Meditação para a Quinta-feira da Sexagésima. Meios de nos aproveitarmos da Palavra de Deus

Meditação para a Quinta-feira da Sexagésima

SUMARIO

Meditaremos nos meios de tirar proveito da palavra de Deus, e veremos que devemos:

1.° Ouvi-la com fé;

2.° Apropriar-no-la;

3.° Deduzir dela resoluções praticas.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De nos figurarmos, a cada ensino ou a cada lição o próprio Deus que nos instrui, e de nos apropriarmos o que Ele nos diz;

2.° De tirarmos de cada ensino ou leitura resoluções práticas para a reforma da nossa vida.

O nosso ramalhete espiritual será o conselho de São Tiago:

“Sede fazedores da divina palavra, e não ouvidores tão somente, enganando-vos a vós mesmos” – Estote factores verbi, et non audotres tantum, falentes vosmetipsos (Tg 1, 22)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor ensinando aos seus Apóstolos a ciência da salvação; admiremos com que fé, com que silêncio ouviam este admirável Mestre, como se apropriavam o que lhes dizia, e o punham em prática. Imploremos uma parte nessas disposições e graças para bem nos aproveitarmos da Palavra de Deus.

PRIMEIRO PONTO

Devemos ouvir com fé a palavra de Deus

Muitas vezes ouve-se esta divina palavra como uma palavra humana, como um discurso profano, por curiosidade, para avaliar o seu mérito, ou com negligência, como coisa indiferente. É um erro que tem funestas consequências. Quando ouvimos esta santa palavra, devemos dizer conosco:

Não é um homem, é Deus que me fala, o mesmo Deus que há de ser o meu juiz. Um dia Ele há de vir e pedir-me conta de tudo o que eu ouço. A sua palavra nunca volta vazia para diante dEle, produz os frutos de benção, se dela se aproveitam, ou frutos de condenação eterna se a deixam estéril… É Deus que me fala, Deus com a Sua suprema autoridade; por conseguinte devo ouvi-lO religiosamente, com uma perfeita docilidade de espírito e de coração, sem me atrever a censurá-lO, sem preconceito, ou antes sacrificando-lhe todos os meus preconceitos, se alguns se me apresentarem ao pensamento… É Deus que me fala, e que me fala para meu bem, para me ensinar o caminho do céu, e me incitar a segui-lO (1); por conseguinte devo ouvi-lO com este intuito, não buscar na palavra divina senão o meio de vir a ser melhor, e suplicar-Lhe que me esclareça, que me comova, que me faça pôr em prática os Seus santos conselhos (2).

É deste modo que eu ouço a palavra de Deus? Vejo eu naquele que m’a anuncia o Deus que ele representa, sem atenção ao que é do homem, ao estilo, ao gesto, a todo o exterior? Escutei eu, como se o mesmo Deus ali estivesse, descido do céu para me instruir?

SEGUNDO PONTO

Devemos apropriar-nos à Palavra de Deus

A palavra que não nos apropriamos, é como o dardo que passa por cima da cabeça do inimigo sem lhe tocar; é a semente levada pelo vento, e que, não penetrando na terra, não pode nela germinar nem dar fruto. É esta a razão porquê tantos sermões e tantas leituras me foram inúteis; eu disse comigo: «Isto adapta-se bem a certa pessoa»; e quase nunca disse comigo:

«Eis aqui o que perfeitamente me convém, li este, verdadeiramente,o retrato da minha consciência, da minha índole, do estado da minha alma»

Se, em vez de discorrer assim, eu tivesse refletido seriamente sobre o meu procedimento, aberto à palavra santa a porta do meu coração, ela me teria revelado, através dos recônditos da minha alma, as paixões ocultas, as secretas inclinações, as voluntárias imperfeições que existiam em mim. Porque a palavra de Deus, diz São Paulo, é viva e eficaz; mais penetrante do que toda a espada de dois gumes, chega até ao íntimo da alma e do espírito, às juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração (Hb 4, 12). Examinemos se somos exatos em apropriar-nos os ensinos que ouvimos, ou as leituras que fazemos.

TERCEIRO PONTO

Dê todos os ensinos devemos tirar resoluções práticas para a reforma da nossa vida

Sede fazedores da palavra divina, diz São Tiago, e não ouvidores tão somente, enganando-vos a vós mesmos; seria imitar o homem, que contempla num espelho o seu rosto, depois vai-se e esquece-o (3). De que nos serve ver as nossas misérias no espelho da divina palavra se, esquecendo o que vimos, não tratamos de corrigir-nos, e nenhuma resolução tomamos própria para nos tornar melhores? Não nos aproveitamos da santa palavra senão enquanto perseverarmos em emendar-nos e em domar as nossas paixões, como aqueles de quem está dito que dão fruto pela paciência (4). Pode-se dizer isto de nós? Examinemos a nossa consciência, e emendemo-nos.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ad dandam scientiam salutis (Lc 1, 77)

(2) Loquere Domine, quia audit servus tuus (1 Sm 9, 10)

(3) Consideravit se et ablit, et statim oblitus est qualis fuerit (Tg 1, 24)

(4) Fructum afferunt in pacientia (Lc 8, 15)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 57-60)