Meditação para o 3º Domingo depois do Pentecostes. Salvação das Almas

Evangelho de Nosso Senhora Jesus Cristo segundo São Lucas 15, 1-10

1Aproximavam-se dele todos os cobradores de impostos e pecadores para o ouvirem. 2Mas os fariseus e os doutores da Lei murmuravam entre si, dizendo: «Este acolhe os pecadores e come com eles.»

3Jesus propôs-lhes, então, esta parábola:

4«Qual é o homem dentre vós que, possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai à procura da que se tinha perdido, até a encontrar? 5Ao encontrá-la, põe-na alegremente aos ombros 6e, ao chegar a casa, convoca os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida.’

7Digo-vos Eu: Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão.»

8«Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perde uma, não acende a candeia, não varre a casa e não procura cuidadosamente até a encontrar? 9E, ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas e diz: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida.’

10Digo-vos: Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte.»

Meditação para o 3º Domingo depois do Pentecostes

SUMARIO

Interromperemos as nossas meditações sobre o santo sacrifício, para meditar o Evangelho do domingo; e veremos:

1.° Como, de um lado, as almas se perdem;

2.° Como, do outro lado, Jesus Cristo procura salvá-las.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De evitarmos com grande cuidado as menores culpas, porque conduzem às maiores, e de rompermos todas as nossas afeições, porque arriscam a nossa salvação;

2.° De obedecermos fielmente aos atrativos da graça, que nos chama para uma vida mais perfeita.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do nosso Evangelho:

“Haverá júbilo no céu por um pecador que fizer penitência” – Gaudium erit in caelo super uno peccatore paenitentiam agente (Lc 15, 7)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo mostrando-Se-nos, no Evangelho deste dia, sob a dupla alegoria de um pastor, que vai em busca da ovelha desgarrada, e achando-a, põe-a aos seus ombros, e a leva ao aprisco; e de uma pessoa que, tendo perdido uma dracma, a busca até que a acha. Agradeçamos-Lhe estas duas alegorias, que fazem tão bem sobressair a Sua misericórdia e o ardente desejo, que tem de nos salvar.

PRIMEIRO PONTO

Como se perdem as almas

Vemo-lo na ovelha desgarrada, de que fala o nosso Evangelho:

1.° Esta ovelha busca um pouco de erva, de que gosta, e achando-a, demora-se com ela; entretanto, o pastor e o rebanho vão para outro lado, e ei-la desgarrada. É assim, que a perdição de uma alma começa por uma culpa leve, quase involuntária. É o primeiro passo para deixar Deus;

2.° A ovelha vê, que se separou do pastor; não lhe mete medo esta separação, nem o perigo a que se expõe; fica onde está. É assim que depois das nossas culpas, que apenas olhamos como tais, não nos arrependemos; confessamo-las sem dor e sem firme propósito de não tornar a cometê-las; ficamos como estamos;

3.° A ovelha, pouco prudente e sem guia, vai lançar-se nos abrolhos e espinhos, em que se emaranha, e de onde só se tira dificilmente e raras vezes: é a imagem dessas afeições, que prendem o coração e o levam a culpas maiores;

4.° Finalmente a ovelha, debatendo-se entre esses abrolhos, que a laceram, cai em um fosso, de onde não sai mais. É a figura dessa cegueira espiritual, estado deplorável, noite horrenda, onde não se vê já, que desgraça é perder a amizade de Deus, as Suas graças e recompensas; sacrificar o céu, expôr-se ao inferno por um interesse transitório, por um prazer frívolo, uma honra fútil, uma vã satisfação.

Se quisermos evitar tamanha desgraça, fujamos das menores culpas, arrependamo-nos, logo que a consciência no-las mostrar, e precatemo-nos das afeições e das menores culpas que conduzem às maiores. Pensemos aqui seriamente sobre a nossa conduta.

SEGUNDO PONTO

Como procura Jesus Cristo salvar as almas

É tal o amor de Jesus Cristo pelas almas que O deixaram, que, quando voltam para Ele, está sempre pronto a perdoar-lhes, e se reputa ofendido com a falta de confiança na Sua misericórdia. Se não voltam para Ele, persegue-as com as Suas graças interiores e exteriores até que voltem. É o que Ele nos dá a entender por esse pastor, que deixa as suas noventa o nove ovelhas, e vai buscar no deserto a ovelha desgarrada. Ele não cessa de a buscar senão depois de a ter achado. E logo que a acha, ó terno amor de Jesus Cristo pelos pobres pecadores! Longe de a castigar da sua infidelidade, afaga-a, põe-a aos ombros, leva-a ao aprisco, e festeja a sua volta: isto é, que pela unção da Sua graça, a atrai, a conduz, e lhe faz gozar tanta doçura na sua volta, que ela é antes levada do que caminha. Finalmente, tornando a entrar no aprisco, as delícias da inocência recuperada, da amizade de Deus recuperada, da esperança de uma feliz eternidade, fazem do dia da sua reconciliação um dia de festa.

A mesma verdade nos é representada pela dracma perdida do nosso Evangelho. Esta dracma, esta pedra preciosa, esta pérola inestimável, são as nossas almas, a que São Cipriano chama pretiosa monilia Cristi, e que Deus destina ao adorno do Seu paraíso. Para a salvar, Jesus Cristo tem revolvido o mundo; envia sacerdotes em sua busca por toda a parte, e quando recupera alguma, há um grande júbilo no céu! Ó inestimável preço das almas! Ditosos os sacerdotes empregados em ganhá-las para Jesus Cristo! Lembremo-nos de tudo o que Jesus Cristo fez para nos salvar. Demos-Lhe graças pelo passado, e proponhamo-nos aproveitar-nos melhor das Suas graças para o futuro,

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 187-190)