Dom Henrique Soares da Costa

Meditação IV – Segunda-feira da I semana da Quaresma

Por Dom Henrique Soares da Costa

Reze o 118/119, 25-32:

25A minha alma está prostrada por terra;
dá-me vida segundo a tua palavra.
26Expus-te os meus caminhos e Tu me respondeste;
ensina-me as tuas leis.
27Faz-me compreender o caminho dos teus preceitos
para meditar nas tuas maravilhas.
28A minha alma chora de tristeza;
reconforta-me, segundo a tua palavra.
29Afasta-me dos caminhos da mentira;
concede-me a graça da tua lei.
30Escolhi o caminho da verdade
e preferi as tuas sentenças.
31Abraço as tuas ordens;
não permitas, SENHOR, que seja confundido.
32Correrei pelo caminho dos teus mandamentos,
porque deste largas ao meu coração.

Leitura da Epístola de São Paulo aos Gálatas 1, 11-24:

11Com efeito, faço-vos saber, irmãos, que o Evangelho por mim anunciado, não o conheci à maneira humana; 12pois eu não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por uma revelação de Jesus Cristo.

13Ouvistes falar do meu procedimento outrora no judaísmo: com que excesso perseguia a Igreja de Deus e procurava devastá-la; 14e no judaísmo ultrapassava a muitos dos compatriotas da minha idade, tão zeloso eu era das tradições dos meus pais.

15Mas, quando aprouve a Deus – que me escolheu desde o seio de minha mãe e me chamou pela sua graça – 16revelar o seu Filho em mim, para que o anuncie como Evangelho entre os gentios, não fui logo consultar criatura humana alguma, 17nem subi a Jerusalém para ir ter com os que se tornaram Apóstolos antes de mim. Parti, sim, para a Arábia e voltei outra vez a Damasco.

18A seguir, passados três anos, subi a Jerusalém, para conhecer a Cefas, e fiquei com ele durante quinze dias. 19Mas não vi nenhum outro Apóstolo, a não ser Tiago, o irmão do Senhor. 20O que vos escrevo, digo-o diante de Deus: não estou a mentir.

21Seguidamente, fui para as regiões da Síria e da Cilícia. 22Mas não era pessoalmente conhecido das igrejas de Cristo que estão na Judeia. 23Apenas tinham ouvido dizer: «Aquele que nos perseguia outrora, anuncia agora, como Evangelho, a fé que então devastava.» 24E, por causa de mim, glorificavam a Deus.

1. “O Evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, pois eu não o aprendi de algum homem, mas por revelação de Jesus Cristo”. Afirmação impressionante, esta! O Evangelho, isto é, o anúncio de Cristo e a doutrina que daí decorre não é segundo a lógica humana, segundo a medida humana. O Evangelho não é sob medida para “agradar os homens”.

Pense: Qual a lógica do Evangelho? É a lógica da Cruz de Cristo, Cruz que é sinal de total obediência amorosa ao Pai e total amor aos irmãos. Esta Cruz é loucura, é falta de sentido para o mundo. Leia e reze 1Cor 1,17-31.

2. Agora, reflita nos seguintes pontos:

a) O Evangelho não é contra a lógica humana ou a sabedoria humana, mas as ultrapassa; não se deixa limitar ou julgar por elas. Preste bem atenção: é o Evangelho que julga o mundo e o transfigura, não é o mundo que julga e rebaixa o Evangelho. Quem adéqua o Evangelho ao mundo “não é amigo de Cristo”.

Responda com sinceridade diante de Cristo e da sua consciência: na sua vida, qual é o critério: o Evangelho ou o mundo? Seu coração adéqua o mundo ao Evangelho para converter sua vida ou o Evangelho é rebaixado ao mundo?

b) O mundo, simplesmente pela medida da sua lógica, da sua sabedoria, jamais poderá acolher de verdade a lógica do Evangelho e suas exigências. A sabedoria humana, para chegar à medida do Cristo, tem que abrir-se verdadeiramente à loucura de Cruz! Isto exige de todos nós, o tempo todo, conversão! Nunca esqueça: você somente poderá compreender o pensamento do Senhor Deus se se deixar conduzir pelo Cristo, deixando-se a você mesmo: seus pensamentos, sua lógica, sua medida, seu cálculo humano… E isto é um processo que dura a vida toda!

3. É indispensável que compreendamos que o Evangelho, isto é, o anúncio cristão e suas consequências, não é obra humana, mas vem de Deus e deve ser acolhido na “obediência da fé” (Rm 1,1-5). Isto: a fé exige a obediência amorosa! Crer é entregar-se ao Senhor, é deixar-se por Ele conduzir, a Ele convertendo-se continuamente (cf. Jo 8,12).

