Meditação para 15 de Outubro: O Rosário e Ação Católica
A Cruzada Nova

A Ação Católica foi definida pelo imortal Pio XI, uma grande batalha, uma santa batalha pela religião (Encíclica Ubi Arcano Dei).

É de ordem sobrenatural, visa acima de tudo o supremo interesse — a salvação das almas. Chegamos aos tristes dias de um neopaganismo. Massas paganizadas e sem fé, sepultadas nas trevas da ignorância religiosa. Messe grande e poucos operários. Poucos sacerdotes e meios impenetráveis à ação sacerdotal. A Igreja inspirada pelo Espírito Santo, como outrora para defesa do santo sepulcro, convoca seus filhos para uma nova cruzada, a cruzada santa e absolutamente urgente para libertar mais do que o sepulcro de Cristo, as almas remidas pelo sangue do Redentor Divino e no sepulcro horrendo das trevas do neopaganismo e da apostasia da fé.

A Ação Católica, pois, é uma cruzada nova, não no sentido de uma bela novidade, diz Pio XI, porque ela sempre existiu na Igreja desde as catacumbas, desde os tempos apostólicos, porque cada cristão foi sempre apóstolo da propagação da fé e da conquista das almas para Cristo. Nova em sua organização e métodos adaptados aos tempos em que
vivemos.

É um novo exército, uma nova cruzada, embora na essência venha a ser aquele mesmo espírito de apostolado e de proselitismo dos primeiros cristãos, e o ardor, a mística sublime dos cruzados medievais.

Aos leigos cabe hoje uma sublime e admirável missão: — vir colaborar com o sacerdote, auxiliar a Igreja na luta pela salvação das almas.

Conta-se que numa perseguição religiosa sofrida pela infeliz Polônia, um sacerdote viu que o inimigo avançava para o altar, e ia arrancar do Sacrário a Jesus Sacramentado. Abriu logo os braços e tentou defender o seu tesouro.

Um soldado inimigo decepou-lhe, com a espada, uma das mãos. O heroico padre defende ainda com a outra o altar. Cortam-na também. E o mártir levanta os braços e os punhos decepados, e exclama aos fiéis que ali estavam no templo:

“Chegou a vossa vez! A vós incumbe a missão de defender a Jesus Cristo! Cortaram-me as mãos!”

Não é este o grito da Igreja aos leigos hoje? Afastaram o sacerdote dos meios sociais, laicizaram escolas, instituições, fábricas, enfim a peste do laicismo invadiu tudo. E é tão escasso o número de sacerdotes para o apostolado! Para defender a Jesus Cristo na sua Igreja e no seu Evangelho é mister que agora venham os leigos colaborar nesta obra sublime! A vós incumbe, diz a Igreja aos apóstolos da Ação Católica, a vós incumbe agora defender a Jesus Cristo, porque o mundo paganizado cortou as mãos ao sacerdote, afasta e repele o ministro de Deus. O apóstolo leigo como João Batista, prepara os caminhos ao sacerdote, defende o Corpo místico de Cristo.

A Ação Católica se tornou, então, no dizer de Pio XI, necessária, urgente e insubstituível.

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Escola de Formação

O Rosário é a prece das grandes horas da Santa Igreja, o recurso clássico dos Papas, ao Céu, para a salvação do mundo. Pio XI, o Papa da Ação Católica, assim o entendeu. O Papa, que na Encíclica Ubi Arcano Dei convida todos os fiéis à batalha santa, à grande batalha pela religião que é a Ação Católica, escreve na Encíclica Ingravescentibus malis:

“Sirva a devoção ao Rosário de estímulo aos que se dedicam à Ação Católica, parei os lançar em seu apostolado com maior fervor e zelo”

E apela para o zelo dos Bispos em todo universo católico, a fim de que seja cada vez mais espalhada e bastante estimada por todos a devoção ao Rosário, para aumento da piedade geral.

