Meditação para a Quinta Terça-feira depois de Pentecostes. Visitas ao Santíssimo Sacramento

Meditação para a Quinta Terça-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre a visita ao Santíssimo Sacramento, e veremos:

1.° Que esta vista é para nós um dever;

2.º Que os nossos mais preciosos interesses a isso nos convidam.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De fazermos cada dia uma visita ao Santíssimo Sacramento;

2.º De nunca passarmos por defronte de uma igreja sem nela entrar por alguns instantes, quando isso nos for possível.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Nosso Senhor:

“Estai certos de que eu estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos” – Ecce ego vobiscum sum omnibus diebus usque ad consummationem saeculi (Mt 28, 20)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor Jesus Cristo habitando nos nossos altares como um rei em seu palácio, sempre acessível aos seus súditos, para lhes dar audiência, e lhes liberalizar os seus magníficos favores. Oh! Quão digno é neste estado de todos os nossos louvores e bênçãos!

“Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro:  benção, honra, glória e poder por séculos dos séculos” – Sedenti in throno et Agno, benedictio, et honor, et gloria, et potestas in saecula saeculorum (Ap 5, 13)

PRIMEIRO PONTO

É para nós um dever visitar muitas vezes o Santíssimo Sacramento

Se houvesse no mundo um lugar, onde Jesus Cristo Se mostrasse debaixo de uma forma sensível como outrora na Judéia, onde conversava familiarmente com quem queria visitá-lO, seria para nós um dever e uma felicidade ir falar-Lhe, se nos não separasse dEle enorme distância. Que seria, pois, se Ele mesmo Se antecipasse e viesse habitar perto de nós, quase à nossa porta, dizendo-nos:

Vinde a mim; tenho muito gosto em conversar convosco e em liberalizar-vos os meus dons?

Que pressa teríamos em ir visitá-lO, e quão condenável acharíamos aquele que não o fizesse! Ó homens de pouca fé que somos! Não temos nós na Eucaristia o mesmo Jesus Cristo, que os magos adoraram, que a Judéia viu andando a fazer bem e curando a todos (1); aquele de quem o Pai celestial disse:

“Todos os anjos de Deus o adoram”? – Et adorent eum omnes angeli Dei (Hb 1, 6)

Este verdadeiro Salomão não se contentou com ter em Jerusalém, isto é, no céu, um trono magnífico; quis ter também no meio de nós e ao nosso alcance um trono mais simples para ali nos receber a todos os instantes (2); de onde nos diz:

“Vinde a mim todos” (3); “estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (4); “e acho as minhas delícias em estar na vossa companhia” (5)

Todos os dias vos estendo os braços (6). Vinde a mim; o meu coração e as minhas mãos exuberam de graças para vos enriquecer (7). E todavia, ó dureza dos homens! Não nos comovem tão ternos convites! A rainha Sabá vem das extremidades da terra visitar Salomão; e nós temos nos tabernáculos quem é mais que Salomão (8). Os homens mundanos dão grande apreço à audiência de seu príncipe ou monarca; e nós, a quem Jesus, nosso divino rei, oferece uma audiência tão frequente, tão prolongada quanto quisermos, visitamo-lO tão raras vezes! Um amigo gosta de estar com o seu amigo, e nós gostamos tão pouco de conversai com Jesus! Parece ser o único, cuja companhia nenhum atrativo tenha para nós (9). Temamos que, depois de termos sido tão pouco solícitos em comparecer ante o trono da Sua misericórdia para ali sermos perdoados, não nos vejamos um dia obrigados a comparecer ante o trono da Sua justiça para sermos condenados (10), e que nos não diga:

“Estava nos meus tabernáculos e não me visitastes” – Hospes eram… et in carcere, et non visitastis me (Mt 14, 43)

SEGUNDO PONTO

Os nossos preciosos interesses nos convidam a visitar o Santíssimo Sacramento

Os tabernáculos são o trono da graça, onde Jesus Cristo liberaliza os Seus favores a quem O visita. Vamos expôr-Lhe as nossas necessidades com simplicidade e confiança, e seremos socorridos. Uma só visita ao Santíssimo Sacramento basta muitas vezes para vos restituir à alma perturbada a sua tranquilidade e paz; ela tinha vindo triste e desfalecida, e sai cheia de consolação e de alegria; tinha vindo tíbia, fraca, e distraída, e retira-se reanimada, recolhida. Seria impossível dizer todas as graças, que recebe a alma nestas santas visitas. É ali, que Jesus Cristo cumpre as Suas promessas:

“Pedi e recebereis” – Petite et accipietis (Jo 16, 21)

É ali, que se obtêm as luzes que esclarecem, a unção divina que move a graça que santifica; a ponto que se poderia quase responder pela salvação de uma alma, que faz cada dia a sua visita ao Santíssimo Sacramento (11). É ali finalmente, que alcança, além das graças para si, graças para os seus parentes, para a sua paróquia, para a Igreja, para todo o mundo: porque os tesouros de Jesus Sacramentado são inexauríveis. Como sucede, pois, que, tendo ao nosso alcance a fonte de tantos bens, a ela recorramos tão poucas vezes, e que, quando Jesus Cristo deseja dar-nos as Suas graças, tenhamos tão pouco zelo em ir recebê-las?

Examinemos aqui a nossa consciência. Temos nós um tempo prefixo para visitar o Santíssimo Sacramento? Somos exatos em visitá-lO? Não olhamos algumas vezes como menos bem empregado o tempo que passássemos ao pé dos altares? Não preferimos a estas visitas as dos nossos amigos, ou certas visitas tão inúteis como perigosas? Finalmente, é diante dos tabernáculos que, nas nossas tentações, desfalecimentos ou desgostos, vamos procurar consolação e força?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Pertransiit benefaciendo et sanando omnes (At 10, 38)

(2) Ferculum fecit sibi rex Salomon de lignis Libani (Ct 3, 9)

(3) Venite ad me, omnes

(4) Ecce ego vobiscum sum omnibus diebus (Mt 28, 20)

(5) Deliciae meae esse cum filiis hominum (Pr 8, 31)

(6) Expandi manus meas tota die (Is 65, 2)

(7) Venite, filii, audite me (Sl 33, 12)

(8) Ecce plus quam Salomon hic (Mt 12, 42)

(9) Solius Dei impatientes (Tertuliano)

(10) Coget omnes ante thronum (Prosa Dies irae)

(11) Accedite ad eum et illuminamini (Sl 33, 6)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 236-242)