4. Nos vv. 13-14, o Apóstolo recorda sua situação passada: era inimigo visceral da Igreja de Deus! Não esqueçamos: ser inimigo da Igreja de Deus é ser inimigo de Cristo:

“Saulo, Saulo, por que Me persegues?” (At 9,4s)

Quando falamos Igreja, o que queremos dizer? A comunidade dos discípulos do Cristo, na qual se entra pelo Batismo e na qual se mantém e se cresce pela Eucaristia, sacramentos da comunhão com o Senhor e os irmãos. Isto é a Igreja, com seus vários carismas e ministérios, seus pastores legítimos e seus inúmeros profetas, homens e mulheres cheios do Espírito de Deus, sempre suscitados e sustentados por este mesmo Santo Espírito de Cristo.

5. Observe ainda a situação de Paulo no judaísmo: mesmo com reta intenção e com zelo, ele estava nas trevas! Havia escamas no olhar do seu coração e, por isso, nos seus olhos; somente quando a luz de Cristo brilhou para ele, as escamas da cegueira caíram dos seus olhos e do seu coração. Leia At 9,10-19; 2Cor 3,12-17.

Pense bem: Cristo é necessário a todo homem que vem a este mundo! Anunciá-Lo, falar Dele, proclamá-Lo sem medo nem meios termos é dever de amor de todo cristão, pois “não há, debaixo do céu, outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4,12).

6. Releia agora os vv. 15-24. Observe:

a) São Paulo sabe que foi chamado por Deus, o Pai, desde o seio materno. Mais que chamado: foi separado, consagrado para o Evangelho de Deus (cf. Rm 1,1). Isto é um trabalho, uma luta e, ao mesmo tempo, uma graça! Também cada cristão, em certo sentido, de acordo com sua vocação e seu estado de vida, tem um compromisso em relação ao Evangelho: pode ser testemunhá-lo em família, sobretudo na educação dos filhos, no trabalho, na paróquia… Qual o seu compromisso com o Evangelho? Você o tem assumido ou se coloca como alguém por fora?
Leia Jr 1,1,5.

b) Estar comprometido com o Evangelho de Deus leva-nos a fazer da nossa vida um espaço, um instrumento de revelação do Filho Jesus Cristo. Paulo diz que Deus quis “revelar em mim o Seu Filho” (v. 16). É uma expressão linda! Peça ao Senhor a graça de fazer da sua vida – pensamentos, atos, gestos, palavras – uma revelação de Jesus, nosso Senhor!

c) É sempre muito belo como Paulo conjuga o respeito pelos Doze, aqueles aos quais Cristo Jesus desde o princípio confiou o pastoreio da Sua Igreja, sobretudo para com Cefas-Pedro, o primeiro dentre os Doze e, por outro lado, tem consciência que a Igreja não tem dono e recebeu uma missão diretamente do Senhor ressuscitado, que lhe aparecera no caminho de Damasco.

d) Também Tiago tem uma vocação similar: ele não era dos Doze. O Senhor o chamou com uma aparição privilegiada após a Ressurreição (cf. 1Cor 15,7). É muito significativo que Paulo e Tiago tenham sido chamados após a Ressurreição. Provavelmente, este Tiago, “irmão do Senhor”, isto é, parente de Jesus, não fazia parte do grupo dos Doze. E, no entanto, ele foi o chefe da Igreja de Jerusalém. Veja a importância dele no chamado Concílio de Jerusalém (cf. At 15,5-29. A mensagem é claríssima: o respeito pelos legítimos pastores e a liberdade dos filhos da Igreja devem caminhar juntos! Que coisa: Paulo e Tiago, dois grandes apóstolos da Igreja nascente, não eram do grupo dos Doze! O Senhor é livre e ninguém é dono da Igreja! O Espírito do Senhor suscita uma incrível diversidade de vocações, carismas e ministérios, que não devem ser sufocados pelos ministros sagrados e, por outro lado, os que recebem carismas e dons devem caminhar procurando estar em comunhão com os ministros ordenados. Só o Espírito de Cristo pode conjugar e harmonizar estas realidades diversas!

e) Uma última coisa: O Apóstolo diz que “por minha causa glorificavam a Deus”.
Pense na sua vida: As pessoas glorificam a Deus por sua causa ou, ao invés, você foi ou tem sido pedra de tropeço e sofrimento para os irmãos? O que precisa ser mudado na sua vida para que as pessoas glorifiquem a Deus por sua causa?

7. Pensando na sua Igreja diocesana, na sua paróquia, no seu grupo ou comunidade, reze com o Senhor Jesus Jo 17,20-26. Reze também o Sl 132/133.