Meditação para a Quinta-feira da 5ª Semana depois da Epifania. Jesus no meio dos Doutores

Meditação para a Quinta-feira da 5ª Semana depois da Epifania

SUMARIO

Voltaremos hoje ao templo de Jerusalém, onde deixamos no dia anterior o Menino Jesus, e O consideraremos:

1.° Nas Suas relações com os doutores da lei;

2.° Nas Suas relações com Seus Pais;

— Tomaremos, depois a resolução:

1.° De observarmos sempre uma perfeita modéstia, quando falarmos ou tratarmos com o próximo;

2.° De antepormos sempre os interesses de Deus e os de Seu serviço a qualquer outra consideração.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Evangelho:

“Deus primeiro que tudo” – Quaerit primum regnum Dei (Mt 4, 33)

Meditação para o Dia

Adoremos o Menino Jesus sentado humildemente no banco dos discípulos, no meio dos doutores (1). Admiremos essa humildade da sabedoria eterna do Mestre de toda a ciência e de toda a luz, ouvindo e fazendo perguntas a simples homens; envergonhemo-nos da nossa presunção e insuficiência.

PRIMEIRO PONTO

O Menino Jesus no templo, nas Suas relações com os doutores da lei

1.° Jesus ouve-os (2): ninguém certamente podia ensinar-Lhe coisa alguma, nem falar melhor do que Ele. Mas o Seu silêncio era uma grande lição que Ele queria dar-nos. Queria ensinar-nos primeiro que tudo a calar-nos; arrependemo-nos muitas vezes de ter falado, e raras vezes de nos termos calado: depois a não aparentar em sociedade uma suficiência que a modéstia desaprova; a não interromper os que falam, a ouvir os outros mostrando interesse em instruir-nos, se não sabemos o que dizem, em instruir-nos ainda melhor, se já o sabemos; porque há sempre proveito em ouvir, sem meter na conta que com isso temos a felicidade de não contristar aquele que fala, e de dar à nossa ciência o seu mais belo realce, que é a modéstia.

2.° Jesus, faz perguntas aos doutores (3), não porque ignorasse alguma coisa, mas porque queria ensinar-nos que a verdade é uma herança que se transmite do Pai ao filho, do mestre ao discípulo (4); que querermos ser o nosso próprio mestre, sem conselho e sem guia, é perdermos o caminho da instrução; que o que Deus manda é, que sejamos ensinados por outros homens, como outrora Davi por Natan e Gad, Moisés pelos conselhos dos anciãos, Saul por Ananias; que a nossa vaidade é extremamente grande, o nosso saber extremamente pequeno, se não vemos que ignoramos muitas coisas, e que é um louco orgulho preferir não nos instruirmos, fazendo perguntas aos mais doutos, a revelar a nossa ignorância, fazendo-as; que finalmente, consultando, evitamos muitas faltas, esquivamo-nos a muitos arrependimentos, e que é sempre prudente juntar a ciência dos outros à nossa própria ciência.

3.° Depois que o Menino Jesus fez perguntas aos doutores da lei, estes, por seu turno, faziam-lhas; e Ele respondia-lhes com uma modéstia e sabedoria que enchia de admiração todos os que O ouviam. Dá-nos talvez vontade de invejar a felicidade destes ouvintes, mas lembremo-nos que Jesus Cristo nos fala pelo Seu Evangelho, por todos os ensinos dos Seus ministros, pelas Suas santas inspirações.

Ouçamos, admiremos, e pratiquemos.

SEGUNDO PONTO

O menino Jesus no templo, nas Suas relações com Seus Pais

Maria, tendo reconhecido Jesus no meio dos doutores da lei, chega-se logo a Ele, e diz-Lhe, não por modo de repreensão, mas por um sentimento de admiração e espanto:

Filho, porque usaste assim conosco?

Ela não diz: comigo, mas: conosco, porque a verdadeira caridade confunde num interesse comum a aflição dos outros e a sua própria. Não descreve a sua aflição, mas diz simplesmente: Porque usaste assim? Expressão geral que encerra todo o excesso da sua dor. Teu pai e eu, acrescenta ela, te andávamos buscando. Ela não diz: eu e teu pai, mas: teu pai e eu, palavras de humildade, em que se coloca em segundo lugar, e em que se faz passar por uma mãe ordinária.

A estas palavras tão cheias de simplicidade, Jesus responde: Para que me buscáveis entre os parentes e amigos, e não antes no templo, que é a casa de meu Pai?

Não sabeis que importa ocupar-me nas coisas que são do serviço de meu Pai?

Resposta mais admirável ainda do que a queixa, porque:

1.º Ela dá ocasião a Maria para nos ensinar com o seu exemplo a sofrer em silêncio uma repreensão, até não merecida;

2.º Revela-nos que Jesus Cristo é mais do que um homem, e que tem a Deus por Pai;

3.º Ensina-nos que devemos antepor o serviço de Deus à afeição para com os pais, aos interesses de família, e empregar-nos nele do modo, no tempo e lugar, que lhe aprouver;

4.º Que o lugar de uma alma cristã é muito mais no templo para orar, meditar e ouvir a lei do Senhor, do que nas assembleias e rodas de gente que não poderiam senão distrair-nos e corromper-nos. Quantos ensinos nas palavras tão simples do Menino Jesus!

Meditemo-las, e conformemos com elas o nosso procedimento.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Sedentem in medio doctorum (Lc 2, 46)

(2) Audientem illos (Lc 2, 46)

(3) Interrogantem eos (Lc 2, 46)

(4) Interroga… majores tuos, et dicent tibi (Dt 32, 7)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 283-286)