Meditação para o dia 04 de Maio. O poder de Maria para nos salvar

Meditação para o dia 04 de Maio

Maria é toda poderosa junto de Deus

Tão grande é o prestígio de uma mãe, que nunca pode tornar-se súdita de seu filho, ainda que ele seja monarca e tenha domínio sobre todas as pessoas do seu reino. É verdade, sentado agora à direita de Deus Pai, no céu, reina Jesus e tem supremo domínio sobre todas as criaturas e também sobre Maria. E o tem mesmo como homem, diz Santo Tomás, por causa da união hipostática com a pessoa do Verbo. Todavia, é também certo que nosso Redentor, quando vivia na terra, quis humilhar-se a ponto de ser submisso a Maria.

“E lhes estava sujeito” (Lc. 2, 51)

Sim, desde que Jesus Cristo se dignou escolher Maria por Mãe, estava como Filho realmente obrigado a obedecer-lhe, diz Santo Ambrósio. Os outros santos — reflete Ricardo de São Lourenço — estavam unidos à vontade de Deus; mas teve Maria maior ventura. Pois não só foi submissa à vontade de Deus, mas também o Senhor se submeteu sua vontade. Das outras virgens diz-se que “seguem o Cordeiro por toda parte”. Porém de Maria dizer se pode que o Cordeirinho de Deus a seguia, porque lhe foi submisso.

Daí concluímos que são as suplicas de Maria eficacíssimas para obterem tudo quanto ela pede, ainda que não possa dar ordens a seu Filho no céu. Pois os seus rogos sempre são rogos de Mãe. Tem Maria o grande privilégio de ser poderosíssima junto ao Filho, diz Conrado de Saxônia. E por quer? Justamente pela razão já apresentada, e que mais abaixo vamos examinar minuciosamente: porque as súplicas de Maria são súplicas de Mãe. De onde as palavras de São Pedro Damião:

“A Virgem consegue quanto quer, no céu como na terra: até aos desesperados pode dar esperança de Salvação”

O Santo chama o Redentor de altar de misericórdia, onde os pecadores obtêm de Deus a graça do perdão. A ele, Jesus, dirige-se Maria quando quer obter-nos alguma graça. O filho tanto aprecia, porém, os rogos de sua Mãe e tanto deseja ser-lhe agradável, que sua intercessão mais afigura uma ordem do que uma prece, e ela parece antes uma Rainha do que uma serva, remata o Santo. Assim quer Jesus honrar sua querida Mãe, que tanto o honrou em vida, prontamente concedendo-lhe tudo que pede ou deseja. Belamente o exprime São Germano nas suas palavras dirigidas à Virgem:

“Sois onipotente, ó Mãe de Deus, para salvar os pecadores; não precisais de recomendação alguma junto a Deus, pois que sois a Mãe da verdadeira vida”

Não receia São Bernardino de Sena concordar com a sentença de que “ao império de Maria todos estão sujeitos, até o próprio Deus”. Isto é, Deus lhe atende aos rogos como se foram ordens. Exclama por isso Eadmero: Virgem, de tal modo vos elevou o Senhor, que podeis obter para vossos servos todas as graças possíveis; pois é onipotente vosso patrocínio, como assevera Cosmas de Jerusalém. Maria, sim, sois onipotente — acentua Ricardo de São Lourenço; pois que, conforme as leis deve a rainha gozar dos mesmos privilégios que o rei. Por isso, colocou Deus toda a Igreja não só sob o patrocínio, senão também sob o império de Maria, observa Santo Antônio.

Convindo, portanto, à mãe o mesmo império que ao filho, com razão Jesus, que é onipotente, tornou Maria todo poderosa. Contudo, sempre será verdade que o Filho é onipotente por natureza e a Mãe o é por graça. E isto se verifica, porque, quanto pede a Mãe, tudo lhe concede o Filho, como justamente foi revelado a Santa Brígida. Ouviu ela, Jesus dizer a Maria:

“Minha Mãe, já sabes quanto te quero; pede-me por isso o que quiseres, porque, seja qual for a tua petição, não pode deixar de ser de mim ouvida”

O grande poder de Maria funda-se na sua dignidade de Mãe de Deus

É certo, em suma, que não há criatura alguma que obter nos possa tantas misericórdias, como esta boa advogada. Não só Deus a honra como sua serva dileta, mas, sobretudo como sua verdadeira Mãe, diz Guilherme de Paris:

“Uma só palavra de seus lábios é quanto basta para o Filho atendê-la”

À Esposa dos Cânticos, figura da Virgem Maria, diz o Senhor:

“Ó tu que habitas nos jardins, os teus amigos estão atentos: Faze-me ouvir a tua voz (8,13)”

São os santos esses amigos; quando pedem alguma graça para seus devotos, esperam obtê-la pela intercessão da sua Rainha. Pois, conforme o demonstramos no capítulo V, graça nenhuma é dispensada sem a intercessão de Maria. E como a obtêm Maria? Uma palavra é o quanto basta ao Filho.

“Faze-me ouvir a tua voz!”

