “Quem vos escuta, a mim escuta, e quem vos despreza, a mim despreza; ora, quem me despreza, despreza Aquele que me enviou” (Lc 10, 16)? E, noutra circunstância: “Em verdade vos digo, tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (Mt 18, 18).
B) À luz dessas ideias, podemos ainda responder a outra objeção. “Do mesmo modo que a Igreja é intolerante para com os membros das outras religiões, assim também é às vezes demasiado severa para seus próprios fiéis, e parece bem dura nos seus mandamentos. Há homens que ela excomunga. A uns, não permite confessar-se nem comungar. Outros quereriam casar-se, e a Igreja Católica não os casa. É um exagero”.

Mas basta examinar um pouco mais a fundo essas alegações, e compreende-se o quanto é bem fundada a atitude da Igreja.

a) Primeiramente, a Igreja não “amaldiçoa” ninguém. A Igreja de Cristo tem o hábito de abençoar, nunca amaldiçoar. Nas agremiações, não se “amaldiçoam” os membros indignos, “excluem-se”. A Igreja também só faz isso: excluí-los. E se qualquer insignificante associação duma aldeia tem o direito de excluir aqueles de seus membros que não obedecem aos seus estatutos, pode-se recusar esse direito à maior associação do mundo, à Igreja Católica?

Primeiro, faz-se mister, porem, que alguém tenha transgredido gravemente uma ordem da Igreja, para que a Igreja lhe declare: desde que não observaste minhas regras fundamentais e me volveste as costas, não me resta mais outra coisa senão tirar daí as consequências: excluo-te da lista dos meus membros, e, naturalmente, também do gozo dos seus direitos. Eis aí essa “excomunhão” tão frequentemente comentada.

b) Mas acreditai bem que a nossa Igreja não se decide a essa penalidade dolorosa senão em último extremo. Tomemos um caso, como exemplo: prepara-se um casamento misto, mas a parte não católica não quer firmar o compromisso de fazer educar catolicamente os filhos. A Igreja Católica não pode admitir que sequer um só dos filhos de seus membros seja educado noutra religião, ela não procede ao casamento. As pessoas vão então casar-se na igreja de outra religião. Mas, desde esse instante, a parte católica afrontou a Igreja e se excluiu dela. Alguns anos depois, a sua consciência já não lhe deixa repouso, ela quereria confessar-se, mas não pode receber a absolvição, porque vive num matrimônio que não é válido para a Igreja, e não quer mudar de situação.

Sobrevém então a recriminação habitual: “A Igreja é cruel, sem coração, não deixa sequer a gente se confessar…”.

Entretanto, meus irmãos, dizei-me: quem foi que enveredou, num gesto de desafio, pelo caminho donde não pode volver? A Igreja sofre quando é obrigada a punir severamente certos filhos seus; mas não pode fazer de outro modo sem se tornar infiel ao mandato de Cristo.

***

Meus irmãos, sem Cristo não há salvação. Mas sem a Igreja também não há, pois a Igreja é Cristo vivo no meio de nós. “Não pode ter a Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe” (São Cipriano). Foi o que sempre afirmou o cristianismo; e ter-se-ia agora o direito de negá-lo? A religião de Cristo é a religião católica – e não cedemos nada desta crença. Mas, se afirmamos que a nossa religião é a verdadeira, não fazemos injuria a nenhuma outra; sabemos que a outra está no erro, e, no entanto respeitamos as suas convicções religiosas. Mas nunca cessamos de rezar para que chegue o dia em que se realize o maior anseio de Nosso Senhor: que haja um só rebanho e um só pastor.

Cada vez que criticarem levianamente diante de nós a Santa Igreja, lembremo-nos destas palavras de Santo Agostinho (Enarratio in psalm, LXXXVIII):

Amemos o Senhor, Nosso Deus; amemos também a sua Igreja. Deus, como nosso Pai, a Igreja como nossa Mãe… De que serve confessardes o Senhor, venerar e glorificar a Deus, confessar também seu Filho e reconhecerdes que Ele está sentado à direita de Deus, se ao mesmo tempo desprezais a sua Igreja?… Por isto, irmãos, mantende-vos todos unânime e corajosamente junto de deus, nosso Pai, e da Igreja, nossa Mãe”. E cada vez que, numa sociedade leviana, ofenderem a nossa santa religião lembrai-vos do aviso de São Paulo: “Exorto-vos, irmãos, a tomardes cuidado com esses que causam as desuniões e os escândalos, afastando-se do ensinamento que haveis recebido; afastai-vos deles. Porque tais homens não servem a Cristo Senhor Nosso… O Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo de vossos pés. A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco!” (Rm 16, 17-20).

(Toth, Mons. Tihamer. A Igreja Católica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1942, p. 147-159)