Meditação para o dia 10 de Maio. Maria é Medianeira entre Deus e o s homens

Meditação para o dia 10 de Maio

É a graça de Deus um tesouro muito grande e muito desejável para todas as almas. O Espírito Santo lhe chama um tesouro infinito, pois por meio dela somos levados à honra de amigos de Deus.

“É ela um tesouro infinito para os homens: do qual os que usaram têm sido feitos participantes da amizade de Deus” (Sb 7, 14)

O Divino Salvador diz, por isso, aos que se acham no estado de graça:

“Vós sois meus amigos” (Jo 15,14)

Ó maldito pecado, que rompes essa bela amizade!

“Vossas iniquidades separam-vos de Deus” (Is 59, 2)

Igualmente aborrece o Senhor o ímpio e a sua impiedade (Sb 14, 9). O pecado, tornando a alma objeto de ódio para Deus, de amiga converte-a em inimiga de seu Senhor. Mas que deve fazer um pecador que tem a desventura de viver presentemente na inimizade de Deus? Precisa encontrar um medianeiro que lhe obtenha o perdão e o faça recuperar a perdida amizade com Deus. Consola-te, ó infeliz, diz São Bernardo, que perdeste a Deus. Como medianeiro deu-te o próprio Senhor seu Filho, Jesus Cristo, que pode atender a teus desejos. Que coisa haverá que um tal filho não consiga junto a seu Pai?

Mas, ó meu Deus, por que aos homens parece tão severo esse misericordioso Salvador, que, enfim, por salvá-los deu a sua vida? Assim pergunta o Santo. Por que julgam terrível, quem é tão amável? Que temeis, pecadores sem confiança? Ofendestes a Deus, é verdade, mas sabeis que Jesus pregou à cruz vossos pecados, com suas próprias mãos que os cravos transpassaram. Assim purificou nossas almas e satisfez com sua morte à divina justiça. Entretanto, recusais recorrer a Jesus Cristo, intimidados por sua majestade; pois ele, ainda feito homem, não deixa de ser Deus. Quereis outra advogada junto a esse medianeiro? Recorrei então a Maria! Por vós ela rogará ao Filho e ele com certeza a ouvirá. E o Filho intercederá ao Pai, que nada pode negar ao Filho. Termina o Santo dizendo:

“Filhos meus, essa divina Mãe é para os pecadores uma escada pela qual podem de novo subir aos cimos da divina graça. Maria é minha maior confiança; ela é a razão da minha esperança”

Eis o que o Espírito Santo faz dizer nos Cânticos à bem-aventurada Virgem:

“Eu sou um muro e meu peito é uma torre, pois me tornei como uma que acha a paz” (8, 10)

Sou a defesa dos que a mim recorrem, diz Maria; e a minha misericórdia lhes é um benefício, como uma torre de refúgio. E por isso o meu Senhor me fez medianeira da paz entre os pecadores e Deus, Realmente é Maria a pacificadora que obtém de Deus a paz para os inimigos, a salvação para os perdidos, o perdão para os pecadores, a misericórdia para os desesperados, assim comenta Hugo, cardeal. Seu Divino Esposo a chama por isso “bela como as tendas de Salomão” (Ct. 1, 4). Só de guerra se tratava nas tendas de Davi; só de paz se tratava, ao contrário, nas tendas de Salomão. Com essa comparação quer o Espírito Santo mostrar que essa Mãe de misericórdia cogita, não de guerras e de vinganças contra os pecadores, mas tão somente de paz e de perdão às suas culpas.

Tal é o motivo que faz da pomba de Noé uma figura de Maria. De volta à arca trouxe no bico um ramo de oliveira, como sinal da paz concedida aos homens por Deus. Sois aquela fidelíssima pomba de Noé, exclama Conrado de Saxônia, que, interpondo vosso valimento para com Deus, dele alcançastes a paz e a salvação para o mundo perdido. Maria, pois, foi a celestial pomba que trouxe ao mundo perdido o ramo de oliveira, sinal de misericórdia; porque ela nos deu Jesus Cristo, que é fonte da mesma misericórdia. A ela devemos, em virtude dos merecimentos de Cristo Senhor, todas as graças que Deus nos concede. E assim como por Maria foi dada ao mundo a verdadeira paz do céu, como diz Santo Epifânio, assim, por meio de sua mediação, os pecadores continuam a reconciliar-se com Deus. Por isto Santo Alberto Magno faz a Virgem dizer: Eu sou a pomba da arca de Noé, que trouxe à Igreja a paz universal.

