Meditação para a Oitava Quinta-feira depois de Pentecostes. Preço do Tempo

Meditação para a Oitava Quinta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o preço do tempo e o modo de fazer bom uso dele.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De poupar todos os minutos, empregando-os sempre utilmente;

2.° De evitar as conversações ou leituras frívolas e outras maneiras de esperdiçar o tempo.

O nosso ramilhete espiritual será a palavra do Espírito Santo:

“Meu filho, aproveita o tempo” – Fili, conserva tempus (Ecl 4, 23)

Meditação para o Dia

Adoremos a bondade infinita de Nosso Senhor, que nos remiu e concedeu o tempo para que possamos preparar-nos para a eternidade, único fim a que devem referir-se todos os momentos da nossa existência cá na terra. Roguemos-Lhe que nos faça conhecer o preço do tempo, e que nos conceda a graça de nunca abusar dele.

PRIMEIRO PONTO

Qual é o preço do tempo?

O tempo vale:

1.° Tanto como o céu: porque o céu é a recompensa que Deus assinou ao bom uso do tempo. Um só momento bem empregado pelo bom ladrão alcançou-lhe, apesar dos crimes da sua vida anterior, a posse do céu; e ainda quando, com a santidade da nossa vida, sejamos dignos do céu, um novo instante bem empregado pode conseguir-nos um novo grau de glória e felicidade por toda a eternidade, isto é, como que um novo céu no mesmo céu.

2.° Tanto como o sangue de Jesus Cristo: porque esse sangue é o preço porque nos foram resgatados todos os momentos da nossa existência; é como a moeda que representa o valor do tempo. Se, pois, esse sangue se chama precioso, o tempo deve ser-nos precioso na mesma proporção, isto é, além de toda a expressão: porque, quem poderia dizer o valor desse sangue, de que uma só gota teria bastado para resgatar milhares de mundos?

3.° Tanto como Deus: porque cada instante bem empregado pode alcançar-nos a posse de Deus na eternidade.

4.º Finalmente, o tempo é de tão elevado preço, que Deus não o dá senão gota a gota, se assim posso dizer, sem conceder jamais dois instantes conjuntamente. Só podemos gozar de um curto momento, que passa como o relâmpago; e se deixamos de o aproveitar, perdemo-lo para sempre, irreparavelmente: pois nem o tempo passado volta, nem outro tempo pode repará-lo,

1) porque esse outro tempo é já devido a Deus, e o que é devido não poderia pagar outras dívidas;

2) porque o tempo, podendo ser-nos tirado a cada momento, é a coisa do mundo mais incerta, e uma coisa incerta não pode ser destinada para pagar uma dívida certa: de onde se segue que devemos fazer, com relação ao tempo, o que fazem os que, tendo poucos rendimentos, não gastam nenhuma parte deles em despesas inúteis, e tiram do que possuem o melhor proveito possível.

É assim que temos avaliado o tempo?

SEGUNDO PONTO

Modo de fazer bom uso do tempo

1.° É preciso fazer a cada momento o que Deus exige de nós com relação a esse momento. Como o tempo pertence a Deus e não a nós, não temos direito de dispôr dele para outro uso senão o que Ele quer, de ceder a menor parte dele ao gosto ou desgosto do momento, e de consultar o capricho sobre o uso que dele havemos de fazer.

2.° É preciso fazer tudo com o fim e agradar a Deus. Deus só recompensa o que se faz por Ele. Se obramos por amor de nós, da criatura, perdemos o nosso tempo e trabalho. Em vão faziam os fariseus boas obras; Jesus Cristo declarou que eles nenhuma recompensa receberiam, porque as faziam para se exaltarem a si, e não para agradar a Deus. Oh! Quantos momentos se perdem assim!

3.º É preciso fazer todas as coisas o melhor possível. Em todas as vossas obras conservai a vossa preeminência (1), diz o Espírito Santo. Fazer as coisas com negligência e imperfeição, quando nos propomos faze-las por Deus, é faltar ao respeito a Deus: porque quanto mais eminente é o personagem por quem trabalhamos, tanto mais perfeito deve ser o que fazemos por ele.

Por quem fazeis esta obra? perguntou um dia Santo Inácio a um dos seus religiosos, negligente na sua reza.

— Faço-a por Deus, respondeu este.

— Tanto pior, replicou Santo Inácio: se a fizésseis por mim, eu vos teria desculpado de a fazerdes mal; mas visto que é por Deus que a fazeis, não tendes desculpa de empregar nela tão pouco cuidado e desvelo.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) In omnibus operibus tuis praecellens esto (Ecl 33, 23)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 32-35)