Meditação para a Quinta-feira da 2ª Semana depois da Páscoa. Obrigação de seguir as Suas pisadas

Meditação para a Quinta-feira da 2ª Semana depois da Páscoa

SUMARIO

Meditaremos sobre o segundo dever das ovelhas do Bom Pastor:

“As ovelhas, diz Ele, seguem o seu pastor, e não seguem o estranho” – Oves illum sequuntur, alienum autem non sequuntur (Jo 10, 4)

Com isto Jesus Cristo:

1.° Proíbe às almas, que querem pertencer-Lhe, de seguir o mundo;

2.° Ordena-lhes que O sigam só a Ele.

— Depois destas considerações, tomaremos a resolução:

1.° De corrigirmos em nós tudo o que cheira ao espírito do mundo, ao seu luxo imoderado, à sua moleza, à sua sensualidade, aos seus loucos prazeres;

2.° De nos propormos, em todas as coisas por norma de proceder os exemplos e as máximas de Jesus Cristo.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Nosso Senhor:

“As ovelhas do bom Pastor seguem-o e não seguem o estranho” – Oves illum sequuntur, alienum autem non sequuntur (Jo 10, 4)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus, o Bom Pastor, convidando-nos a segui-lO (1), convocando-nos a todos para o Seu aprisco para de lá nos conduzir ao céu. Ditoso o que ouve o convite de Jesus e segue as Suas pisadas. Ai daquele que ouve outra voz e segue outro senhor. Demos graças ao Bom Pastor pelo Seu delicioso convite.

PRIMEIRO PONTO

Quem quer pertencer a Jesus Cristo não deve seguir o mundo

“Ninguém pôde servir a dous senhores, a Deus e ao mundo” – Nemo potest duobus dominis servire (Mt 6, 24)

Há entre um e outro completa oposição.

“A amizade deste mundo é inimiga de Deus. Logo todo aquele que quiser ser amigo deste século, se constitui inimigo de Deus” –  Amicitia hujus mundi inimica est dei. Quicumque ergo voluerit amicus esse saeculi hujus, inimicus Dei constituitur (Zc 4, 4)

Não ameis ao mundo, nem ao que ha no mundo (2), diz o Espírito Santo. Todo o mundo está posto no maligno; as suas modas, as suas leis, as suas máximas, os seus exemplos não respiram senão o mal (3). Só estima o ouro e a prata, a magnificência e a grandeza, o fausto e as diversões profanas, o prazer e o gozo, os aplausos e os louvores. O caminho, que segue, é largo, espaçoso, semeado de rosas. Está-se ali à vontade, não se sente incômodo; folga-se, ri-se, tem-se lá uma vida de prazer. Mas também se esquece a própria salvação, a eternidade. Seduzido por um falso brilho de felicidade, só se pensa em agradar ao mundo e em ser dele amado; não se conversa senão nas suas festas e novidades, nos seus espetáculos e companhias, em tudo o que favorece as paixões, lisonjeia o amor-próprio e a vaidade, a ambição das honras e das riquezas. Em uma, palavra, só se vive para o presente, e não se cuida mais na vida futura, como que se não devesse nunca existir. Ora é evidente que, seguindo semelhante caminho, não se pode pertencer já a Jesus Cristo; deixa-se de ser ovelha do Seu aprisco, e não se pode esperar ser introduzido por Ele nas pastagens eternas.

Entremos aqui em nós mesmos, e examinemos se o nosso coração encerra ainda muitos restos do espírito do mundo, o amor de uma vida sensual, a busca perpétua das nossas comodidades, os cuidados do respeito humano, os melindres do amor-próprio.

SEGUNDO PONTO

Quem quer pertencer a Jesus Cristo deve seguir as Suas pisadas

Este mesmo divino Pastor no-lo declara:

“As minhas ovelhas seguem-me, nos diz ele. Dei-vos o exemplo, para que como eu vos fiz, assim façais vós também” (Jo 13, 15)

Jesus Cristo, querendo reformar o mundo, quis que esta reforma se fizesse por meio do exemplo ainda mais que pela voz dos preceitos. Todo o cristão, diz São João, deve seguir as pisadas de Jesus Cristo (4). É esta a nossa vocação (5). De acordo com esta regra, Deus Pai declara-nos, por São Paulo, que não receberá no Seu reino senão os que forem conformes à imagem de seu Filho (6). Eis porque o Apóstolo dizia aos fiéis:

“Sede meus imitadores, bem como eu também o sou de Jesus Cristo” – imitatores mei estote, sicut et ego Christi (1Cor 11, 1)

Um cristão, segundo o falar dos padres, é um outro Jesus Cristo e o cristianismo uma imitação de Jesus Cristo. Este caminho, muito diferente do mundo, é estreito, pedregoso, semeado de espinhos, isto é, que se deve nele ter incômodo e padecer; mas é o caminho de Jesus Cristo, e conduz seguramente ao céu. Que mais é preciso para nos resolvermos a segui-lO, e à perguntar muitas vezes a nós mesmos no caminho da vida:

É assim que pensaria, que obraria, que falaria Jesus Cristo? É esta a Sua humildade, a Sua caridade, a Sua mansidão, a Sua paciência? – Quid nunc Christus?

Quanto, lucrariam os, fazendo muitas vezes esta pergunta a nós mesmos !

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Venite ad me omnes

(2) Nolite diligere mundum neque ea quae in mundo sunt (Jo 2, 15)

(3) Mundus totus in maligno positus est (1Jo 5, 19)

(4) Debet sicut ille ambulavit, et ipse ambulare (1Jo 2, 6)

(5) In hoce vocati estis… ut sequamini vestigia ejus (1Pd 2, 21)

(6) Quos praescivit, praedestinavit conformes fieri imaginis Filii sui (Rm 8, 29)

(7) Imitatores mei estote, sicut et ego Christi (1Cor 11, 1)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 296-298)