Clara figura de Maria era também o arco-íris, do qual São João (Ap 4, 3) viu cercado o trono de Deus. Vitale, cardeal, assim fala sobre esse arco-íris: É Maria que assiste sempre perante o tribunal para mitigar as sentenças e os castigos merecidos pelos pecadores. Conforme a explicação de São Bernardino de Sena, era a Virgem também o arco-íris que Deus colocou nas nuvens e dele disse a Noé:

“Eu porei meu arco nas nuvens e ele será sinal de aliança entre mim e a terra” (Gn 9, 13)

Maria, diz o Santo, é este íris da eterna paz. Pois assim como Deus à vista dele se lembra da paz prometida à terra, assim também pelos rogos de Maria perdoa aos pecadores as ofensas que lhe fazem, e com eles faz as pazes.

Pela mesma razão ainda é Maria comparada à lua.

“És bela como a lua” (Ct 6, 9)

Aqui observa São Boaventura:

“Tal como a lua paira entre a terra e o céu, coloca-se Maria continuamente entre Deus e os pecadores para lhe aplacar a ira contra eles e iluminá-los, por que se voltem a Deus”

Na opinião de São João Crisóstomo, Maria foi feita Mãe de Deus também para que, por sua poderosa intercessão e doce misericórdia, se salvem os infelizes que por sua má vida não se poderiam salvar, segundo a justiça divina. Sim, Eadmero garante que Maria, mais por amor dos pecadores que dos justos, foi exaltada a ser Mãe de Deus. Pois o próprio Jesus Cristo protestou que viera chamar não os justos, mas os pecadores. Canta-se, por este motivo, o verso:

Os pecadores não desprezais;
Pois sem eles veríeis jamais
Ser vosso Filho, Filho de Deus

Guilherme de Paris ousa dizer: ó Maria, tendes obrigação de ajudar os pecadores, pois todos os vossos dons e as graças todas, toda a vossa grandeza, contida na dignidade de Mãe de Deus, tudo, enfim, — se me é lícito dizê-lo — deveis aos pecadores. Por amor deles dignou-se o Senhor fazer-vos sua Mãe. Ora, se Maria tornou-se Mãe de Deus em atenção aos pecadores, como posso eu desesperar do perdão dos meus pecados, por enormes que sejam? Assim argumenta Eadmero.

Na Missa da vigília da Assunção faz-nos a Igreja saber “que a Mãe de Deus foi transferida deste mundo para interceder por nós junto a Deus, no céu, com plena confiança de ser atendida”.

EXEMPLO

Numa missão pregada pelos padres redentoristas, após o sermão de Nossa Senhora, veio confessar-se um velho que não cabia em si de contente.

— Sr. padre, Nossa Senhora me fez essa graça tão grande, disse o velho. Mas que graça? Perguntou-lhe o sacerdote. Ouça. reverendo: Desde a idade de 35 anos me venho confessando sacrilegamente, só por vergonha de contar um pecado. Durante esse tempo estive a morte e, se então a morte me surpreendesse, estaria agora condenado. Mas hoje deu-me Nossa Senhora coragem. Dizia o pobre tudo isso por entre lágrimas que muito comoviam. Depois da confissão, perguntou-lhe o missionário se venerava a Santíssima Virgem com alguma prática religiosa. Contou-lhe o velho então que aos sábados abstinha-se de carne e por isso Nossa Senhora dele se compadecera. Ao mesmo tempo autorizou a narração deste fato.

ORAÇÃO

Ó grande Mãe de meu Senhor, sei que a ingratidão que há anos tenho usado para com Deus e convosco, justamente merecia que deixásseis de ter cuidado de mim; porque o ingrato é indigno de benefícios. Mas tenho Senhora, em grande conceito vossa bondade; estou certo que ela é muito maior que a minha grande ingratidão. Continuai, pois, ó refúgio dos pecadores, e não deixeis de socorrer um miserável, que em vós confia. Ó Mãe de misericórdia, dai a mão a um pobre caído, que recorre à vossa piedade a fim de se poder levantar. Ó Maria, ou defendei-me ou dizei-me quem melhor que vós me possa defender. Mas onde posso eu achar uma advogada junto a Deus mais compadecida, ou mais poderosa do que vós.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Um Mês com Nossa Senhora ou Mês de Maria, segundo Santo Afonso Maria de Ligório. Edições Paulinas 1ª ed., 1949, p. 78-83)