Dom Henrique Soares da Costa

Meditação XXIV – quarta-feira da IV semana da Quaresma

Por Dom Henrique Soares da Costa

Reze o Salmo 118/119, 17-24:

17Concede ao teu servo uma longa vida
e eu cumprirei as tuas palavras.
18Abre os meus olhos
para que eu veja as maravilhas da tua lei.
19Sou um peregrino nesta terra;
não me escondas os teus mandamentos.
20A minha alma suspira sem cessar,
desejando conhecer os teus juízos.
21Tu repreendes os soberbos;
amaldiçoas os que se afastam dos teus mandamentos.
22Livra-me dos seus insultos e desprezos,
porque tenho cumprido os teus preceitos.
23Ainda que os grandes conspirem contra mim,
o teu servo meditará nas tuas leis.
24Os teus preceitos são as minhas delícias;
são eles os meus conselheiros.

Leitura da Epístola de São Paulo aos Gálatas 4, 8-11:

8Mas outrora, quando não conhecíeis a Deus, servistes os deuses que, na realidade, o não são. 9Agora, porém, tendo conhecido a Deus, ou melhor, sendo conhecidos por Deus, como é possível que vos convertais outra vez aos elementos fracos e pobres, querendo novamente ser escravos deles?

10Observais os dias e os meses, as estações e os anos! 11Temo, a vosso respeito, que afinal tenha sido em vão o trabalho que suportei por vós.

1. Neste ponto, o Apóstolo volta a interpelar diretamente os gálatas: quando eles eram ainda pagãos, não conheciam o Deus verdadeiro, o Deus de Israel, o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo; serviam aos ídolos, a falsos deuses, frutos da saudade que o homem tem do Infinito, mas também das paixões enganos humanos (cf. Rm 1,18-25). Isto vale plenamente ainda hoje para os pagãos dos nossos dias: não conhecem a Deus, vivem na ilusão de ideologias e paixões e, mesmo os que têm boa vontade, caem nas armadilhas de uma racionalidade presa nas suas próprias medidas. Os pagãos todos são homens carnais ou, na melhor das hipóteses, homens psíquicos. Somente em Cristo, sendo batizados e se deixando guiar pelo Espírito de Cristo, tornam-se homens espirituados ou espirituais (cf. 1Cor 2,12-15; Gl 5,16-21)! É triste, mas aqueles que não servem ao Deus verdadeiro, servem à mentira e à ilusão! Que fique bem claro: o respeito profundo que devemos a todas as pessoas e às suas convicções religiosas, filosóficas e de consciência não devem obscurecer em nós a clareza da verdade e da unicidade do Deus vivo e verdadeiro, revelado por Jesus nosso Senhor na força do Seu Espírito (cf. 1Cor 8,5s)!

2. No v. 9, São Paulo coloca um “mas agora”…Os gálatas conheceram o Cristo pelo Evangelho de Paulo; converteram-se ao Senhor; tudo mudou:

“Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura!” (2Cor 5,17)

Em Cristo, os gálatas conheceram o Deus verdadeiro (cf. Jo 4,22; 1Ts 1,9); mais ainda: foram conhecidos por Ele! Em outras palavras: antes mesmo que eles acolhessem a pregação, Deus os procurou. Leia Jo 6,44-47; 12,31s… Aparece aqui, de modo belo a gratuidade do Senhor que vem a nós por pura iniciativa de graça e nos atrai a Si (cf. Ef 2,1-10).

Pense um pouco: se cremos, é por graça de Deus; Ele nos atraiu a Si, Ele nos concedeu o maravilhoso dom da fé! Reze, agradeça, peça ao Senhor que sustente e aumente a sua fé. Reze o Sl 118/119,169-176… Reze também o Sl 138/139.

3. “Como é possível voltardes novamente a esses fracos e miseráveis elementos aos quais vos quereis escravizar outra vez? Observais cuidadosamente dias, meses, estações, anos!” (vv. 9b-10)

São Paulo se escandaliza com os gálatas! Eles nem judeus eram – nunca o foram! Como, então, depois de terem conhecido a Cristo, depois de terem recebido o Espírito de Cristo no Batismo, depois de terem experimentado a força e os dons do Espírito, como podem agarrar-se à Lei de Moisés (cf. Gl 3,3-5)? Como podem, depois de experimentarem o Espírito do Cristo colocarem-se debaixo de uma Lei dada por anjos, como já vimos anteriormente na meditação XV, tópico 3 (cf. Gl 3,19-21)? Como podem dar valor às observâncias judaicas: guardar o sábado, o Dia da Expiação, as luas novas mensais, as festas judaicas, a distinção entre alimentos puros e impuros, as proibições da Lei de Moisés? Tudo isto passou! Leia atentamente Cl 2,16-23.

Atenção: no cristianismo, existem sim práticas de piedade, mas nada é absoluto em si: tudo somente tem valor se remeter a Cristo e a salvação por Ele trazida! O cristão está totalmente livre das práticas de Lei de Moisés. É um lamentável engano e um sinal de supina ignorância a volta ao Antigo Testamento e a certas práticas que vemos em tantas seitas pentecostais. E se vangloriam disto gritando:

“É bíblico! É bíblico!”

Não! É somente volta a práticas totalmente superadas em Cristo Jesus! Como já afirmei tantas vezes, o Antigo Testamento somente pode ser compreendido no seu valor e no seu limite se for lido e interpretado à luz do Cristo!

4. Por fim, o Apóstolo desabafa:

“Receio ter-me afadigado em vão por vós!” (v. 11)

É o grito amoroso de um pai na fé que sofre por ver seus filhos em Cristo se desviarem por doutrinas erradas e enganosas, por novidades que não condizem com a pregação apostólica (cf. 2Tm 4,1-4). Quanto disto nós vemos hoje em dia: séculos depois de pregação apostólica ininterrupta, as interpretações arbitrárias, rasas e fundamentalistas das Escrituras levando tantos insensatos a erros grosseiros… Deixam de lado a fé apostólica, o ensinamento dos Santos Padres da Igreja dos primeiros séculos, a segura e firme doutrina espiritual dos grandes místicos cristãos de todos os séculos, o magistério constante da Igreja, tudo isto selado pelo sangue de tantos mártires, para irem atrás de qualquer pregador de qualquer doutrina exótica, agarrados à letra da Escritura e perdendo de vista o Espírito de Cristo que a inspirou a guia a Igreja na sua interpretação! Como vale aqui aquela palavra da própria Escritura:

“Foi Ele quem nos tornou aptos para sermos ministros de uma Aliança nova, não da letra, mas sim do Espírito, pois a letra mata, mas o Espírito comunica a Vida” (1Cor 3,6)

5. Reze o texto de Is 49,1-4. Este texto refere-se primeiramente ao Servo Sofredor, que é o Cristo; mas, pode ser aplicado a todos os que, unidos ao Cristo, servem ao Reino de Deus. Os vv. 1-4 exprimem bem o trabalho e desilusões do Apóstolo São Paulo.

Pensando nos pagãos, que seguem sua própria medida de racionalidade, medite e reze Sb 9,13-18.