Meditação para o 1º Domingo depois da Epifania. Procedimento de Herodes

Meditação para o 1º Domingo depois da Epifania

SUMARIO

Depois de termos estudado a felicidade dos reis magos, meditaremos agora a conduta de Herodes nesta conjuntura. Assinalam-a três caracteres:

1.° A sua turbação sabendo do nascimento do Messias;

2.° A sua hipocrisia;

3.° A sua ilusória esperança.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos afeiçoarmos a Deus só e de nos dirigirmos sempre a Ele sem rodeios nem dissimulação;

2.° De confiarmos na Sua providência no meio de todos os acontecimentos.

O nosso ramalhete espiritual será a máxima do Espírito Santo:

“O afeto de Deus é para os que andam em simplicidade” – Voluntas ejus in iis qui simpliciter ambulant (Pr 11, 20)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo trazendo a paz e a felicidade aos homens de boa vontade (1), e deixando por sorte aos Seus inimigos a turbação e a desgraça (2). Agradeçamos-Lhe a Sua bondade para com os Seus escolhidos, e admiremos a Sua justiça para com os que O desconhecem.

PRIMEIRO PONTO

Turbação de Herodes sabendo do nascimento do Messias

Este nascimento era sem dúvida o acontecimento mais feliz para a terra; e a notícia dele havia alegrado o coração dos magos. Herodes apreciou-o de muito diferente modo. Quando, com a simplicidade e candura de uma alma reta, os magos vêm anunciar-lhe este grande acontecimento, e perguntar-lhe onde nasceu o Salvador tanto esperado, este monarca turba-se; receia perder a sua corôa, e toda a Jerusalém se turba com ele. Assim se turbe todo o coração que está dominado de alguma paixão. Se nos censuram, se nos humilham, se contrariam os nossos desejos ou somente se receamos alguma coisa semelhante, se imaginamos não sermos estimados, é quanto basta, caímos na turvação e tristeza; não podemos suportar que a nossa soberba, a nossa vaidade, o amor do nosso bem-estar, sejam escarnecidos nem desatendidos na mais mínima coisa. Não há paz e felicidade senão para aquele que, livre de todo o apego, nada deseja na terra (3). Roguemos a Deus que nos faça compreender bem esta importante verdade.

SEGUNDO PONTO

Hipocrisia de Herodes

Herodes, diz o sagrado texto, tendo chamado secretamente os magos, inquiriu deles, com todo o cuidado, que tempo havia que lhes aparecera a estrela, e enviando-os a Belém, disse-lhes: Ide e informai-vos bem que Menino é esse; e depois que o houverdes achado, vinde-m’o dizer para eu ir também adorá-lO (Mt 2, 7-8)

É assim que debaixo das aparências de respeito e de piedade, este príncipe hipócrita ocultava o desígnio de dar a morte ao divino Menino. Esta hipocrisia repugna-nos; é com efeito abominável diante de Deus e diante dos homens. A hipocrisia é uma dissimulação infamante para a dignidade humana, e que merece todo o desprezo. Todavia, por mais vergonhoso que seja este vício, ele é mais comum do que se pensa; porque são hipócritas os que aparentam o que não são, que se portam em segredo de diverso modo que em público, que cuidam mais em encobrir os seus defeitos do que em corrigi-los. Ora não estão muitas pessoas neste caso, e não estamos nós talvez? São hipócritas os que falam de uma maneira e pensam de outra; que sacrificam a sinceridade ao amor-próprio, que dizem mal de si mesmos para incitar os outros a dizer bem deles e a afirmar o contrário do que eles afirmam. Ora não estamos nós ainda neste caso? Finalmente, são hipócritas os que carecem de retidão nas obras e palavras, que usam de dissimulação, de dobrez, e até empregam facilmente a mentira. Ora não sucede tudo isto muitas vezes conosco? Oh! Quão grande é o número dos hipócritas, e quão poucas almas há essencialmente retas e sinceras, que anteponham a tudo a franqueza, ainda que seja à custa do amor-próprio! Quão poucas há, de quem se possa dizer, como de Natanael: Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo (1), simulação, que é sempre simples e reto, sempre amigo da verdade !

TERCEIRO PONTO

Ilusória esperança de Herodes

Os maus nada podem contra Deus, que sabe servir-se das más inclinações deles para sua confusão e maior bem dos Seus escolhidos. Por conseguinte frustrou os planos ímpios de Herodes, ordenando aos magos que voltassem para a sua terra por outro caminho, e a José que fugisse para o Egito com o Menino. Se Herodes mandou matar todos os meninos que havia em Belém e em todo o seu termo, que tivessem dois anos, essa morte não fez mais do que dar ao céu novos santos, e entregar o tirano à execração de todos os séculos. Sucederá sempre o mesmo com os que perseguem Jesus Cristo na Sua Igreja ou nos Seus membros. Confiemos em Deus, sem nos deixarmos jamais abater pelos triunfos transitórios dos nossos inimigos. Na luta de Satanás contra os santos, Deus terá sempre a última palavra, e acabará por prevalecer. Ele não permite que sejam agredidos senão para lhes dar ocasião para manifestar as Suas mais brilhantes virtudes.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Pax hominibus bonae voluntatis (Lc 1, 14)

(2) Non est pax impiis (Is 57, 21)

(3) Qui simplici oculo quietius et quid liberius nii desiderante in terris? (III Imitação de Cristo 31, 1)

(4) Ecce vere Israelita, in quo dolus non est (Jo 1, 4)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 177-180)