Meditação para a Décima Oitava Terça-feira depois de Pentecostes. Que é a Caridade?

Meditação para a Décima Oitava Terça-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

As nossas meditações precedentes têm tido por objeto expurgar o nosso coração de todo o apego à criatura; é tempo agora de procurar enchê-lo do amor divino. E por esta razão que consideraremos o que é o amor divino; e veremos que consiste:

1.° Em amar a Deus, por ser quem é;

2.° Em amá-lO sobre todas as coisas;

3.° Em amá-lO com todas as nossas forças.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De multiplicarmos o mais possível as aspirações de amor para com Deus, a fim de Lhe pedirmos a graça de O amar cada vez mais;

2.° De praticarmos todas as nossas ações por amor.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Santo Agostinho:

“Ó fogo, que sempre ardes, abrasa-me para que te ame de todo o meu coração” – O ignis qui semper ardes, accende me, ut totus diligate! (Santo Agostinho, Confissões livro 10, 9, et Solil, 29)

Meditação para o Dia

Adoremos a Deus dando-nos o suave preceito do amor:

“Amareis ao Senhor vosso Deus” – Diliges Dominum Deum tuum (Dt 6, 5; Mc 12, 30)

Posto que o amor com que Ele se ama baste à sua felicidade, quer ainda ser amado das suas criaturas. Posto que todos os anjos e santos se abrasem em amor para com Ele, isto não satisfaz o seu coração; quer, que a terra participe da felicidade do céu, e que O amemos também. Não só permite esta correspondência de amor entre Ele e nós, mas no-la impõe, nos ameaça com a sua ira se não O amamos. Admiremos, com Santo Agostinho, este excesso de amor!

“Porque, que sou eu para Vós, ó meu Deus, para que me obrigueis a amar-Vos, e Vos ireis contra mim, se o não fizer?” – Quid tibi sum ego, ut amari tu jebeas a me, et nisi faciam, irascaris mihi? (Confissões, livro 11)

PRIMEIRO PONTO

Devemos amar a Deus por ser quem é

Sem dúvida Deus merece que O amemos infinitamente por todos os bens que nos tem liberalizado desde que estamos na terra, assim como por todos aqueles que nos destina no céu. Mas amá-lO por esta razão, não é cumprir com o preceito do amor divino, é satisfazer apenas a lei da gratidão. O verdadeiro amor abstrai-se de todo o interesse próprio; e elevando-se até Deus considerado em si mesmo, ama a sua infinita perfeição, digna por si só de cativar todos os corações, a bondade suma, a beleza incomparável, que nunca pode ser suficientemente amada, ainda que nenhuma recompensa disso se tivesse a esperar. Vendo estas perfeições infinitas, a alma rompe em transportes, e exclama com os santos:

“Deus só! Deus só é tudo para mim” – Deus meus et omnia

E nada há no céu e na terra que eu deseje senão Vós, ó meu Deus! Vós, todo o bem (1), Vós, formosura sempre antiga e sempre nova, por quem eu suspiro (2), e cuja contemplação me conservará por toda a eternidade em um perpétuo êxtase de alegria, de felicidade e de amor (3). Neste ditoso estado, somente se tem no coração um desejo, o desejo de agradar a Deus. Amamo-lO não só porque o merece infinitamente, mas porque assim o quer, porque é essa a sua vontade, e a sua vontade é tudo para quem O ama do coração.

Examinemos se temos amado a Deus desta sorte. Não O temos nós amado somente em razão do bem, que nos fez, da glória, que nos promete, do céu que esperamos? Fazemos muitas vezes atos de amor de Deus, e temos profundamente arraigado no coração este sentimento de amor de Deus, unicamente por ser quem é?

“A razão de amar a Deus, diz São Bernardo, é Deus” – Ratio amandi Deum, Deus est

SEGUNDO PONTO

Devemos amar a Deus sobre todas as coisas

Amar a Deus sobre todas as coisas é estarmos dispostos a antes sacrificar tudo do que ofendê-lO e desagradar-Lhe; é conservarmos todo o nosso ser e toda a nossa existência sujeita à sua vontade; é preferirmos a glória de Lhe pertencer, de O servir, e de Lhe agradar a todas as riquezas, a todas as grandezas, a todas as delícias da terra; é estarmos dispostos a antes separar-nos dos nossos parentes ou amigos, a antes nos desavirmos com todos aqueles a quem temos mais afeição, a antes sacrificar a nossa própria satisfação, a nossa saúde, a nossa mesma vida, se fosse necessário, do que faltar ao que Deus exige de nós.