A Ação Católica, no dizer de Pio XI, tem duas fases: uma de formação e outra de apostolado, de ação. Ora, o Rosário, no dizer de Leão XIII em várias de suas encíclicas, é uma escola de formação cristã, de intensa vida cristã, pela meditação dos mistérios da vida de Cristo Nosso Senhor, e porque, no dizer de Lacordaire, é como que uma síntese sublime do Evangelho. Há um livro, diz o célebre orador: é o Evangelho, e o Rosário é a suma do Evangelho.

Já o chamaram de Suma Teológica do povo. Não há elogios que bastem à rainha das devoções marianas, sobremaneira porque ela é a oração completa. Contém as mais belas páginas do Evangelho, as mais belas e necessárias preces do cristão, e é uma escola de formação espiritual. Já o disse e repetiu muitas vezes Leão XIII em mais de quinze documentos oficiais da Igreja.

Ora, é sob este aspecto que Pio XI na Encíclica Ingravescentibus Malis, acha o Rosário a oração própria e utilíssima para todos quantos militam nas fileiras da Ação Católica. Há melhor escola de santidade e de vida interior que a meditação dos adoráveis mistérios de nossa Redenção?

Compreende-se um verdadeiro apóstolo leigo sem vida de oração e espírito do Evangelho?

Pois, diz Leão XIII, o Rosário é a oração completa, sustenta, alimenta o verdadeiro espírito de oração. E nos recorda e faz-nos viver da lembrança das mais belas páginas do Evangelho. A Ação Católica, depois da Missa, não terá fonte de tanta vida interior e melhor escola de formação que o Rosário. A cruzada dos novos tempos, como todas as cruzadas e batalhas santas da Igreja, desde São Domingos até hoje, não há de vencer também sem o Rosário da Santíssima Virgem Maria.

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EXEMPLO

Louis Veuillot e o Rosário

O príncipe dos jornalistas católicos, o maior dos combatentes da pena que a Igreja viu desde o século passado, (e outro ainda não apareceu igual), incontestavelmente foi Louis Veuillot.

Que gigantesca figura de polemista, literato e herói da fé! Pois fora um devoto fervoroso do Rosário de Maria! Lutou pela causa de Deus na imprensa. Sustentou rudes combates por Jesus Cristo, Maria Santíssima e o Papa. Era de uma enternecedora devoção à Maria. Recitava o Terço de Nossa Senhora com piedade. Já cansado das lutas dos prelos, pela madrugada, (piando os jornais iam circular, voltava para casa, e, em caminho, desfiava as contas do seu Terço! Achava encantos nas meditações do Rosário! E foi meditando que escreveu esta obra tão singela e piedosa: “Le Saint Rosaire Méditè”.

Meditações encantadoras dos mistérios do Rosário de Maria! Um livro para se rezar e meditar. Dizia Veuillot a um padre amigo:

“Escrevi este livro a invocar a Santíssima Virgem. Concedei-o no primeiro da do mês de Maria e terminei-o no último. É o trabalho que me trouxe as mais gratas e doces recordações”

E o dedicou assim:

“Ao Imaculado e Santíssimo Coração de Maria Refugium peccatorum, ora pro nobis

E acompanhado as meditações, sempre algumas poesias, tão singelas, tão encantadoras!

O príncipe dos jornalistas do século XIX, um dos maiores escritores da língua francesa, o homem que fez as lutas gloriosas dos defensores da fé católica dos séculos da heresia, Louis Veuillot, fora um devoto fervoroso e mais ainda, um apóstolo do Rosário. A sua obra “Le Saint Rosaire Méditè” obteve várias edições. Foi lida, foi propagada pelo mundo todo.

Sejamos também apóstolos do Rosário pela palavra, o exemplo e a pena, se Nosso Senhor nos concedeu a graça de escrever!

Louis Veuillot até a morte lutou por Jesus Cristo e sua Igreja, trazendo cada dia nas mãos, o Rosário de Maria!

Que exemplo edificante aos jornalistas católicos!

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. O Mês do Rosário, Edições do “Mensageiro do Santíssimo Rosário”, 1943, p. 119-125)