Meditação para a Vigésima Quarta Terça-feira depois de Pentecostes. Máximas do Mundo

Meditação para a Vigésima Quarta Terça-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Como o espírito do mundo, sobre que meditamos esta manhã, expõe máximas que passam por axiomas incontestáveis, consideraremos na nossa oração:

1.º Quão falsas são estas máximas;

2.° Que todo o cristão deve preferir-lhes e amar as máximas de Jesus Cristo.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De não nos importarmos com as máximas do mundo;

2.º De termos sempre por norma do nosso proceder as máximas de Jesus Cristo.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Evangelho:

“Um só é o vosso mestre, Jesus Cristo” – Magister vester unus est, Christus (Mt 23, 10)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo, a verdade eterna descida do céu à terra para alumiar a todo homem que vem a este mundo (1). Demos-Lhe graças por ter vindo fazer resplandecer esta suave e benéfica luz no meio dos erros que cobrem a face da terra (2). Serão poucos todos os louvores que Lhe tributarmos.

PRIMEIRO PONTO

Quão falsas são as Máximas do Mundo

A melhor prova da falsidade destas máximas é que estão em oposição direta com as máximas da eterna verdade, que é Jesus Cristo. Porque:

1.º O mundo diz:

“Se vos oferecerem honras, não as recuseis; se vo-las não oferecerem, buscai-as; proceder de outra sorte é não ter inteligencia nem coração. Feliz o que é engrandecido, elogiado, e que busca a glória; desgraçado o que tem uma vida obscura”

Ao contrário, Jesus Cristo diz:

“Bem-aventurados os humildes; bem-aventurados os que padecem perseguição por amor da justiça; bem-aventurados aqueles contra quem dizem todo o mal, se sofrem com paciência e resignação; bem-aventurados os que se não envergonham de praticar a religião e de se confundir deste modo com o vulgo, sabendo compreender que, porque muitos homens vulgares são honrados e justos, nem por isso a honradez e a justiça são menos dignos de espíritos elevados”

2.° O mundo diz:

“É necessário ser insensível para não amar os prazeres e gozá-los, quando se pode. Bem-aventurado o que os tem à medida do seu desejo, que se diverte, e cujos dias e noites decorrem na alegria; desgraçado o atribulado”

Ao contrário, Jesus Cristo diz:

“Bem-aventurados os que padecem e choram, porque serão consolados, e ai dos que agora riem, porque gemerão e chorarão”

3.° O mundo diz:

“É necessário ser muito louco para amar a pobreza e a preferir às riquezas. Ditoso o rico, que de nada carece, e que obtém tudo o que deseja, que tem todos os dias uma mesa lauta, onde pode satisfazer todos os seus apetites; que tem numerosos criados desvelados em prevenir todos os seus desejos ou em executar as suas ordens; que habita em belos palácios cheios de todas as invenções da moleza e do luxo; que se recreia em passear pelas suas vastas propriedades, dizendo: ‘Tudo isto me pertence'”

Jesus Cristo, ao contrário, diz:

“Ai de vós os que sois ricos, porque tendes a vossa consolação neste mundo, porque está escrito, que o mau rico morreu e foi sepultado no inferno; mas bem-aventurados os pobres, que sabem sofrer privações, porque deles é o reino dos céus”

4.º Finalmente, o mundo diz:

“É necessário a todo o custo ser feliz cá na terra; é este o nosso grande negócio”

Ao contrário, Jesus Cristo diz:

“O vosso grande negócio, o vosso único negócio é salvar-vos. A felicidade não é para a vida presente; é para a vida futura. De nada vos aproveitará ganhar o universo se perderdes a vossa alma”

Tais são as máximas contraditórias de Jesus Cristo e do mundo; não podem ser verdadeiras todas ao mesmo tempo. Ou o mundo se engana, ou Jesus Cristo se engana; o mundo ousa dizer que Jesus Cristo não tem razão, que a sua cruz é uma estultícia. «Estais louco», disse um grande do mundo a São Paulo. (3). Ousaremos nós dizer o mesmo?

SEGUNDO PONTO

Todo o Cristão deve preferir às máximas do mundo amar as máximas de Jesus Cristo

Se em outro tempo o mundo se prostrava diante de Aristóteles, filósofo pagão, quando ele falava; se bastava que se proferisse esta só palavra: O mestre disse-o, para que todas as inteligências se submetessem; quanto mais dóceis não devemos nós ser a esta palavra: Jesus Cristo disse-o? Jesus Cristo disse:

“É uma felicidade ser humilde, pobre, padecer”

Logo isto ó verdade, e creio-o tanto como na existência de um Deus trino em pessoas, tanto como na Encarnação e Redenção: porque Jesus Cristo não é menos crível nas verdades morais do que nos dogmas especulativos. O mundo, ao meu lado, obrará, falará, e pensará de diverso modo; mas que me importa o que diz ou obra um louco, quando estou certo de que sigo a eterna verdade? Pertencerei, pois, todo só a vós, meu Deus! Sem me dividir entre Vós e o mundo, entre a cruz e o prazer, entre a graça e a natureza (4). Mas ocorre-me, Senhor, uma reflexão que me confunde. Sondo a minha consciência, olho para a minha vida passada. Se creio esta verdade, porque deixei eu, nas tribulações e privações, escapar estas queixas, estas lamentações, estas palavras de incredulidade: Deus não é justo fazendo-me assim sofrer? Porque, pois, vendo a prosperidade dos maus, e os gozos daqueles que mostram ter uma vida não atribulada, me veio aos lábios este brado: Quão felizes são, e quanto eu desejara estar no seu lugar? Perdão, meu Jesus! Não acreditei na Vossa palavra que me dizia que o sofrimento é uma felicidade, a pobreza um bem, o desprezo ou a humilhação uma glória. E, todavia, esta palavra é tão doce, tão benéfica! Consola o aflito; desapaga dos bens o rico; dispõe-o a ser caritativo e generoso; reprime as paixões.

“Ó meu Deus, aumentai a minha fé” – Adange nobis fidem (Lc 17, 5)

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ego sum… veritas (Jo 14, 6); Ego sum lux mundi (Jo 8, 12); Quae illuminat omnem venientem in hunc mundum (Jo 1, 9)

(2) Lux in tenebris lucet (Jo 1, 5)

(3) Insanis, Paule (At 26, 24)

(4) Sequar te quocumque ieris (Mt 8, 19)

Voltar para o Índice das Meditações Diárias de Mons. Hamon

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 187-190)