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O Anjo Gabriel congratula a Maria:

Por suas excelentes prerrogativas

O Anjo congratula a Maria por suas excelentes prerrogativas:

Ave, gratia plena — Salve, ó cheia de graça

Com estes termos saúda o espírito celeste a Santíssima Virgem, como embaixador da augusta Trindade, para lhe anunciar a mais importante, a mais feliz de todas as notícias, a Encarnação do Verbo. Cheio de veneração e respeito para com aquela que já considera sua soberana, o mensageiro celeste não a chama pelo próprio nome, apelida-a cheia de graça, o que encerra o mais completo elogio desta mulher bendita e tudo quanto se pode dizer de mais glorioso em sua honra. Realmente esta Virgem admirável era cheia de graça por todos os modos; em seu espírito, em seu coração, em sua memoria, em seus afetos, palavras e obras. Possuía em supremo grau a graça santificante, as graças atuais, as virtudes sobrenaturais, os dons do Espírito Santo; e esta plenitude excedia os dons celestes de todos anjos e santos juntos. Unamo-nos ao arcanjo São Gabriel, e, penetrados dos mesmos sentimentos, congratulemos a nossa divina Mãe pelos tesouros espirituais, com que a enriqueceu a mão do Criador. Peçamos-Lhe que tenha piedade da nossa miséria, e que nos faça participantes das graças preciosas de que é enriquecida, e de que Deus a constituiu dispensadora em favor dos homens.

Por sua união íntima com Deus

O Anjo congratula a Maria por sua união intima com Deus:

O Senhor é convosco, lhe diz, Dominus tecum

É convosco, não só por sua presença e providência, como é com todas as outras criaturas, ou por sua graça e amor, como é com todos os justos; mas é convosco de um modo mais íntimo e especial, com particularíssima ternura. Quer apertar ainda mais os sagrados laços, que a Ele unem o vosso santíssimo coração, já consagrado e santificado por sua presença, e que vai ser um templo vivo onde o próprio Santo dos Santos estabelecerá sua morada, um santuário onde habitará corporalmente e onde será ao mesmo tempo encerrada a plenitude da Sua divindade e a da Sua humanidade. Nós participamos em certo modo da ventura da Santíssima Virgem, quando nos achamos em estado de graça. Deus, se apraz em habitar em nossa alma; chega até a declarar-nos que nela encontra as suas delícias; porém, quando a manchamos pelo pecado mortal, Deus a abandona e a entrega ao demônio! Que terrível desgraça! Ah! Peçamos à divina Maria que dela nos preserve para sempre.

Por sua elevação acima de todas as criaturas

O Anjo congratula a Maria por sua elevação acima de todas as criaturas:

Sois bendita entre todas as mulheres — Benedita tu in mulieribus

Sois favorecida e privilegiada sobre todas as criaturas. Semelhante à açucena nascida no meio dos espinhos, só vós fostes preservada da mancha do pecado; só vós sois pura, imaculada e ornada com todas as virtudes. Assim como Eva atraiu sobre os homens todas as maldições, vós atraístes sobre eles todas as bênçãos do céu. Os Anjos, os homens, todas as criaturas vos bendirão e darão mil louvores. Permita, ó minha divina Mãe, que eu una as minhas fracas homenagens às de vossos fiéis servos, e que celebre as vossas grandezas todos os dias da minha vida, até que alcance a ventura de vos bendizer, louvar e amar, como espero, por toda a eternidade.

ORAÇÃO

Ó minha Soberana! Ó Mãe do meu Salvador! Sois bendita entre todas as mulheres; sois a mais pura das virgens, a mais perfeita das criaturas; todas as gerações vos chamam por excelência bem-aventurada. Permita que, unindo o meu pequeno brado a este concerto admirável que de todas as partes se eleva e entoa à vossa glória, eu publique as vossas grandezas quanto me for possível publicá-las; vos ame quanto puder amar-vos; vos invoque quanto me achar em estado de vos invocar; contribua para vos fazer honrar, quanto as minhas forças, o meu zelo e o meu amor para isso poderem contribuir. Quisera ver todo o universo prostrado a vossos pés, todos os corações abrasados no vosso amor, para que todos chegassem a amar o vosso divino Filho, como vós o amastes neste mundo e como sempre o amareis no céu. Ó minha Mãe amabilíssima, peço-vos instantemente esta graça, por muito que seja indigno de obtê-la.

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

A Ave Maria do revolucionário

Laly, capitão de um dos navios de guerra que, fundeados na ilha de Ré, servia de prisão aos padres exilados, era um terrorista feroz!

