Meditação para o dia 18 de Maio. Maria leva seus devotos ao Céu

Meditação para o dia 18 de Maio

Pela devoção a Maria salvaram-se os bem-aventurados

O servos de Maria têm um belíssimo sinal de predestinação. Para confortá-los, a Santa Igreja aplica à Mãe de Deus o texto do Eclesiástico:

“Em todos estes busquei o descanso e assentarei a minha morada na herança do Senhor” (24, 14)

Hugo, cardeal, comenta: Feliz daquele em cuja morada a Santíssima Virgem encontra o lugar de seu repouso. Maria ama a todos os homens e quereria ver a sua devoção reinar no coração de todos os fiéis. Muitos ou não a recebem ou não a conservam. Feliz de quem a recebe e conserva fielmente. “Assentarei a minha morada na herança do Senhor”, isto é, — segundo Pacciuchelli — a devoção à Santíssima Virgem ostenta-se em todos os que no céu formam a herança do Senhor e lá eternamente o louvam. E mais adiante lemos:

“Aquele que me criou, descansou no meu tabernáculo e me disse: Habita em Jacó e possui a tua herança em Israel, e lança raízes nos escolhidos” (Eclo  24, 12 e 13)

Isto quer dizer: Meu Criador dignou-se vir repousar em meu seio, e quis que eu habitasse no coração de seus eleitos (dos quais Jacó foi figura), que são minha herança. Determinou que deitassem profundas raízes em todos os predestinados a devoção e a confiança para comigo.

Oh! Quantos não estariam agora no céu, se Maria, com a sua poderosa intercessão, para ali não os tivesse conduzido.

“Eu fiz com que nascesse no céu uma luz que nunca falta” (Eclo 24, 6)

Hugo, cardeal, aplicando esse texto à Santíssima Virgem, fá-la dizer:

“Faço brilhar no céu tantos luzeiros eternos, quantos são os meus devotos”

Por isso ele acrescenta:

“Muitos santos acham-se no céu pela intercessão de Maria e sem ela jamais lá estariam”

Garante São Boaventura que as portas do céu se abrem para receber os quantos confiam no patrocínio de Maria. Santo Efrém diz por isso ser esta devoção a abertura do paraíso. E Blósio assim se dirige á Virgem Maria: Senhora a vós está confiada às chaves e os tesouros do reino celestial. Portanto, continuamente lhe devemos pedir com Santo Ambrósio:

“Abri-nos, ó Maria, a porta do paraíso, já que dele tendes as chaves e sois a porta, como vos chama a Santa Igreja”

O nome de Estrela do Mar também é dado a Maria pela Santa Igreja. Porque assim como os navegantes, diz Santo Tomás, são dirigidos ao porto por meio da estrela, também assim os cristãos são guiados para o paraíso por meio de Maria. Igualmente chama-a Pseudo-Fulgêncio de escada do céu. Isso porque por meio dela desceu o Senhor do céu a terra, para que por ela os homens merecessem subir da terra ao céu. E a este propósito lhe diz Santo Atanásio Sinaíta:

“Senhora sois cheia de graça para serdes o caminho de nossa salvação e a subida para a pátria celeste”

Para São Bernardo é ela o carro que nos leva ao céu. João, o Geômetra, a saúda como carro resplandecente por meio do qual os seus servos entram no céu. Daí, pois, a exclamação de São Boaventura:

“Bem-aventurados os que vos conhecem, ó Mãe de Deus, porquanto conhecer-vos é a estrada da vida imortal, e celebrar vossas virtudes é o caminho para a salvação”

Pergunta Dionísio, o Cartuxo:

“Quem se salvará? quem conseguirá reinar no paraíso?”

E responde:

“Aquele, sem dúvida, por quem tiver rogado a Mãe de misericórdia”

É o que ela mesma afirma com as palavras:

“Por mim reinam os reis” (Pr 8, 15)

Por minha intercessão as almas reinarão, primeiramente sobre suas paixões na vida mortal e depois no céu, onde todos são reis, na frase de Santo Agostinho. Maria é, em suma, a Senhora do céu, pois que ali manda coma quer e nele introduz quem quer. Assim conclui Ricardo de São Lourenço, que à Virgem aplica por isso as palavras do Eclesiástico:

“É em Jerusalém o meu poder” (24, 15)

A devoção a Maria é um penhor de bem-aventurança

Desde que não lhe ponhamos obstáculos, alcança-nos essa divina Mãe o paraíso, pela eficácia de suas súplicas e de seu patrocínio. Aquele, por conseguinte, que a serve e conta com sua intercessão, está seguro do paraíso, como se já ali estivesse. O servir e ser de sua família, diz Ricardo de São Lourenço, é das honras a maior; pois, servi-la é reinar no céu, e viver sob suas ordens, é mais que reinar. Pelo contrário, prossegue ele, aqueles que não servem a Maria, não se salvarão; porquanto, destituídos do auxílio da poderosa Mãe, ficam também privados do socorro do Filho e de toda a corte celeste.