Que coisa mais justa, que esta disposição? Não deve Deus ser preferido a tudo?

“O que ama o pai ou a mãe mais do que a mim, diz Jesus Cristo, não é digno de mim” (Mt 10, 37)

Deus está primeiro que tudo, primeiro que a fortuna, primeiro que o prazer e a prosperidade, primeiro que todo o universo. Quão pouco compreendida é esta verdade! Quando esses homens, de que fala o Evangelho, foram convidados para as bodas do Cordeiro, um deles disse:

“Eu comprei uma quinta, e é necessário ir vê-la” – Villam emi (Lc 14, 18)

Que é isto comparado com a posse de Deus, que essas bodas simbolizam? Nada é, e esse nada custa mil cuidados e trabalhos. Não importa; por esse nada, perde-se a Deus.

“Comprei cinco juntas de bois, e vou fazer a prova deles” – Juga bovum emi quinque, et eo probare illa (Lc 14, 19)

Não os conhecem pois sequer, e, todavia, têm-lhes apego. Oh! Quanto se guardariam de se apegar ao mundo, se conhecessem as suas misérias, as suas infidelidades! Não posso ir ao banquete, dizem outros (4); e deste modo, ora por uma razão, ora por outra, perdem o céu, perdem a Deus, porque não O amam sobre todas as coisas.

Quanto a mim, Senhor, quero amar-Vos sobre todas as coisas. Tirai-me tudo, exceto o Vosso amor, ficarei contente, e perderei tudo de boa vontade por amor de Vós. Não me tirando o Vosso amor, deixar-me-eis tudo o que quero; o Vosso amor me basta, e tudo o mais nenhum valor tem para mim. A mesma imortalidade só me é preciosa porque por ela possuirei para sempre o Vosso puro amor; desejaria antes expirar neste momento do que estar um só instante sem o Vosso puro amor.

Sondemos o nosso coração: são estas as nossas disposições ?

TERCEIRO PONTO

Devemos amar a Deus com todas as nossas forças

Isto é:

1.° De todo o nosso coração, de sorte que não amemos senão a Deus, que O amemos sobre todas as coisas;

2.° De todo o nosso entendimento, comprazendo-nos em pensar nEle e nos meios de Lhe agradar;

3.° De toda a nossa alma, sujeitando-lhe todas as nossas paixões e usando unicamente dos nossos sentidos, quer interiores, quer exteriores, segundo a sua vontade;

4.° Com todas as nossas forças, não nos poupando, quando se trata de cumprir a sua vontade, e empregando todas as nossas forças em servi-lO.

É assim, que amamos a Deus?

No nosso coração, que apego às nossas comodidades, à sensualidade, ao amor-próprio! Que afeições, e intenções, que se não referem a Deus!

No nosso entendimento, que esquecimento de Deus, que habitual distração! As mais das vezes falamos e obramos como se Deus não existisse, unicamente ocupados em agradar à criatura, ou em comprazer-nos em nós mesmos.

Na nossa alma, damos largas à imaginação, à curiosidade, às nossas paixões, a respeito de tudo o que não apresenta os caracteres evidentes de pecado mortal.

No uso dos nossos sentidos e das nossas faculdades, queremos servir a Deus sem nos incomodarmos, nem nos constrangermos. Logo que sobrevêm a tribulação, recuamos. Enquanto o dever se concilia com o prazer, cumprimo-lo fielmente; apenas exige um sacrifício, um esforço da nossa parte, abandonamo-lo. Evidentemente isto não é amar a Deus com todas as nossas forças.

Examinemos, depois disto, se podemos lisonjear-nos de amar a Deus d’esta sorte.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Omne bonum (Ex 33, 19)

(2) Quando veniam et apparebo? (Sl 41, 3)

(3) Satiabor cum apparuerit gloria tua (Sl 16, 15)

(4) Non possum venire (Sl 16, 20)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 46-50)