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Quarta razão de sermos Humildes: Nihil valemus

Meditação para a Décima Quinta-feira depois de Pentecostes. Quarta razão de sermos Humildes: Nihil valemus

Meditação para a Décima Quinta-feira depois do Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre a quarta razão de sermos humildes, que é, que nada valemos, e isto:

1.º Porque somos apenas um composto de misérias e de objetos de humilhação;

2.° Porque o que nos resta, afora estas misérias, nada vale.

— Tomaremos depois resolução:

1.° De repelirmos desde logo toda a ideia de nos gloriarmos das graças que Deus nos faz;

2.º De julgarmos que, quando nos mostram pouca estima, têm razão, e que, quando nos louvam, nenhuma têm.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra, objeto de nossa meditação:

“Não valemos nada” – Nihil valemus

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo não podendo tolerar que se diga dEle que é bom (1). Tudo o que há nEle, ainda o menor pensamento, a menor ação, é de um valor infinito, e todavia quer ser tratado toda a sua vida como não valendo nada. Quer ser desprezado nas suas palavras, nas suas obras, em tudo o que é, como se tudo isto nada valesse. Quer sofrer as mais atrozes calúnias, o mais indigno tratamento na sua vida mortal e na sua vida eucarística. Adoremos, admiremos, demos graças, e imitemos.

PRIMEIRO PONTO

Somos apenas um composto de misérias e de objetos de humilhação: Nihil valemus

Que há efetivamente em nós que valha alguma coisa, ou de que possamos gloriar-nos? Seria o nosso corpo? Mas este corpo, enquanto à sua origem, Deus tirou-o da terra. Enquanto à sua existência atual, é um vaso de imundície, um foco de corrupção com uma aparência mais ou menos agradável. Enquanto ao seu futuro destino, será o pasto dos vermes, uma podridão infeta, que os homens se apressarão de enterrar para que os não inficione. Seriam as nossas faculdades intelectuais? Ai! Com relação à nossa inteligência, que estreitos limites, que trevas e escuridão! Com relação aos nossos juízos, que precipitação e temeridade, que erros e incertezas! Com relação a nossa imaginação, que devaneios, que ideias extravagantes e absurdas! Com relação aos nossos conhecimentos, que deficiência e ignorância! Quanto mais se sabe, tanto mais se vê, que nada se sabe; e os conhecimentos do sábio, bastantemente instruído para medir o campo da ciência, lhe revelam a sua profunda ignorância acerca do objetos, mil vezes mais numerosos que as estrelas, que há no céu, e os grãos de areia que há na terra. Seriam as qualidades do nosso coração?

Ai! Todos os vícios nele germinam pelo menos, e nenhum crime há, que um homem comete, que outro não seja capaz de cometer, se a graça de Deus não o detém. Todas as paixões ali têm a sua raiz; é como uma sentina infecta, de onde se exalam mil vapores malignos de vaidade e soberba, de sensualidade e impureza, de inquietações e desejos desordenados, de amor do prazer e da riqueza. Seriam as nossas boas obras e virtudes?

Ai! Que boa obra fazemos que não seja imperfeitamente, ora por amor-próprio e vã complacência, ora com negligência e tédio? Possuímos uma só virtude dos santos, a sua humildade, a sua penitência? Não somos sempre inconstantes nas nossas resoluções, fracos nas nossas palavras, melindrosos no nosso amor-próprio, distraídos e faltos de fervor nas nossas orações? Seriam finalmente as graças que recebemos? Mas é isto, ao contrário, que deve mais confundir-nos. Tantas graças deveriam ter feito de mim um grande santo, e eu sou sempre miserável e pecador, sempre tão imperfeito, tão negligente, tão tíbio no serviço de Deus! Senhor, o abismo das minhas misérias clama a vós; a profundeza do meu nada levanta as mãos para a vossa misericórdia! (2)

SEGUNDO PONTO

O que nos resta, afora as nossas misérias, nada valemos

É uma verdade demonstrada nas nossas precedentes meditações, que nada somos, nada possuímos, nada podemos; logo nada valemos – Nihil valemus. Além disto, pelo mau uso que temos feito da nossa existência, merecemos ser privados dela, e reduzidos a nada. Temo-nos tornado como esse sal insípido, que só é próprio para ser lançado ao monturo e calcado aos pés pelos homens. Confundamo-nos de que, nada valendo, nos estimemos tanto; peçamos a Deus perdão do passado, e a graça, para o futuro, de levar a bem que nos desprezem e que julguem que nada valemos.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Quid me dicis bonum? Nemo bonus, nisi unus Deus (Mc 10, 18)

(2) Dedit abyssus vocem suam: altitudo manus suas levavit (Hab 3, 10)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 75-78)

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