É bem acertado o comentário de Guilherme de Paris à mencionada passagem dos Cânticos. Imagina-se ele o Filho, dizendo à sua Mãe:

Ó tu que habitas nos jardins celestes, pede com toda a confiança; pois esquecer não posso que sou teu Filho e que nada devo recusar à minha Mãe. Basta-me ouvir tua voz; para o Filho é o mesmo te ouvir como te atender

Ainda que Maria alcance as graças rogando, contudo ela roga com certo império de Mãe. Portanto, devemos estar firmemente convictos de que tudo alcança quanto pede e deseja para nós, observa Godofredo abade. Tendo Coriolano sitiado Roma, sua cidade natal, nem todos os rogos de seus concidadãos e amigos conseguiram demovê-lo à retirada. Mas, assim que viu a seus pés sua mãe Ventúria, relata Valério Máximo, não pôde resistir e levantou o cerco. Mas tanto mais poderosas que as de Ventúria são as súplicas de Maria junto de Jesus, quanto mais grato e amoroso é esse divino Filho para com sua cara Mãe. Mais vale perante Deus um único suspiro de Maria, que as orações de todos os santos reunidos, escreve o dominicano Justino Micoviense.

EXEMPLO

Conta Santo Afonso:

Numa das casas de nossa Congregação no reino de Nápoles, aconteceu ir uma vez certa mulher dizer a um dos nossos padres, que seu marido não se confessava havia muitos anos. A pobre não sabia mais que meios empregar para levá-lo ao cumprimento de seus deveres religiosos, pois que a maltratava quando lhe falava em confissão. Aconselhou o padre que desse ao marido uma estampa de Maria Imaculada. À noite ela pediu de novo ao rebelde que se confessasse. Foi em vão; como de costume ele fez-se de surdo. Deu-lhe então a esposa a referida estampa. E eis que apenas a recebeu, o marido disse logo: Então quando queres que me confesse? Estou pronto. A mulher pôs-se a chorar de alegria, vendo aquela mudança tão súbita. Na manhã seguinte, foi com efeito à nossa igreja. O padre perguntou-lhe há quanto tempo não se confessava.

— Há vinte e oito anos, respondeu ele. E como, tornou o padre, se resolveu a vir hoje?

— Meu pai, tornou ele, eu estava obstinado; mas ontem à noite minha mulher deu-me uma imagem de Nossa Senhora, e logo senti mudar-se-me o coração. E isso de tal sorte, que esta noite os momentos me pareciam mil anos, tanto desejava que amanhecesse para vir confessar-me.

Confessou-se efetivamente com muita compunção, mudou de vida, e continuou por muitos anos a confessar-se amiúdo com o mesmo padre.

Num lugar da diocese de Salerno, durante uma missão que aí demos, havia certo homem que nutria grande inimizade contra um outro que o tinha ofendido. Um padre exortou-o ao perdão, porém ele respondeu:

— Meu padre, já me vistes assistir às prédicas?

— Não.

— E sabeis por que? É que já me vejo condenado; mas não me importa: quero vingar-me.

O padre empregou todos os meios para dissuadi-lo, porém, vendo que eram baldadas suas palavras: Tomai, disse-lhe, esta estampa da Senhora da Conceição. A princípio o homem respondeu: E para que serve ela? Mas assim que a tomou, como se nunca se tivesse negado a perdoar, disse ao missionário: Padre, não quereis mais alguma coisa além do perdão? Estou pronto a concedê-lo. Com efeito, marcaram a reconciliação para a manhã seguinte. No outro dia, entretanto, o homem mudou de opinião, e já nada mais queria fazer. Ofereceu-lhe o padre outra imagem, que ele recusou no começo, mas afinal, à força de instâncias, recebeu. E, ó maravilha! apenas segurou essa segunda imagem, disse imediatamente:

— Ora vamos! Acabemos logo com esta briga! Onde está o meu inimigo?

— Perdoou logo, com efeito, confessando-se em seguida.

ORAÇÃO

Vê, ó minha alma, que bela esperança de salvação e de vida eterna te dá o Senhor. Em sua grande misericórdia te encheu de confiança no patrocínio de sua Mãe, embora tenhas, por teus pecados, tantas vezes merecido a reprovação e o inferno. Agradece, pois, a teu Deus e a Maria, tua protetora, que já se dignou tomar-te sob seu manto, como já o atestam as inúmeras graças que por seu intermédio tens recebido. Sim, eu vos agradeço, ó minha Mãe amorosíssima, por todo bem que me tendes feito, a mim, pobre infeliz que mereci o inferno. Ó minha Rainha, de quantos perigos me haveis livrado! Quantas luzes e quantas misericórdias me tendes obtido de Deus! Que grande bem ou que grande honra de mim recebestes, para que tanto vos empenheis em fazer-me benefícios?

A tanto vos moveu unicamente a vossa bondade. Ah! Nem que eu sacrificasse por vós o sangue e a vida, nada seria em comparação ao que vos devo, já que vós me livrastes da morte eterna. Amém.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Um Mês com Nossa Senhora ou Mês de Maria, segundo Santo Afonso Maria de Ligório. Edições Paulinas 1ª ed., 1949, p. 40-45)