Capítulo 9. O Subterrâneo - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
TEM o mundo moderno um estranho amor ao subterrâneo… às caves profundas e escuras da existência humana, à introspecção, à análise das regiões subconscientes da nossa vida. Esta atração é, em parte, uma reação contra o extremo oposto. Há cem anos, julgavam os homens que a sua vida alcançara um novo e mais alto escalão. Falavam dum progresso fatal, da vitória sobre a morte, da transformação dos homens em deuses, da conversão da terra num Paraíso.

Agora, a presunção dos nossos antepassados deu lugar ao desespero atual. O homem, que sofreu a vertigem duma altura artificial, caiu no abismo do mais terrível desespero. O seu entusiasmo desmedido degenerou em tédio, a sua esperança em prazeres mais intensos deu lugar à saciedade, a sua demasiada complacência em inebriantes expectativas abriu caminho à náusea.

Dois grupos de peritos do subterrâneo apareceram, nos tempos modernos: um deles analisa os trabalhadores, sob o aspecto de «massa», o outro estuda o subconsciente da alma do indivíduo. Só quando perdem o sentido de responsabilidade e auto-domínio, as pessoas se tornam «massa», que pode ser manipulada por um ditador. Em tal estado, podem tornar-se presa de forças estranhas; esse é o primeiro requisito exigido pelo estado totalitário. E estudam-no os comunistas e os fascistas.

O segundo grupo de peritos do subterrâneo são aqueles que consideram como seu campo de ação a parte sub-racional, involuntária, sub-humana da inteligência do homem: o seu subconsciente, para o qual o espírito atira os enjeitados sobejos do pensamento. O subconsciente tem, de fato, certa influência no procedimento do homem; mas não é o único fator, nem o que tem a última palavra. Uma falha na bolota, de que germinou um carvalho, pode explicar algo da forma que este tomou; a luz, porém, e o calor e as forças invisíveis da vida são, igualmente, responsáveis pelo seu estado presente.

Estes grupos gêmeos de estudiosos do subterrâneo indicam-nos os sinais do nosso tempo; na verdade, os homens sempre propenderam a imaginar que o inferno se situa nas regiões inferiores, como, por exemplo, Vergílio, e, embora a Igreja nunca tenha posto a questão da geografia do inferno, a imaginação popular situa-o debaixo da terra. Por consequência, sempre que o interesse do público converge para as profundezas nebulosas da psique, há uma possibilidade psicológica de que a questão do inferno esteja a atuar no espírito duma geração inteira de pensadores e leitores.

Os que fixam a sua atenção no subconsciente, os que esperam que, pelo estudo da «libido» e dos instintos sexuais, possam resolver os problemas da vida, andam a procurar a felicidade nas «sub-regiões», onde ela se não encontra. É que somente no uso da razão e da vontade (que são semelhantes a Deus) podem os seres humanos encontrar a paz. A tragédia dos nossos dias é o desespero dos que triunfaram: a sua infelicidade não tem origem no malogro dos seus planos, mas no fato de que, tendo-os realizado, não se viram felizes. O Tudo que aspiravam ter (benefícios materiais e triunfos temporais), uma vez possuído, converteu-se no Nada. E o Nada é o polo oposto de Deus e da Sua criação. O inferno é o eu engorgitado com os seus próprios desejos satisfeitos, tendo de se devorar a si mesmo para sempre, sem esperança de libertação.

O mundo de hoje espera uma ressurreição. As massas, que estão subjugadas por poderes ditatoriais, esperam que a cabeça da serpente seja decepada, para assim se tornarem livres, para atuarem por seu próprio arbítrio, como foi o caso, quando a nossa Constituição foi escrita. E assim estabeleceu que «Nós, o povo dos Estados Unidos», nomeamos e estabelecemos um governo. De modo semelhante, os indivíduos, que estão fechados na miséria do seu subconsciente, que agem sob a influência de forças animais e instintivas, carecem duma ressurreição para os fazer subir da cova, onde a saciedade os sepultou. Também eles anseiam pela luz.

Há vida no ovo, mas, para essa vida aparecer, é preciso quebrar a casca. Igualmente, há vida nas massas espoliadas e na alma sepulta e desiludida de cada homem. Mas, para ambos, também a casca que os envolve tem de ser quebrada e quebrada de fora. Exigirá isto um Poder, que não é humano, mas Divino.

O que cada alma deve perguntar a si mesma é se deseja continuar a viver dentro da casca, ou se quer chegar até à incubação espiritual. Os que vivem dentro dessas cascas, podem sair delas, se permitirem que Deus os liberte, esmagando a casca egoísta, em que se escondem da Sua Luz.

É esta uma séria pergunta a que se há-de responder. Porque aqueles que recusarem tomar a sério qualquer pergunta moral ou espiritual, acabarão por tomar a sério o Nada, que é a região do eterno subterrâneo. Mas, se tomarmos a sério a alma, a tudo o mais poderemos dar muito pouca importância. É este o princípio da felicidade, aqui e na vida futura.

Voltar para o Índice do livro Rumo à Felidade, de Fulton Sheen

(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 31-34)