As violências e crueldades que exercia com os pobres prisioneiros ultrapassavam tudo quanto se possa imaginar. Uma das vítimas dessa barbaridade inaudita fôra um padre ainda novo, Mr. Adão, que resistiu aos infortúnios do exílio, e alguns anos depois foi como capelão para um regimento que fazia parte da guarnição da dita ilha, na qual vivia ainda Laly, o antigo capitão, com tanta razão alcunhado — O carrasco dos padres.

Um dia em que o Padre Adão passava numa rua acompanhado do abade Hontaug, encontrou Laly. Ao vê-lo, o seu primeiro movimento foi correr-lhe ao encontro, mas o abade Hontaug, que conhecia o gênio ardente do seu colega, temendo um lamentável conflito, impediu-lhe a passagem dizendo:

“Perdoa-lhe!” — “Nada tens que temer, respondeu-lhe tranquilamente o respeitável sacerdote, eu apenas desejava saber se esse miserável me conhece”

O padre Hontaug, sorriu-se, porque não duvidava de que Laly tivesse reconhecido o padre Adão, a quem a sua gigantesca estatura e rara distinção tornavam tão fácil de reconhecer.

“Pois bem, meu amigo, vou proporcionar-te o meio de vos verdes face a face, segue-me”

Laly dirigiu-se para uma mesquinha habitação, onde vivia uma existência mais mesquinha ainda. Os dois padres seguiam-no a distância.

Dificilmente se poderá descrever o triste espetáculo que se lhes ofereceu à vista, ao pararem no limiar dessa pobre mansarda! A um dos lados via-se uma infeliz mulher, envelhecida pela miséria e pelo sofrimento, do outro, crianças raquíticas cobertas de farrapos e em pé; e, no meio desta lúgubre morada, Laly com o olhar amortecido pelo infortúnio, e atormentado pelos remorsos.

O Padre Adão entrou, e com uma voz que revelava a profunda compaixão que nesse momento o dominava disse-lhe:

“Laly, conheces-me?”

O desgraçado conservou a cabeça inclinada, como que esmagado sob o enorme peso de terríveis recordações, e, com lábios trêmulos, murmurou apenas estas palavras:

“Sim senhor, conheço” — “Pois bem, visto que me reconheces, olha como um padre se vinga!”

E dizendo isto, o digno ministro do Deus do Calvário pousou sobre a mesa do miserável vinte moedas de ouro!

Decorreram 20 anos. Durante este tempo a Justiça divina exerceu-se sobre Laly, fazendo-o sofrer todas as torturas que ele tinha infligido às suas vitimas. A fome, a sede, a nudez e as mais terríveis doenças, conduziram-no por fim a um asilo aonde a caridade cristã lhe abriu os braços.

Muitas vezes o capelão do hospital de São Martinho de Ré tentou fazer despertar o arrependimento nesse coração endurecido; mas a hora destinada por Deus não tinha soado, e o digno sacerdote obtivera apenas em resultado a mais obstinada recusa e as mais grosseiras injúrias!

Num dia, porém, que o bom padre passava pela enfermaria, ouviu que o chamavam; voltou-se e reconheceu que era Laly, que lhe dirigiu as seguintes palavras:

“Padre, peço-lhe o favor de amanhã, às 8 horas da manhã, me esperar na capela”

Imensa alegria inundou o coração do sacerdote! Que longo lhe pareceu o intervalo que o separava do momento em que ia arrancar esta alma à tirania do espírito infernal, ao desespero e aos remorsos, dando-lhe em troca a felicidade e a paz!

No dia seguinte, antes da hora marcada, o capelão estava no seu posto, pedindo a misericórdia de Deus para essa alma que tão manchada tinha sido pelo pecado, e para si a caridade e o zelo de que tanto carecia, para ser o seu médico e consolador.

Deram oito horas e Làly entrou na capela.

A doença, que há muito o torturava, reduzira-o a uma extrema magreza e o ar de sofrimento dava-lhe à fisionomia, ordinariamente severa, um caráter mais acentuado.

Percorreu rapidamente com a vista o recinto sagrado, como receoso de que alguém escutasse a sinceridade da sua confissão e a livre expansão do seu arrependimento. Depois fixou os olhos no altar e, como se visse ali aquele Deus de bondade de quem tinha sido encarniçado perseguidor, estremeceu violentamente e um grito rouco se lhe escapou do peito.

“Oh! murmurou ele; tu aqui Laly!” — “Mas a consciência, respondeu-lhe: — “Sim! Para remires uma vida de crimes, e obteres pelo arrependimento o perdão!”

