Capítulo 22. Reflexões sobre o Amor - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
O EU tem uma maneira peculiar de disfarçar as verdadeiras razões do seu amor. Pode dar a aparência de interesse pela felicidade de outrem, quando, na realidade, está buscando o prazer próprio.

Há muita gente que gosta de vangloriar-se da sua tolerância, mas o que afinal a inspira é o egoísmo; porque desejam que não se toque nas suas próprias ideias, por mais errôneas que sejam, advogam a tolerância das ideias dos outros. Mas esta espécie de tolerância é muito perigosa, porque, quando o eu é incomodado ou ameaçado, converte-se em intolerância. É por isso que uma civilização que é tolerante das falsas ideias, em lugar de ser benevolente com as pessoas, está em vésperas duma grande onda de intolerância e perseguição.

O egoísta considera sempre o seu eu como não tendo ou precisando de alguma coisa. O princípio fundamental da sua ação é puxar a si o que ainda não lhe pertence, como a boca que absorve alimento. Para ele não há qualquer entrega, qualquer serviço, nem qualquer sacrifício, porque considera o sacrifício como uma diminuição da personalidade.

O amor verdadeiro, pelo contrário, sente que a necessidade de dar é mais imperiosa que a necessidade de receber. Quando se principia a amar, há sempre a sensação de nunca poder dar bastante. Por mais preciosa que seja a dádiva, sempre lhe parece inferior ao que queria dar. As etiquetas do preço são arrancadas, porque desejamos não estabelecer proporção alguma entre a dádiva e a necessidade de dar. A tragédia do amor, quando começa a morrer, é que, então, nem sequer se dá o que se tem. Já não há a questão de não se poder dar bastante; o que há é a recusa absoluta de dar.

Há, no amor real, compaixão e necessidade. Compaixão, no sentido de que se sente um impulso de comunicação, um impulso de dar até ao esgotamento; necessidade, por causa dum vazio que se queria ver cheio. O verdadeiro amor recebe, sem mesmo procurar saber o que é dado. Não procura outro motivo que não seja o do próprio amor. Aquele que pergunta «por que» é dada uma coisa, não confia.

Uma das tragédias do nosso tempo é interpretar a liberdade como sendo o livrar-se de alguma coisa, em lugar de a interpretar como amor. O homem que a todos ama, é livre; o homem que odeia, já se escravizou a si mesmo. O homem que odeia está dependente do que não pode amar e, portanto, não é livre. Odiar o próximo que mora na casa vizinha é restrição à liberdade. Terá que circundar o quarteirão residencial para não ser visto, ou de esperar que o vizinho saia para também poder sair.

São os nossos amores e desejos que determinam as nossas penas. Se o nosso amor supremo for o prazer do corpo, então a nossa maior pena é a perda da saúde; se o nosso amor supremo for a riqueza, então o nosso desgosto mais profundo é a ignorância; se o nosso amor supremo for Deus, então o nosso maior receio é o pecado.

O grande mistério não é a razão por que amamos mas por que somos amados. É fácil entender a razão por que amamos, em virtude da nossa imperfeição e insatisfação por tudo que não seja a bondade completa. Mas a razão por que alguém nos ama, é um mistério, porque, quando olhamos para nós mesmos, sabemos quão pouco amáveis somos. A razão por que as outras criaturas nos amam, não é um mistério demasiado, porque também são imperfeitas. Mas a razão por que Deus nos ama — isso é que nunca entenderemos. À alma que, finalmente, chegou a amar a Deus, é atormentada pelo pensamento de ter perdido tanto tempo. Como dizia Santo Agostinho:

«Tão tarde Te amei, ó Beleza antiga»

Mas, por outro lado, tal tristeza é compensada pelo conhecimento de que sempre esteve no plano divino que, um dia, chegássemos a conhecer a Deus.

Gostamos de nos ver idealizados na mente dos outros. É esta uma das belas alegrias do amor. Tornamo-nos puros, inocentes, corajosos, fortes na mente do amado. O amor encobre a corrupção da alma. O inverno do pesar é esquecido, porque é revestido da florescência de uma nova primavera. Depois de certo tempo, o amante começa a substituir o que ele é, realmente, no eu espírito pelo que é no espírito do outro. É esta idealização o que agrada ao amor. Por isso o amor é um incentivo à perfeição. Quando o outro pensa bem de nós, esforçamo-nos por merecer essa opinião. O fato de os outros nos considerarem bons é um grande incentivo à bondade. É essa também a razão por que um dos princípios básicos da vida deve ser supor que nos outros há bondade; e, dessa maneira, os tornaremos bons.

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 83-86)