Sempre seja, pois, louvada a infinita bondade de nosso Deus, exclama São Bernardo, que foi servido de constituir Maria nossa advogada no céu, para que ela como Mãe do Juiz e Mãe de misericórdia trate do grande problema de nossa salvação. Jacó, monge e célebre doutor entre os gregos, diz que Deus colocou Maria como ponte de salvação sobre a qual nos faz atravessar as ondas deste mundo e assim alcançarmos o tranquilo porto do céu. Daí então a exortação de São Boaventura:

“Ouvi, ó vós, desejosos do reino de Deus: honrai e servi a Virgem Maria, e encontrareis a vida eterna”

Não devem desconfiar de conseguir o reino do céu nem ainda aqueles que só tem merecido o inferno, se se resolverem a servir com fidelidade a esta Rainha. Quantos pecadores — exclama São Germano — buscaram a Deus por vosso intermédio, ó Maria, e foram salvos! Ricardo de São Lourenço chama a atenção sobre o texto do Apocalipse (12, 1), no qual se diz estar Maria coroada de estrelas, enquanto que nos Sagrados Cânticos ela aparece rodeada de feras, de leões e de leopardos (Ct 4, 8). Como pode ser isso? É que essas feras — responde o comentador — são os pecadores que pelo favor e pela intercessão de Maria se tornam estrelas do paraíso. Formam assim uma coroa que mais convém para a fronte dessa Rainha de misericórdia, do que todas as estrelas materiais.

“Os que trabalham por mim não pecarão; aqueles que me esclarecem terão a vida eterna” (Eclo 24, 30)

Ditosos, pois, aqueles, conclui São Boaventura, que adquirem o favor de Maria; estes desde logo serão reconhecidos dos bem-aventurados, por seus companheiros; e quem tiver o caráter de servo de Maria, será registrado no livro da vida. De que serve, pois, inquietarmo-nos com as sentenças das escolas sobre, se a predestinação para a glória é antes ou depois da previsão dos merecimentos? Se estamos ou não inscritos no livro da vida? Se somos verdadeiros servos de Maria e estamos sob o seu patrocínio, seremos então certamente do número dos eleitos.

EXEMPLO
SANTO ESTANISLAU KOSTKA

Este santo jovem, tão dedicado ao amor de Maria, ouviu no primeiro dia do mês de agosto uma conferência, que o padre Canísio fizera aos noviços da Companhia. Aconselhou-lhes o santo pregador, e com muita insistência, que vivessem cada dia como se fosse o último de sua vida, findo o qual lhes fosse preciso comparecer perante o tribunal divino. Terminada a conferência, dissera Estanislau aos companheiros que aquele conselho era, particularmente para ele, a voz de Deus, porquanto havia de morrer naquele mesmo mês. Isto disse, ou porque Deus expressamente lhe revelou, ou ao menos por certo pressentimento do que ia acontecer. Quatro dias depois foi o santo jovem com o padre Emanuel de Sá visitar a igreja de Santa Maria Maior, Em caminho discorreu sobre a próxima festa da Assunção e disse:

“Padre creio que nesse dia se vê um novo paraíso, no paraíso, contemplando-se a glória da Mãe de Deus, coroada Rainha do céu e colocada tão próxima ao Senhor, sobre todos os coros dos anjos. Dizem que em cada ano se renova esta festa no céu. Creio nisso e espero que verei a primeira que lá se fizer”

Segundo uma aceitável narração, nesse mesmo dia Estanislau escreveu uma carta à sua querida Mãe do céu, na qual lhe pedia a graça de assistir à celebração de sua festa no paraíso. Tocando-lhe então por sorte o glorioso mártir São Lourenço, como protetor do mês (segundo o uso da Companhia), comungou no dia de sua festa o depois suplicou ao Santo que apresentasse a carta à Mãe de Deus, e intercedesse por ele para um favorável despacho da mesma. No fim desse mesmo dia veio-lhe a febre e, embora fraca, deu-lhe, contudo como certa a graça pedida quanto a uma próxima morte. Com efeito, ao deitar-se na cama, disse muito alegre e risonho: Daqui não me levantarei mais. E ao padre Cláudio Aquaviva acrescentou:

“Meu padre creio que São Lourenço já me obteve de Maria a graça de me achar no céu pela festa de sua Assunção”

Mas ninguém ligou importância às suas palavras. Na vigília da festa o mal continuava a parecer leve. Disse contudo o Santo a um irmão que morreria na noite seguinte. Ao que este respondeu:

“Ó irmão, maior milagre seria morrer, do que sarar de um mal tão insignificante. Entretanto, eis que, passada a meia noite, caiu o Santo num desfalecimento mortal, começando a suar frio e a perder as forças”

Acudiu o Superior, a quem Estanislau rogou que o mandasse por sobre o chão, para morrer como penitente. Isto se lhe concedeu para contentá-lo e foi posto no chão sobre uma coberta. Depois confessou-se e recebeu o viático, não sem comover até às lágrimas os assistentes. Ao entrar no quarto o Santíssimo Sacramento, viram estes o Santo jovem todo radiante de celeste alegria nos olhos, e o rosto todo ruborizado nas chamas de um santo amor, que até parecia um serafim. Recebeu também a Extrema-Unção e entrementes nada fazia senão levantar os olhos ao céu, e ora contemplar, ora beijar e apertar contra o peito amorosamente uma imagem de Maria. Perguntou-lhe um padre:

— “De que vos serve nas mãos este rosário, se o não podeis recitar?”

— “Serve para consolar-me — responde o Santo — pois é uma coisa que pertence à minha Mãe”

— “Se assim é, tomou-lhe o padre, quanto maior será vossa consolação, vendo-a e beijando-lhe em breve as mãos, no céu?”

Então o santo, com o rosto todo inflamado, levantou as mãos para o céu, exprimindo assim o desejo de achar-se na presença de Maria. Apareceu-lhe depois essa querida Mãe como ele mesmo disse aos circunstantes. E pouco depois, ao amanhecer do dia 15 de agosto, expirou como um bem-aventurado, com os olhos fitos no céu, sem fazer movimento algum. Tendo-lhe alguém apresentado a imagem de Maria e notando que ele não se interessava mais por ela, conheceram os presentes que Estanislau passara desta à melhor vida no céu. Já havia partido para ir beijar os pés de sua Rainha no paraíso.

ORAÇÃO

Ó Rainha do paraíso, Mãe do santo amor, sois entre todas as criaturas a mais amável, a mais amada por Deus e aquela que mais o ama. Consenti que também vos ame um pecador, que é mais ingrato e miserável dos que vivem na terra. Por vosso intermédio, vejo-me livre do inferno e sem mérito algum de tal modo cumulado de benefícios por vós, que agora me sinto todo enamorado de vós.

Quereria se pudesse fazer saber a todos quantos vos não conhece quão digna sois de ser amada, para que todos vos conhecessem e amassem. Quereria também morrer por vosso amor, em defesa de vossa virgindade, de vossa dignidade de Mãe de Deus, de vossa Imaculada Conceição, se fosse preciso dar a vida para defender essas vossas sublimes prerrogativas.

Ah! Mãe diretíssima, aceitai o meu afeto e não permitais que um vosso servo, que vos ama, venha a ser inimigo de vosso Deus, a quem tanto amais. Ai de mim! que tal já fui, quando ofendi a meu Senhor. Mas então, ó Maria, eu não vos amava, nem buscava vosso amor. Agora, porém, nada mais desejo, depois da graça de Deus, que amar a minha Rainha e ser honrado com o seu amor. Minhas culpas passadas não me fazem perder a confiança, pois sei que vos dignais amar, ó benigníssima e gratíssima Senhora, até os mais miseráveis pecadores que vos amam, e sei também que por ninguém vos deixais vencer em amor.

Ah! Rainha amabilíssima, quero ir amar-vos no céu. Aí, prostrado a vossos pés, melhor conhecerei como sois amável e quanto tendes feito para minha eterna bem-aventurança. Por isso então muito mais vos hei de amar, sem receio de deixar de o fazer algum dia. Ó Maria, tenho a esperança de salvar-me por vosso auxílio. Rogai a Jesus por mim. Nada mais vos peço. A vós compete salvar-me: sois minha esperança. Quero, portanto, cantar sempre: ó Maria, esperança minha, por vós verei a Deus um dia.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Um Mês com Nossa Senhora ou Mês de Maria, segundo Santo Afonso Maria de Ligório. Edições Paulinas 1ª ed., 1949, p. 127-134)