Meditação para a Nona Quarta-feira depois de Pentecostes. Regras que devemos observar nas Conversações

Meditação para a Nona Quarta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos:

1.° Como devemos portar-nos para com as diversas classes de pessoas com quem temos de conversar;

2.° Qual deve ser o objeto mais ordinário das nossas conversações.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De antes querermos falar com os pobres, os simples e os pequenos, do que com os grandes;

2.° De intrometermos sempre nas nossas conversações alguma coisa que edifique ou utilize, e de nada dizermos que a virtude não aprove.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Espírito Santo:

“O sábio faz-se amável pelas suas palavras” – Sapiens in verbis seipsum amabilem facit (Ecl 20, 13)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor nas suas conversações. Prefere conversar com os pobres, os pequenos, os simples, e principalmente com os que lhe recomenda seu Pai (1); fala com eles sobre coisas de piedade próprias para os trazer para Deus; ensinando-nos assim a portar-nos conforme ao Evangelho (2). Demos graças pelo belo exemplo que nos oferece.

PRIMEIRO PONTO

Como devemos portar-nos para com as diversas classes de pessoas com que temos de conversar

1.° Quaisquer que sejam as pessoas com quem temos de conversar, a religião prescreve-nos que sejamos sempre honestos, amáveis, obsequiosos (3); que tratemos cada um segundo o seu merecimento, a sua dignidade, o seu caráter, tendo com uns um modo mais sério, com outros um modo mais jovial (4); que evitemos para com todos quaisquer mostras de afetação, de altivez, de austeridade, de contradição ou dissimulação; finalmente que nos portemos de maneira que nenhum tenha motivo de se queixar de nós e todos fiquem edificados com o nosso procedimento (5).

2.° Se são pessoas que nos desagradam, devemos ocultar debaixo de um exterior gracioso a repugnância interior, e não manifestar o menor enfado ou severidade. Se, ao contrário, são pessoas que nos agradam, devemos guardar-nos de ser demasiadamente francos no falar: nada dizer que não seja conveniente, e desconfiar das relações muito íntimas, que cativam e preocupam o coração. Devemos ser amigos de todos, familiares com quase ninguém; e esta observação, sempre verdadeira, o é principalmente entre pessoas de diferente sexo.

3.° Se são inferiores, pobres, simples ou pequenos, a caridade proíbe-nos que os evitemos, desprezemos, contristemos com um ar altivo, desdenhoso, pesaroso, e que usemos de pretexto para os despedir. Ao contrário, ordena-nos que os recebamos com agrado, que lhes falemos com bondade, conforme a sua repreensão, e que façamos com que se retirem contentes de ao pé de nós.

4.° Se são pessoas de alta hierarquia, a prudência e a humildade proíbem-nos que busquemos a sua companhia; que diligenciemos insinuar-nos no seu ânimo; que os lisonjeemos, aprovemos, louvemos o que fazem ou dizem, quando a consciência o não permite. Convém, diz São Francisco de Sales, que nos portemos para com eles como para com o fogo, não nos aproximarmos muito deles. Quando a isso somos obrigados, devemos guardar uma completa modéstia, que indique que os respeitamos, e uma honesta franqueza, que lhes prove que os amamos.

5.° Se são pessoas fervorosas, cuja conversação atrai para Deus e para a virtude, devemos buscá-las e comprazer-nos na sua companhia; mas se são pessoas relaxadas ou irreligiosas, é conveniente que procuremos ganhá-las com palavras e maneiras agradáveis; e se não o conseguimos, e virmos, ao contrário, que a sua companhia nos é prejudicial, devemos evitá-las.

São estas as regras que tendes seguido?

SEGUNDO PONTO

Qual deve ser o objeto mais ordinário das nossas conversações

As nossas conversações deveriam, primeiro que tudo, ser edificantes; o coração do sábio instrui a sua boca, e acrescenta graças aos seus lábios, diz o Espírito Santo (6); isto é, que, como a boca diz o que sente o coração, como se fala de boa vontade do que se ama, um cristão deve intrometer de tempos a tempos nas suas conversações algumas palavras edificantes a respeito de Deus, da salvação, da eternidade, da religião, da Igreja, dos santos e dos seus belos exemplos. Não seria cristão aquele que só gostasse de palavras mundanas, vãs e fúteis.

Quando as nossas conversações não têm este caráter de edificação, devem ao menos ter um caráter de utilidade; porque não é digno de um homem sensato falar somente de coisas fúteis.

Finalmente, quando as nossas conversações não são nem edificantes nem úteis, devem ser ao menos irrepreensíveis; isto é, que se algumas vezes podemos nelas só ter em vista um honesto recreio, convém ao menos que a virtude não ache nelas nenhuma palavra que reprovar; que o amor da verdade afaste delas toda a dissimulação, todas essas mentiras tão familiares ao amor-próprio, para encobrir uma verdade que humilha, dar-se uma importância que não se possui, ou suplantar os outros, ou deprimi-los para nos exaltarmos; convém que o amor do próximo delas expulse toda a maledicência ou crítica, todo o escárnio dos presentes ou ausentes, todos os contos próprios para semear a discórdia, todas essas invejas, que não podem ouvir louvar os outros sem os deprimir; convém, finalmente, que a humildade não ache nelas a menor palavra de amor-próprio ou de vaidade que censurar, e que a mansidão não seja ofendida por nenhuma altercação ou disputa, nem o espírito cristão por nenhuma máxima do mundo contraria ao Evangelho.

Têm as nossas conversações estes caracteres?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Pater, quos dedisti mihi, volo ut ubi, sum ego et illi sint mecum (Jo 17, 24)

(2) Digne evangelio conversamini (Fl 1, 27)

(3) Lingua eucharis in bono homine abundat (Ecl 6, 5)

(4) Sermo vester semper in gratia sale sit conditus, ut sciatis quomodo oporteat vos unicuique respondere (Col 4, 6)

(5) Exemplum esto fidelium in verbo, in conversatione (1Tm 4, 12)

(6) Cor sapientis erudiet os ejus et lablis ejus addet gratiam (Pr 16, 23)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 51-54)