Meditação para o Sábado da 6ª Semana depois da Epifania

SUMARIO

Como amanhã, nas primeiras vésperas, começa o tempo da Septuagésima, veremos:

1.° As razões que há para passar santamente esta época do ano;

2.° A maneira de a passar santamente.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos entregarmos especialmente ao espírito de meditação e de oração;

2.° De mortificarmos alguma coisa a vontade de comer e de beber.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo:

“Eis aqui agora o dia da salvação” – Ecce nunc dies salutis (2Cor 6, 2)

Meditação para o Dia

Adoremos a Deus, dirigindo-nos, à entrada do santo tempo da Septuagésima, a parábola do bom Pai de família, que chama os trabalhadores para a sua vinha, isto é, para o cuidado da sua salvação. Mil graças, meu Deus, por este chamamento, que me faz o Vosso amor no Evangelho de amanhã; apresento-me diante de vós para me animar e responder-lhe, meditando à Vossa vista as razões que há para passar santamente este tempo. Ajudai-me a penetrar-me delas, e a conformar a minha vida com elas.

PRIMEIRO PONTO

Razões que há para passar santamente o Tempo da Septuagésima

1.° A igreja, no seu ofício, torna a dirigir os nossos pensamentos para a criação, a fim de nos lembrar que fomos criados por Deus, feitos para Deus, por conseguinte que devemos pertencer inteiramente a Deus. Dai transporta-os à queda de Adão, seguida da nossa degradação original, para nos dizer que, pecadores por natureza, devemos entregar-nos à penitência. A fim de melhor nos inculcar esta disposição, suprime na missa as vestimentas do diácono e do subdiácono, exclui de todos os seus ofícios a Aleluia e a Glória in excelsis, que são cânticos festivos; refere na epístola deste dia os padecimentos do Apóstolo com as suas lutas contra a sua própria carne, e no Evangelho o convite do pai de famílias aos jornaleiros, que ele chama para a sua vinha, seguido da terrível declaração do pequeno número dos escolhidos. Ora que há mais próprio do que estas santas coisas para animar-nos a passar santamente o tempo em que vamos entrar?

2.º Quanto faz a Igreja por nos excitar a passar santamente os dias que vão seguir-se até à Quaresma; quanto faz o mundo por nos induzir a passá-los na desordem, nos regalos, nas diversões profanas, nas danças e nos espetáculos! Ora este procedimento do mundo, em vez de arrastar-nos para o mal, deve levar-nos para o bem. Um coração que ama a Deus, sente-se impelido a amá-lo mais, à proporção que os outros o amam menos, e a fazer-lhe reparação pelas ofensas de outrem, com um acréscimo de amor. Um coração que ama o próximo, aflige-se de ver os seus irmãos perderem-se, e faz penitência por aqueles que a não fazem; ama por aqueles que não amam, e ora pela sua conversão.

3.° Se, empregando santamente estes dias, nos prepararmos como deve ser para a Quaresma, Deus recompensará com graças especiais o zelo que tivermos em entrar no espírito da Igreja, em reparar a Sua glória ultrajada, em salvar os nossos irmãos que se perdem; e mais tarde receberemos as abundantes graças anexas aos abençoados dias da Quaresma. Penetremo-nos bem destas santas considerações.

SEGUNDO PONTO

Maneira de passar santamente o Tempo da Septuagésima

1.° Convém que nos entreguemos, durante estes dias, ao espírito de meditação e de oração. Já que o mundo está inteiramente ocupado nas coisas exteriores, na busca dos prazeres sensuais, nós, filhos da Igreja, chamados a reparar os desmanchos do mundo, devemos estar ocupados nas coisas interiores, unidos a Deus para O adorar, O amar, O implorar, Lhe agradecer, Lhe oferecer todas as nossas obras e fazer tudo por Seu amor. Perca-se o mundo na dissipação e no esquecimento de Deus; quanto a nós, concentremos o nosso espírito e coração em Deus, façamos melhor as nossas orações e obras costumadas, oferecendo-as ao céu como outras tantas hóstias expiatórias pelos pecados da terra, e repitamos o brado dos Santos:

«Perdoai, meu Deus, aos que Vos não amam. Quisera ter todos os corações dos homens na minha mão para os lançar todos no fogo do Vosso santo amor»

2.° Convém que mortifiquemos a nossa vontade de comer e de beber. O luxo da mesa é um dos principais desvarios do mundo durante estes dias. Para o expiar e o reparar, é justo que se cerceie a sensualidade, e se oponha alguma privação a esta mania dos prazeres.

3.º Convém que nos apliquemos, sobretudo, à primeira das mortificações, que consiste em combater o defeito dominante. Fizemo-lo bem à entrada deste santo tempo; e combatamo-lo todos os dias com atos contrários.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 313-315)