Capítulo XIV

Jesus, porém, que faz, que diz, vendo-se o objeto de tantos ultrajes? Suplica por aqueles que assim o maltratam:

“Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc 23,34).

Jesus orou então também por nós, pecadores. Por isso, voltados para o Padre eterno, digamos com confiança: Ó Pai, ouvi a voz deste Filho querido que vos suplica que vos perdoeis. Um tal perdão é sem dúvida grande misericórdia com relação a nós, que não o merecíamos, mas com relação a Jesus Cristo, que nos satisfez superabundantemente por nossos pecados, é justiça. Vós estais obrigado por seus merecimentos a perdoar e a receber na vossa graça quem se arrepende das ofensas que vos fez. Eu me arrependo, ó meu Pai, de todo o meu coração, de vos haver ofendido e em nome desse vosso Filho os peço o perdão. Perdoai-me e recebei-me na vossa graça.

“Senhor, lembrai-vos de mim quando entrardes no vosso reino” (Lc 23,42).

Assim foi que se dirigiu o bom ladrão a Jesus agonizante, que lhe respondeu:

“Em verdade eu te afirmo, que hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).

Assim se cumpriu o que Deus já havia dito por Ezequiel, que, quando um pecador se arrepende de suas culpas, Deus lhe perdoa e se esquece das ofensas que lhe foram feitas:

“Se, porém, o ímpio fizer penitência… não me recordarei mais de todas as suas iniqüidades” (Ez 18,21).

Ó caridade imensa, ó bondade infinita de meu Deus, quem deixará de vos amar? Sim, meu Jesus, esquecei- vos das injúrias que vos fiz e lembrai-vos da morte tão cruel que por mim sofrestes e por ela dai-me o vosso reino na outra vida e na presente fazei reinar em mim o vosso santo amor. Unicamente o vosso amor domine no meu coração e seja ele o meu único Senhor, meu único desejo, meu único amor. Feliz ladrão, que mereceste ser o companheiro paciente da morte de Jesus! Feliz de mim, ó meu Jesus, se tiver a sorte de morrer amando-vos e unindo a minha morte à vossa santa morte.

“Estava, porém, ao pé da cruz de Jesus, sua Mãe” (Jo 19,25).

Considera, minha alma, ao pé da cruz, Maria, sua Mãe, traspassada de dores e com os olhos fixos no amado e inocente Filho, contemplando as crudelíssimas dores externas e internas no meio das quais ele morre. Ela está toda resignada e em paz, oferecendo ao eterno Pai a morte do Filho por nossa salvação. Mas muito a afligem a compaixão e o amor. Ó Deus, quem não se compadeceria de uma mãe que se encontrasse junto ao patíbulo do filho que lhe está morrendo diante dos olhos? E, então, se considerarmos quem seja essa Mãe e quem esse Filho! Maria amava esse Filho imensamente mais do que todas as mães amam a seus filhos. Ela amava Jesus por ser ao mesmo tempo seu Filho e seu Deus: Filho sumamente amável, incomparavelmente belo e santo, Filho que lhe fora sempre respeitoso e obediente, Filho que tanto a amara e que desde a eternidade a escolhera por mãe. E essa mãe foi quem teve de ver morrer de dores um tal filho, diante de seus olhos, naquele lenho infame, sem poder procurar-lhe o menor alívio e até aumentando com sua presença o seu tormento, pois a via padecer assim por seu amor. Ó Maria, pelas dores que sofrestes na morte de Jesus, tende piedade de mim e recomendai-me a vosso Filho. Ouvi como ele, na pessoa de S. João, me recomenda a vós:

“Mulher, eis aí teu Filho” (Jo 19,26).

“E perto da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Meu Deus, meu Deus, por que me desamparastes?” (Mt 27,46).

Jesus agonizando na cruz, com o corpo estarrecido de dor e o espírito inundado de aflição (pois que aquela tristeza que o assaltou no horto o acompanhou até ao último suspiro de sua vida) procura alguém que o console, mas não encontra ninguém, como já o predissera Davi:

“Esperei alguém que me consolasse e não o encontrei” (Sl 68,21).

Olha para sua Mãe e esta não o consola, antes mais o aflige com sua presença. Olha em redor e vê que todos se mostram como seus inimigos. Vendo-se assim privado de todo o conforto, volta-se para seu eterno Pai a pedir-lhe alívio. Vendo-o, porém, o Pai coberto com todos os pecados dos homens, por quem ele estava na cruz a satisfazer sua justiça divina, também o abandona a uma morte de pura dor. E foi então que Jesus gritou, para exprimir a veemência de sua pena, dizendo: Meu Deus, por que até vós me abandonais? A morte de Jesus foi, pois, a morte mais atroz que a de todos os mártires, pois que foi uma morte inteiramente desolada e privada de todo o alívio.

Mas, ó meu Jesus, se vos oferecestes espontaneamente a uma morte tão dura, por que então vos lamentais? Ah, eu vos compreendo, vós vos lamentais para nos fazer compreender a pena excessiva com que morreis e nos dar ao mesmo tempo ânimo para confiar e nos resignarmos no tempo em que nos virmos desolados e privados da assistência sensível da graça divina.

Meu doce Redentor, esse vosso abandono me faz esperar que Deus não me abandonará, apesar de tê-lo traído tantas vezes. Ó meu Jesus, como pude viver tanto tempo esquecido de vós? Agradeço- vos por vos não terdes esquecido de mim. Suplico-vos que me façais recordar sempre da morte cruel que sofrestes por meu amor, para que eu não me esqueça mais de vós e do amor que me consagraste.

Sabendo, entretanto, o Salvador que seu sacrifício já estava consumado, disse que tinha sede e os soldados puseram-lhe nos lábios uma esponja embebida em vinagre:

“Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir ainda a Escritura, disse: Tenho sede… Eles lhe chegaram à boca uma esponja ensopada em vinagre” (Jo 19,28).

A Escritura que devia cumprir-se era a profecia de Davi:

“E na minha sede me propinaram vinagre” (Sl 68,22).

Mas, Senhor, vós vos queixais de tantas dores que vos arrebatam a vida, e vos lamentais da sede? Ah, a sede de Jesus era diferente da que passamos. A sede que ele tem é o desejo de ser amado pelas almas pelas quais morre. Logo, ó Jesus meu, vós tendes sede de mim, ver¬me miserável, e eu não terei sede de vós, bem infinito? Ah, sim, eu vos quero, eu vos amo e desejo agradar-vos em tudo. Ajudai-me, Senhor, a expelir de meu coração todos os desejos terrenos e fazei que em mim reine o único desejo de agradar-vos e fazer a vossa vontade. Ó santa vontade de Deus, vós que sois a bela fonte que saciais as almas imortais, saciai-me também a sede o fito de todos os meus pensamentos e de todos os meus afetos.

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