Laly caiu de joelhos e orou! Orou Àquela a quem sua pobre mãe lhe tinha feito prometer que jamais esqueceria; implorou a proteção de Maria, refúgio dos pecadores, e depois desta fervorosa oração, ao meio de todos os mistérios de uma vida de desvarios e de crimes, confessou ao digno ministro do Senhor, que em dia nenhum, durante toda a sua vida, nem mesmo no meio dos maiores furores revolucionários, tinha deixado de rezar uma Ave Maria, cumprindo assim uma solene promessa que fizera a sua pobre mãe agonizante!

OUTRO EXEMPLO

São Luiz e o Rosário

Foi o Rosário quem deu à França o mais poderoso e o mais santo dos monarcas.

A piedosa rainha Branca, conversando um dia com São Domingos, manifestou-lhe o profundo desgosto que sentia por não ter filhos.

“Ah! dizia ela, se Deus se dignasse conceder-me um filho, que pudesse vir a ser um dos mais fervorosos defensores da religião de Cristo, com que cuidado eu o educaria para tão alto mister!”

— Pois se quereis ver realizados os vossos desejos, disse o Santo à piedosa princesa, recitai com essa intenção o terço do Rosário e fazei-o recitar pelas pessoas das vossas relações. Se fizerdes isto com inteira confiança no valiosíssimo patrocínio da Santíssima Virgem, atrevo-me a asseverar-vos que obtereis o fruto de benção que tanto desejais. Deus dignar-se-á, pela intercessão de tão bondosa Mãe, conceder-vos um filho que virá a ser o mais santo monarca de França!”

D. Branca de Castilho seguiu à risca o conselho do santo. Não contente de recitar amiudadas vezes e devotamente o terço, trabalhou quanto possível para propagar na sua côrte a devoção do Rosário.

A Santíssima Virgem não foi insensível à confiança da virtuosa princesa, porque, um ano depois, dava ela à luz um filho, que veio a ser nada menos do que São Luiz Rei de França.

Nunca esta piedosa mãe cessou de repetir ao filho que devia a vida a Nossa Senhora do Rosário, e por isso é que São Luiz se distinguiu desde a sua infância pela mais terna devoção a Maria Santíssima, particularmente sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário.

Legou esta devoção a seus descendentes e a história nos relata bastantes fatos que provam a grande devoção que a casa real de França conservou sempre pelo Rosário.

Viam-se os membros desta ilustre família, assistir regularmente à procissão do 1.° domingo de cada mês, em honra de Nossa Senhora do Rosário; faziam inscrever seus filhos, alguns dias depois de nascidos, no registro da sua Confraria; e Luiz 14 distinguiu-se tanto nesta devoção que não passava um único dia sem que recitasse devotamente o Terço.

LIÇÃO
Sobre o poder da Oração

Deus, sempre pronto em derramar Suas graças, convida-vos a pedir-lh’as com muita confiança.

A falta de confiança é ordinariamente sinal de uma fé muito débil; daqui provém tantas orações infrutíferas.

Não é necessário esperar momentos favoráveis para oferecer a Deus o tributo dos nossos lábios. Ele está sempre disposto a ouvir-nos. Diz-nos incessantemente:

“Pedi e recebereis; todo o que pede, recebe”

Filhos de um Deus tão bom que a ninguém rejeita, tão rico que a todos dá, como cuidamos tão pouco em pedir-lhe graças para nós e para o próximo?

É verdade que, apesar de repetidas instâncias, algumas vezes não concede Deus o que se lhe pede; mas então concede-nos coisa mais necessária ainda.

Há muitos anos que pedis ser livre de uma enfermidade corporal, não vos livra Deus dela, dá-vos porém uma grande paciência para a suportar. Eis o fruto da vossa oração. E não é isto ser ouvido?

Muitas vezes o que nos parece um bem, e como tal pedimos a Deus, seria um mal se Ele o concedesse.

Convém fazer mais caso das graças da salvação e santificação, do que das graças puramente temporais. Pedi-las em nome de Jesus Cristo e por intercessão de Maria, pois que suas súplicas tudo podem perante Deus e jamais são rejeitadas.

Máxima Espiritual

“Toda a nossa riqueza está na oração: quem ora consegue tudo o que quer” – Santo Afonso Maria de Ligório

Jaculatória

Virgo veneranda, Virgo praedicanda, ora pro nobis

Virgem digna de veneração, Virgem digna de louvor, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 143-153)